As Luzes de Leonor
Capítulo 1781
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A Rainha estranha o silêncio da sua valida.
Afinal fora para favorecer Leonor que entregara ao conde seu marido o cargo de ministro plenipotenciário em Viena, lamentando intimamente que, por ser mulher, não tenha podido designá-la em vez dele.
Motivo que a enerva e irrita, acirrando-lhe o ressentimento que permanece no seu coração timorato: a lembrança de como Pombal manobrara, junto do Rei D. José seu Pai, na tentativa de o levar a instituir a Lei Sálica que a afastaria da sucessão no trono de Portugal.
Tomada por uma cada vez maior inquietação, ora presa de insónias, de terrores nocturnos e pesadelos invasores da tranquilidade, ora tomada por pressentimentos que lhe gelam a alma, D. Maria é invadida por dúvidas que a deixam vulnerável a quem rumina intrigas contra ela.
No meio da sua solidão desamparada, a Soberana sente falta da condessa sua protegida, de quem conhece o carácter frontal e ardente, a inteligência, o talento e as Luzes. Como já esperava, começam a correr no Paço notícias das rutilações e maravilhamentos levantados em torno da sua presença na Corte austríaca.
Ao mesmo tempo, principiam a desabrochar as invejas até então recolhidas, recalcadas, os rancores antigos, as perfídias mesquinhas que a Rainha finge ignorar. Mas como escusar-se a dar alguma razão às preocupações de Aires de Sá e Melo, não vendo chegar da Áustria qualquer sinal satisfatório no respeitante às negociações dos casamentos da Infanta Mariana Vitória e do Príncipe D. João? Até porque o ministro, tomado de má vontade, impacientando-se com a ineficácia do embaixador português em Viena, entrara já em despique com o arcebispo de Tessalónica, que a todo o custo tenta encontrar desculpas quer para a aparente inoperância do conde, quer para os inesperados calamentos de D Leonor,
flor de sua especial eleição.
Embora dividida, D. Maria cuida de ir harmonizando no peito as suas duas partes: o coração feminino a recomendar-lhe tolerância e brandura, e o austero lado político,
que a leva a escolher o bem da Pátria.
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Desliza pelos corredores do Palácio de Queluz, pés quase voando no passo alado silenciado pelos delicados sapatos de cetim bordados a prata; a pretender adivinhar nas entrelinhas das muitas conversas e inconfidências trocadas entre as fidalgas aquilo que poderá dizer-lhe respeito e a Rainha sua Mãe lhe esconde, enquanto vão determinando o seu futuro.
Ansiosa por saber em que ponto se encontram as negociações conduzidas pelo conde de Oeynhausen em relação ao possível enlace com o Imperador José II, a Infanta Mariana Vitória não desiste, embora tremendo e temendo o que poderá descobrir por entre futilidades, segredos traídos e contados a esmo, sem nenhum recato, pelas aias e damas de companhia do Paço, ociosas a maior parte do dia.
Assim, sonsa, rasteira e muda a fim de passar despercebida, não desiste, continuando na busca obstinada do que mais tarde ou mais cedo passará a ser público e que ela, se pudesse, recusaria: a notícia do seu casamento combinado, que a fará deixar Portugal para ser recebida por um marido tão desconhecido quanto indesejado.
Delgada no vestido em fio de linho de seda malva, enfeitado na cintura mínima e nos punhos das mangas tufadas com entremeios de renda de Bruxelas, esgueira-se a Princesa pela nesga das portas entreabertas, a deslizar cosida às paredes, disfarçando-se na sombra do vão dos arcos, dos cortinados de veludo carmesim, dos móveis requintados; conseguindo passar despercebida, sobretudo na Sala das Açafatas, alegre, turbulenta e ruidosa de falas destemperadas, de risos e palavras soltas, de murmúrios e sussurros, mas também de suspiros iludidos e alguns soluços amordaçados.
Paredes meias com esta sala, onde a luz intensa faz ninho durante as tardes de primavera e verão, encontra-se o toucador sombrio de D. Maria, lugar privilegiado para a menina Real procurar as pistas desejadas; só terá de usar de subtileza e de habilidade para descodificar a linguagem usada entre as camareiras: veladamente construída à custa de subentendidos, de meias mentiras e meias verdades, de frases formais e enlutadas, de insinuações ferinas logo mudadas em brandura. Aí, ouve inúmeras referências à condessa de Oeynhausen, enquanto o nome do conde seu marido é igualmente pronunciado amiúde nos salões pelos homens políticos, e sigilosamente em reuniões de ministros, não gozando entre eles de grande simpatia.
A pouca idade de D. Mariana Vitória leva-a de corrida e preferência para os jardins do Palácio, áleas de terra batida e gravilha por onde gosta de andar em sossego de adulta, evitando os lagos e as fontes, ouvido atento às conversas de quem passeia ou se senta nos bancos de pedra macia.
A Princesa sente-se assustada,
acossada,
cismando com a sua sorte.
Até que ao fim de uma manhã febril, ela pára diante da jaula dourada da pantera ensimesmada, julgando encontrar similitude entre o destino das duas, sem remissão possível. Prisioneiras de estranhas vozes só para elas audíveis, conduzidas até ali pelo vento ardente de súbito levantado em redor dos limoeiros doces, a fazer mover com lentidão as rubras rosas trepadeiras do caramanchão, os cachos lilases da glicínia frondosa, e ao de leve os anéis dos cabelos louros e frisados da Princesa, aturdida pelo sueste, que vai despertar no olhar cego e vazio da fera enjaulada a sua antiga cintilação predadora.
Imobilizadas ambas sob o sol impiedoso.
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Ao contrário do que imaginara, o ter saído de Portugal não o torna feliz, antes pelo contrário. Se possível Carlos Augusto sente-se agora ainda mais só, mais melancólico, mais perdido.
Quisera
ter recomeçado de novo, retomado a sua vida, reinventado tudo do
começo, esquecendo a consciência pesada pelo mal feito ao jogo e a fuga da prisão; mas continuava a sentir o animal do vício a correr-lhe nas veias.
Ansiara
por fazer frente às tentações, recuperar o orgulho que em si levara
sumiço, tomar as bravuras de herói, os actos destemidos; sem recear a alegria, sem olvidar os ideais, sem temer os combates difíceis; a tornar menos pesados os dias.
Tentara
fugir ao apelo da matilha de lobos que por vezes parece regressar para
correr em torno do seu peito, a cerração e o sobressalto a corroerem-lhe o pensamento e o sangue, embora procure fingir o contrário.
Supusera
que o casamento o fosse equilibrar, o deixasse vir à tona do mar de
palha da angústia, a fim de respirar com desafogo, deixando-se iluminar pelo amor, conduzindo a claridade possível até às penumbras do coração como punho fechado.
Julgara
conseguir igualar-se a quem vê singrar à sua volta sem necessitar do
regaço amado; esquecendo os pesadelos, a intranquilidade que lhe rasga a alma; encontrando a paz e o equilíbrio, o refrigério de Viena a tornar os dias menos penosos.