As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 14 de 289

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As Luzes de Leonor

Caderno

Inúmeras têm sido as vezes em que se assustou com o seu excesso, mas igualmente com a frieza e o distanciamento que, pelo avesso do fogo, ela sabe fazer seus. Tão depressa presa de melancolia como da ironia, ora pessimista, imaginando-se eternamente sequestrada naquele vale sombrio, ora sonhando com fascinantes viagens improváveis. Fazê-la encontrar um equilíbrio entre estas duas posições tem-se revelado inútil.

Com ele, Leonor de Almeida prefere discutir o pensamento filosófico, a arte da política, os avanços da ciência. Partilham Pascal, Pope, Fénelon e até Rousseau. Ajudando-a ele a encenar uma comédia de Voltaire, que fez escândalo entre madres, padres e pensionistas, causou rebuliço entre as noviças e enfureceu a madre superiora. Durante as longas tardes de estio, que ambos têm passado juntos no convento de Chelas, aproveitam a luz demorada que sobeja dos intervalos entre as vésperas e as completas para falarem de poesia.

 

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CADERNO

 

Na Carta aos Coríntios, a certa altura São Paulo escreve:

«Subjugo o meu corpo e reduzo-o à servidão.»

No oposto desta frase de escuridão e severamente solitária, diria até ameaçadora, dou comigo a perguntar-me:

Qual é a dimensão da minha dádiva?

Entre a claridade e o negrume prefiro a Luz.

Chelas, 20 Janeiro de 1766

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Passados que são seis anos desde a primeira das sigilosas cartas enviadas ao pai, Leonor continua a escrever-lhe, embora calando por sistema as dúvidas e os sobressaltos pessoais.

A iludir o coração desatado no peito, a vontade determinada e o olhar ensombrecido, inventando-se e recriando-se naquela que não é mas ele gostaria que fosse: filha mansa e obediente de quem se orgulha tanto, assistindo-a e dirigindo-a do cárcere, a apontar-lhe os erros, a determinar-lhe as preferências e o gosto, a querer educá-la, a formar-lhe o carácter.

Certa de que, por seu lado, a mãe espera e pretende dela apenas a falta de imaginação e a rígida obediência, Leonor parece disposta a seguir à risca esse passivo destino feminino. No seu caso, um elo a ligar os afectos, uma espécie de ponte entre o convento de Chelas e a prisão da Junqueira.

Tenta pois dominar a rebeldia, domar o pensamento, limitando-se a colocar no papel o relato da rotina do dia-a-dia, em vez das dúvidas, das ideias que os estudos despertam e os livros desencadeiam. A omitir as revoltas, as ambições, os versos escritos, os mil cambiantes de que são feitos os seus sonhos assim como tudo aquilo que a leva a voar.

Aqui e ali finge ceder.

Mas logo a seguir, de forma irresistível, revolta-se e infringe.

Por isso, começara por ler alto à mãe e a Maria as cartas que envia ao pai, mas com o tempo passa a resumi-las, calando bastante do muito que lhe escreve; porque elas não o entenderiam – desculpa-se perante si mesma –, e no que vai contando nessas inúmeras missivas, repete o mesmo artifício em relação às ideias e aos pensamentos próprios, mal levantando o véu, a descobrir apenas metade e por vezes menos ainda.

Com extrema habilidade, tapa a rebeldia com a nuvem do sacrifício, a ansiedade com um humilde amor filial na obediência às ordens paternas, que na realidade não cumpre. E exímia na arte do encobrimento, contorna escolhos, passa a vau rios caudalosos, salta precipícios e vedações.