As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 109 de 289

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As Luzes de Leonor

Raízes

†

 

As mãos esvoaçam-lhe perto do rosto, enquanto se olha ao espelho que recolhe a luz trémula e mortiça das velas do castiçal de prata colocado na mesa de toilette à frente da qual se senta, a pôr água de malva nos pulsos.

Tentando acalmar-se.

Solta os cabelos que vão ondeando, a cobri-la até à cintura num oceano de mansa seda. Fita-se nos olhos azul-cobalto e estremece perante o ódio recolhido de que neles se dá conta: febris e argutos, de chama curta mas intensa, com um implacável cintilar cruel que a si mesma dá medo.

Mas Leonor de Távora não é mulher para temer os próprios sentimentos. Levanta-se sem ruído e vai até à cama para beijar os lábios entreabertos de Francisco de Assis, a recolher-lhe o odor do hálito; passa os dedos pelo desalinho dos seus caracóis humedecidos. Alguém dirá mais tarde ter sido a noite de 3 de Setembro de 1758 invulgarmente quente.

Descalça, abeira-se da janela entreaberta que dá para o jardim, entre o muro e a parede alta caiada de branco do lado oposto; ao fundo da alameda de álamos, no alto portal da entrada estão as armas dos Távora. Respira fundo o ar da madrugada, que no Campo Pequeno é liso e lavado. Àquela hora as nogueiras desprendem com intensidade o seu cheiro adocicado.

Sente-se cansada. Ela e o marido tinham chegado na véspera de Lisboa, onde se demoraram o tempo de se deslocarem ao Palácio de Madeira, convocados por El-Rei para uma audiência privada durante a qual Sua Majestade os quisera obrigar a não enviarem a marquesa nova para o Convento da Madre de Deus, criticando-os com rancor por a terem levado e trancado na sua casa onde a mantêm sob vigilância, e pela crueldade e aspereza com que ambos a tratam.

– Está em causa a honra da nossa família, Vossa Alteza! – respondera ela indignada, avançando, audaz. Mas o olhar gelado e ameaçador do Rei D. José detivera-lhe o passo.

– Pressinto haver um grande perigo por trás desta audiência, e uma ameaça velada nas palavras do Rei –, inquietara-se Francisco de Assis à saída do Paço.

Debruçada na janela de sacada, Leonor de Távora assiste ao raiar da manhã, atenta aos indícios e aos sinais que lhe manda a natureza. A escutar o silêncio que à sua roda começa a ser quebrado pelo cantar ainda hesitante dos pássaros; pelo rumorejar dos bichos pequenos a vaguearem por entre a erva molhada do orvalho, ladeando os gravetos e as folhas caídas das árvores; pelo zunir dos insectos pousando e teimando na rama e nas ervas daninhas, nos cardos que apodrecem no chão; pelo crepitar imperceptível das rosas de pétalas recolhidas, a tentarem defender das brumas da madrugada a delicadeza do pólen. Atrás dela começam igualmente a surgir os ruídos da casa.

Sobrepondo-se a estes barulhos mínimos e contidos, parece-lhe ouvir o rodar abafado de uma carruagem que, por entre o negrume raiado pela alvorada, se aproxima e finalmente pára ao abrigo da folhagem das árvores. Leonor de Távora recua depressa, encostando a janela, e fica a espreitar através das cortinas de renda ligeiramente afastadas, o que lhe permite ver Teresa embuçada, cabeça e rosto a coberto do capuz e da capa negra traçada à frente com as mãos enluvadas. Adivinha-lhe o susto no modo como se esquiva por entre os restos da noite.

Nervos à flor da pele, hesita entre ignorar o que viu e ir ao encontro da nora, que já deve ter entrado nos seus aposentos na outra ala da casa. O descaramento e a desonestidade de Teresa chocam-na tanto quanto a indigna e escandaliza a sua infidelidade. No entanto, é sobretudo a desonra que transtorna Leonor de Távora, desonra tanto maior quanto o amante da mulher de seu filho é o Rei de Portugal.

Põe o xaile pelas costas, pega na palmatória e, não querendo despertar o marido, entreabre a porta rodando com cautela a maçaneta de porcelana e avança pelo corredor sombrio, desce a larga escadaria deixando a palma da mão direita correr pelo corrimão de mármore lustroso do muito uso, a assinalar os anos. E no último degrau descobre uma luva de camurça preta que, na pressa de subir, Teresa perdera; a seu lado encontra-se um lenço de seda com a coroa bordada a ouro, pertença de El-Rei.

Leonor de Távora, tentando acalmar o coração que lhe falha, senta-se no degrau onde pousa a vela. Ela sabe que na Corte cada vez se comenta mais alto a aventura galante do Soberano com sua nora-cunhada, e julga morrer de vergonha. À sua volta sente adensar-se uma névoa maligna que já a envenena, e na boca tem o gosto acre e acidulado

do sangue da vingança.

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