As Luzes de Leonor
Caderno
Ser por natureza contrária à disciplina, mas depender dela para vencer os obstáculos e os desastres que o destino apronta. Reconhecer-me na paixão e ambicionar a elaboração do distanciamento.
Atormenta-me este meu permanente estado de divisão entre o coração e a razão. E no entanto persigo naturalmente a utopia e o sonho!
Como dizia Da Vinci: «Procuro o improvável, busco o proibido, desejo o impossível.»
Chelas, 29 de Outubro de 1767
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Olham-se com cuidado, suspeitosas mas atraídas uma pela outra apesar da diferença de idade: Teresa no princípio da maturidade, Leonor saindo da adolescência. A estranharem encontrar-se naquele lugar, que lhes parece em tudo contrário ao prazer e ao encantamento.
Teresa de Mello Breyner atravessa sem pressa o parlatório do convento de Chelas, passo leve no chão escorregadio, e pára junto à grade por trás da qual Leonor a observa, dividida entre a curiosidade e o recuo. Ambas direitas e hirtas, chapéu de seda rosada nos cabelos lisos e negros de Teresa vestida de seda verde-água, e Leonor de fita lilás no ondulado cabelo cor de mel, fato de cambraia azul-da-prússia; uma e outra demasiado frescas para aquele rigoroso inverno em Lisboa.
Medem-se as duas, avaliam-se; aproximam-se e afastam-se, mãos nervosas ora a aflorarem as grades ora perdendo-se algures entre a nuca e os pulsos, como quem ajeita o que não se desarruma. Ambas a tentarem encontrar um motivo razoável que lhes permita chegarem à fala, apesar de nunca se terem visto antes. Perturbadas, estranhando aquela imperativa necessidade de se conhecerem.
De visita a D. Josefa de Menezes sua tia, Teresa não percebe como nunca a vira das outras vezes, logo desconfiando poder ser ela uma das netas dos marqueses de Távora que se encontram presas no convento de Chelas. Curiosa, mas de olhos baixos, teima em puxar pelas faixas de cetim que em várias voltas lhe enlaçam a cinta estreita. Por seu lado Leonor esquece-se da mãe que, débil e nervosa, vai à grade na teima de descobrir alguém que lhe possa dar notícias de parentes e amigos, especialmente da sua irmã Mariana, condessa de Atouguia, de quem apenas sabe ter sido fechada com as filhas no convento das religiosas de Sacavém, a mando de Sebastião José.
Cuidando não irritar e menos ainda desafiar as freiras, temendo pôr em causa a autorização assinada pelo Rei que ao fim de tantos anos lhes permite frequentar a grade, Leonor deseja passar despercebida: rosto sem expressão, mãos enlaçadas sobre os joelhos unidos. Por isso inquieta-a ser o centro de interesse daquela desconhecida de ar severo e olhos de avelã, e admira-se com o gosto que lhe dá ver o seu amável olhar entretecido. E quando ela lhe pergunta: «Não sois uma das filhas dos marqueses de Alorna?» – prudente, limita-se a responder: «Chamo-me Leonor de Almeida.»
O resto que lhe vai na alma permanece em silêncio.
Respeitando-lhe o distanciamento natural, Teresa de Mello Breyner limita-se por sua vez a dizer o próprio nome, numa voz ciciada de quem pretende manter entre elas o que só a elas diz respeito. Mas como Leonor continua calada, acrescenta sem nenhum sorriso:
– Pareceis-me em tudo bem diferente das mulheres que conheço…
Coração disparado no interior acrisolado do peito, mas também irritada com a perturbação que não gosta de sentir, Leonor acaba por responder agreste, usando de uma ironia que mal lhe encobre o desassossego:
– Porquê? Pelo recato conventual de que dou mostras, pela pobreza do traje, pela notória falta de cortesia, ou pelo facto de ser neta dos marqueses de Távora, e o ministro Sebastião José de Carvalho e Melo odiar a minha família?
Antes que Teresa tenha tempo de reagir ao propositado desacato, a irmã Maria da Anunciação, naquele dia de vigilância à grade e que escutara as poucas palavras trocadas entre ambas, interfere com indignação, indo queixar-se à marquesa de Alorna da falta de educação de sua filha mais velha para com a condessa do Vimieiro.
Divertidas, elas observam a confusão estabelecida, cúmplices já, sorriso de soslaio, achando graça ao alvoroço da freira. Acabando Teresa por se afastar, mas não sem antes prometer com veemência:
– Eu volto para lhe falar, juro que volto!
E Leonor, sem saber porquê, acredita.
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D. Josefa de Menezes satisfaz com gosto a curiosidade de sua sobrinha Teresa de Mello Breyner em relação a Leonor de Almeida, filha mais velha dos marqueses de Alorna:
– Sempre desconcertante e imprevisível, tão depressa um anjo de doçura como arrebatada pela rebeldia. Ora a imagem da vivacidade e da alegria, ora esquiva e triste, olhar assombrado pelo negrume que parece advir-lhe da fraca constituição da alma.
Fazendo uma pausa longa a tomar fôlego, prossegue:
– Dizem-me fazer poesia e ler muito – Camões, Hildegarda de Bingen, Teresa de Ávila, também Corneille, Horácio ou Racine, Dante e Pope que eu não conheço. Mas, segundo julgo saber, parece interessar-se sobretudo por autores proibidos…
Frente ao olhar desconfiado de Teresa, tenta manter-se amável:
– Vê-se que prefere estudar a assistir a missas e a rezas, tanto se entregando às letras como às ciências. É organista, pinta e escreve sermões para os frades quando lhos encomendam. Aprende o inglês, mas também sabe outras línguas, fala com facilidade o espanhol e o francês. Dizem-na interessada no árabe e no latim.
D. Josefa de Menezes entusiasma-se, atropela as palavras ciciadas, parecendo até desfiar uma história inventada:
– Ao princípio as três choravam muito, afastavam-se de todas nós, hostis e distanciadas. Mas igualmente muita era a animosidade e a má vontade das pensionistas, a maldade e a crueldade que as freiras usavam para com elas, macilentas e de luto fechado, compostura no desgosto profundo, logo porém assustadas, desprotegidas da sorte. Consciente dos perigos que corria se ficasse do seu lado, limitei-me a segui-las de longe, a cumprimentá-las com um sorriso. Anos mais tarde, quando a execução dos marqueses de Távora ganhara já o esvaimento da passagem do tempo, tentei aproximar-me. Sobretudo de Leonor que, agressiva e acossada, me repeliu, recusando a minha companhia de mulher mais velha que com ela simpatizava.
Ao afirmar isto tenta sorrir no disfarce do tom ressentido e inclina-se a procurar, através da grade, prudente, o ouvido de Teresa, para murmurar num cochicho:
– Sabe-se que tem cadernos, diários onde põe os pensamentos mais íntimos.
Empolgada, acrescenta, acariciando as palavras:
– O pior são as cartas clandestinas que escreve e passa para fora. Presume-se serem dirigidas ao Pai, preso no Forte da Junqueira. Desse modo infringe ela a proibição real, o que é crime, além de desrespeitar as regras deste convento.
E já esquecida do cuidado a pôr no tom da fala, desabafa:
– Mas o que lhe importa isso, afinal, se até parece fazer gosto na desobediência! Já a vi rir sem disfarce da prioresa que, para agradar ao conde de Oeiras, tenta controlá-la e à irmã, que em tudo lhe segue os passos.
Tremendo, D. Josefa segreda:
– Para enfurecer o ministro de Estado, os jesuítas levaram as freiras e os padres a convencê-la a tomar votos, a receber o véu negro. Mas ela, depois de ter hesitado, acabou por lhes fazer frente e negou-se a professar. Para tal teve o apoio da Mãe e, consta, do seu confessor Frei Alexandre da Silva, que também é poeta. «Não tenho vocação para professar», teria por fim comunicado com desfaçatez à madre prioresa.
Neste ponto, como se não lhe fosse mais possível moderar-se, D. Josefa de Menezes exalta-se num atropelo febril de quem tem a alma envenenada pela secura fechada do corpo definhado.
Suspirando, aconselha com ansiedade:
– Tem cuidado! A companhia de Leonor de Almeida é perigosa. A ambição acabará por levá-la a querer voar cada vez mais alto, custe a quem custar! Escuta o que te digo: ela virá a cair, mas também tombará quem andar na sua companhia!
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Logo que posso, torno à grade do convento de Chelas.
Sem subterfúgios peço que chamem a filha mais velha dos marqueses de Alorna. E Leonor de Almeida acaba por aparecer, arrastando um tudo-nada o passo, olhando-me de soslaio e com expectativa, fugidia e curiosa. Desse modo aproximando-se vestida de seda escarlate, colete de musselina a adelgaçar-lhe a cintura, alta e esguia; ar senhoril que, como por milagre, nela faz desaparecer a rapariguinha que eu conhecera semanas antes.
Cabelos de ouro ondeando nos ombros ao andar.
Quando ultrapassamos o constrangimento, vigiadas pelo olhar atento e desconfiado das freiras, é como se nos conhecêssemos há muito, e ali ficamos conversando, comparando gostos e amarguras, trocando o prazer das leituras entretanto feitas.
Ousada ela.
Eu um tanto assustada.
Para lhe dar, levo comigo um livro de poesias de Soror Juana Inés de la Cruz, que recebe sôfrega, encostando nele de seguida o rosto, a tomar-lhe o cheiro da encadernação de couro, pele curtida e marcado a ouro. Entrego-lhe depois algumas páginas soltas para onde passei versos recentes de alguns poetas portugueses e brasileiros: de António Correia Garção, que ela já conhece, de Nicolau Tolentino, de Anastácio da Cunha, de Domingos Maximiano Torres e de Francisco Manuel do Nascimento. E num impulso tão raro em mim, sem reflectir, peço-lhe que me deixe ler os seus poemas. De imediato ela recua, recusa, despida dos maneios da Corte. Altiva e directa e sem maciez, dureza vinda por certo do hábito de solidão:
– Como poderia dar-vos a ler a minha alma, se mal vos conheço?
Apesar de nessa altura ter já a certeza de que entre nós estava prestes a firmar-se um pacto de amizade, sem cuidarmos da sorte traçada pelos nossos destinos, disse-lhe, a querer temperar o seu ímpeto:
– Tendes razão. Vamos então conhecer-nos melhor, escrever-nos, ver-nos mais vezes.
E logo ela fica aplacada e sorri, estendendo por entre a grade as mãos bonitas a aflorarem-me os joelhos com os dedos afilados e persistentes no afago, que eu sinto através do cetim do meu vestido cor de cereja sanguínea. Tão diversas as duas, avesso uma da outra, que tenho vontade de lhe propor trocar o meu carácter severo pela sua emotiva ansiedade.
Ela sol e eu resina, goivo ela ou rosa carmesim, e eu pervinca.
Claridade e sombra.
Ela de chama e eu de luz interrompida.
Temperança! – quase imploro, entregando-me no entanto de bom grado ao seu enredo, minha desobediente, ousada e destemida
amiga.
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Foi frei Alexandre da Silva que levou a primeira vez José Correia Garção até à grade do convento de Chelas para conhecer Leonor. A ouvi-la, encantado, dissertar sobre filosofia e matemática, escutar com muito agrado os seus versos, constatar espantado o cintilar dos seus olhos lápis-lazúli.
Depois, foi a vez de Garção conduzir até ela o padre e poeta Francisco Manuel do Nascimento e Sebastião Ferreira Barroco. A estes logo se juntaram frei José do Coração de Jesus e o dr. Inácio Tamagnini, que já a conheciam de um estreito convívio pessoal: o primeiro era seu conselheiro espiritual e o segundo médico de sua mãe. Mais tarde vieram outros poetas da Arcádia Lusitana.
Mas havia também aqueles que iam atraídos pelo seu fulgor, como aconteceu com a bela Joana Isabel Forjaz, até então a mais conhecida e controversa poetisa de Lisboa, que quando foi pela primeira vez assistir aos outeiros de Chelas entrou no locutório com o seu passo harmonioso e esmerada no trajar ousado, ficando de longe a examinar com curiosidade aquela que, embora em clausura, já tanta sombra lhe fazia.
No início tímidas, temerosas, Leonor e Maria desconfiaram do brilho que lhes estava a ser acrescentado. Com excepção feita aos poetas, aqueles que com mais regularidade compareciam à grade pareciam-lhes todos iguais: ruidosos, loquazes, bastante superficiais mas divertidos e em tudo diversos dos seus habituais e limitados interlocutores. Depois, quando também as mulheres começaram a frequentar o parlatório, a diferença afigurou-se-lhes maior ainda, pois tudo as distinguia e diferia das madres, das noviças, das pensionistas e das recolhidas de Chelas.
Vala profunda cavada entre aquelas que chegavam do lado da claridade, trazendo consigo os cetins, as sedas e os perfumes dos palácios, dos bailes e dos salões, e elas próprias, ambas do lado da sombra e da penumbra, arrastando com as bainhas dos modestos vestidos o saibro da cerca e do claustro.
A pele contaminada pelos mórbidos odores do convento.
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A partir dessa altura, no locutório do convento de Chelas, com a cumplicidade e a fascinada participação de algumas freiras, sobretudo as mais jovens, começaram as discussões poéticas, os debates sobre a literatura, as dissertações acerca dos astros e da botânica, da matemática e da filosofia.
Da educação das mulheres.
Principiara a troca de ideias, de dúvidas e de escritos, de livros e catálogos de editores franceses trazidos à socapa, que Leonor e Maria escondiam entre as pregas das saias para lerem nos quartos. Pouco tempo depois já se declamavam versos, pediam-se motes para fazer poesia.
Outeiros poéticos a tomarem vulto: brilhantes, cultos, inventivos, cheios de ousadia. E neles era sempre Leonor quem mais se distinguia, num inesperado e diverso cintilar feminino até então desconhecido em Portugal.
Num volteio e rodopiar cintilante ela ultrapassava limites e margens, rompia com estereótipos e num ápice saía do mais profundo anonimato para ser falada e discutida. Chegando até à Corte a fama do seu brilho e da sua erudição, assim como cópias dos seus poemas, começando o seu nome a correr de boca em boca, pelo invulgar facto de ser mulher culta, talentosa e inteligente.
Enquanto isso, nos salões lisboetas tão depressa era referida com admiração a sua beleza, como era sublinhado com desconfiança o seu talento poético, assim como os invulgares conhecimentos, quer no domínio literário, das humanidades, quer no das ciências.
Curioso com tanto entusiasmo, mas também preocupado com a circunstância de este ser suscitado por uma mulher da família que julgara ter aniquilado para sempre, Sebastião José de Carvalho e Melo pressionou o arcebispo de Lacedemónia no sentido de endurecer o seu poder em Chelas e de encontrar alguém que, dentro do convento, estivesse disposto a espiar, dia e noite, a filha primogénita dos marqueses de Alorna.
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Depois de ter sabido da situação de necessidade em que vive sua irmã Mariana Bernarda com ambas as filhas, no convento de Nossa Senhora dos Mártires e da Conceição dos Milagres em Sacavém, Leonor de Lorena não pára de chorar, deixa de dormir e de comer, tem uma recaída: sente arrepiamentos que se tornam convulsos e a torturam, perde os sentidos e o movimento das pernas, arde em febre, volta a delirar.
Leonor manda chamar à pressa o doutor Tamagnini, que ao dar conta do seu grave estado a sangra de imediato; isso acalma-a, mas também a deixa desfalecida, sem nenhuma cor no rosto macerado nem dar acordo de si.
Maria e Leonor revezam-se dia e noite junto à sua cabeceira, aplicam-lhe compressas de água fria na testa perlada de suor, secam-lhe os humores do corpo, humedecem-lhe os lábios ressequidos, e quando a vêem voltar a si, enfraquecida e sem forças, tentam que ela engula duas ou três colheres de caldo de galinha com escorcioneira e o lambedor receitado pelo médico.
Massajam-lhe com unguentos e cremes os membros hirtos, sem sensibilidade nem movimento. Secam-lhe as lágrimas que ainda lhe restam. E quando pensam que ela melhora, eis que lhe voltam as febres, a tosse, as dores, os suores, as ânsias convulsivas.
Aquilo a que o doutor Tamagnini chama debilidade histérica.
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«Meu Querido Pai:
Está melhor, graças a Deus! Sossegue V. Ex.a Eu vou escrever quanto
puder, para dar a V. Ex.a uma ideia clara; e queira Deus que V. Ex.a sossegue.
O nosso Tamagnini, assim como o Wade, prometem-nos felicidades e, mais que tudo, o seu estado presente, que é quanto pode desejar-se.
Já o mano disse a V. Ex.a o princípio disto, e por isso escuso repetir. Sábado de tarde principiaram os arrepiamentos e só da meia-noite por diante se descobriu a febre. No domingo, pela manhã, era já bastante alta, e veio Tamagnini, que receitou o lambedor, de que dei conta na carta passada, para se lhe dar uma colher de duas em duas horas, dentro de caldo de frango com escorcioneira, pevides, almíscar, etc. Este pequeno remédio que supriu a sangria indicada, mas para a qual faltavam forças, soltou um suor copioso que, sem diminuir a febre, fez ao menos que ela nos não pusesse em última consternação.
Na segunda-feira, pela manhã, sangrou-se no braço e saiu sangue dissoluto e com uma crosta muito espessa. […] Na terça, pela manhã, não havia nenhum prospecto de melhoras, excepto que o suor continuava; mas a agudeza da dor que havia na região lombar, segundo os termos, a qual correspondia à clavícula direita e mostrava ofensa do fígado, assustava muito; aplicaram-se sobre a dor continuamente uns vapores de um cozimento de malvas, violas, alfavaca de cobre e sabão. Com isto cessou inteiramente a dor e moderou-se a tosse. Por outro modo, igualmente feliz e delicado, aplicou Tamagnini uma xícara de cozimento de avenca continuamente defronte da boca e do nariz, para respirar um ar purificado e doce, de modo que a secura do ar lhe não exacerbasse a tosse, e conseguiu com isto um grandíssimo alívio.
O dia, porém, de terça-feira foi de susto e de horror, sem que ela perdesse o ânimo nem chegasse a julgar-se no estado em que a vimos. Tamagnini, a quem não esquece nada, nos disse que seriam a propósito os sacramentos, e essa custosa diligência foi executada pela ternura mais industriosa que é possível.
A familiaridade terna que temos com a nossa querida Mãe nos deu lugar a tratar esse ponto com a delicadeza necessária, trazendo-a a todas as disposições necessárias, sem as violências do costume. A sua mansidão, o seu juízo lhe fizeram achar nos socorros da Religião até remédio grande para a saúde, porque, recebendo o viático quarta-feira, pela manhã, com uma devoção e uma paz digna do mais amável de todos os objectos, ficou melhor, com o desafogo que produziu essa diligência.
Logo que recebeu o sacramento, tanto eu como a mana assentámos que todo o aparato destas funções, que é desnecessário a quem tem virtude e juízo, se havia de omitir e que, trabalhando nós por conceder-lhe a sua paz, devíamos inteiramente incumbir-nos das funções devotas, sem deixar intervir nenhum dos eclesiásticos que, sem método, pudessem abreviar a vida de minha Mãe. Para isto se necessitava valor, e Deus nos tem dado todo quanto é necessário. Nós fomos quem, depois da comunhão, pronunciámos todas as graças que se deviam a Deus naquele acto.
Conversações pacíficas e interrompidas com ela, que não tinham por objecto senão a indiferença para as cousas transitivas deste mundo, a puseram em um estado tal, que passava de descanso a alegria, até que chegaram os médicos e se fez a conferência.
Não consentiu ela que se fizesse fora da sua casa e disse aos doutores que eles ou haviam de julgar-lhe vida ou morte; que para ambas as cousas se achava com força; que a morte era para ela o termo do sacrifício das suas angústias e que a vida, sendo necessária aos objectos que a cercavam, não podia deixar de tornar a ela de boa vontade. […]
Os médicos, na junta, aprovaram tudo o que disse Tamagnini e concordaram em que a falta de forças, muito atendível, não devia consentir remédio nenhum activo.
Nos termos aflitivos em que nos achámos, tentámos dar-lhe a consolação de ver o mano, e, para isso, sem atender a cousa nenhuma das que se passavam, fizemos uma petição ao Patriarca, pedindo-lhe a dispensa da clausura. Veio o despacho imediatamente, e nesse dia entrou o mano a toque de campainha, acompanhado pelas guardas da Prioresa, segundo o costume.
Minha Mãe estava muito preparada e, sem a mínima alteração, teve o gosto de estar rodeada e servida pelos seus três filhos. Nessa noite, pelas 9 horas, veio Tamagnini e, quando estávamos mais satisfeitas pela tranquilidade e alívio em que a tinha deixado a visita precedente, sobreveio um desmaio e umas ânsias convulsivas que nos puseram em grande amargura, enquanto não vimos ser a moléstia puramente nervosa, o que se confirmou, cedendo tudo pelas duas horas da noite, com ventosas e remédios antiespasmódicos.
Fiquei eu e Tamagnini velando até às 6 horas da manhã, e já parecia a moléstia de menos perigo […]. Ontem não houveram mais que os efeitos da debilidade histérica, socorridos e atendidos tanto pela ternura como pela exactidão caritativa do nosso médico, que a trata pelo modo mais cuidadoso que é possível. Não se tem quase separado do seu leito, trabalha como nós de dia e de noite, serve como a serviria um irmão, e ela lhe chama a sua aia, pela casta de serviços e método excelente deste incomparável homem.
Esta noite dormiu cinco horas a fio, está com excelente ar, tornou a adormecer da parte esquerda, para onde lhe custou a voltar-se […]. Tem rido, tem conversado, tem feito galantes projectos de melhoras e consolação para V. Ex.a Eu juro isto nos Santos Evangelhos! Promete restabelecimento, e V. Ex.a pode lembrar-se de que minha Avó, nesta idade, teve uma cousa semelhante, e de então ficou boa, e conservaria por muitos anos a sua preciosa vida, se a tirania lhe não pusesse um termo prematuro.
Creio que V. Ex.a ficará bastante instruído pelo que pertence ao estado físico de minha Mãe. Eu verei se ainda hoje posso instruir a V. Ex.a da parte moral, que lhe dá tanto cuidado.
Se eu puder escreverei; mas agora deixe-me gastar um instante, pedindo a V. Ex.a, por todos os objectos mais sagrados, que não deixe penetrar-se tão vivamente destas impressões. Graças a Deus que a minha Mãe vive e está para melhorar; mas, meu querido Pai, não arrastariam V. Ex.a os seus filhos para a cova, se ambos houvessem morrido juntamente? O tormento inexplicável de ver acabar minha Mãe, não era um motivo dobrado para V. Ex.a cuidar de conservar-se, por amor de nós? Meu
querido Pai da minha alma, anime-se V. Ex.a muito, cuide de si! Nós estamos constantes e robustas, capazes de resistir a todas as mágoas, não digo bem – capazes de gozar de todas as delícias que nos promete a melhora de minha Mãe. A nossa exactidão, o nosso amor está-lhe demorando a vida. Prometo a V. Ex.a que ela não morre. Se houvesse o mínimo perigo, não pudera eu fazer esta relação tão circunstanciada.
Esta filha a mais terna,
L.»
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Minha Querida Mãe
e Minha Senhora do meu coração
Sem embargo das boas notícias que V. Ex.a me manda, continuo no maior cuidado, porque ao vir daí não estava a minha Mãe com ar de melhoria tão breve, e é muito pouco o tempo que dista entre a minha partida e o dia em que me escreve. Espero de todo o coração que a minha Mãe esteja tão bem como me garante em vossa carta, pois sempre temo que me enganem, e o estado em que eu vi a minha querida Mãe leva-me a temer que V. Ex.a não tenha em devida conta os cuidados com a vossa saúde, nem esteja a ser convenientemente tratada. Para vos dizer a verdade, admira-me a maior descontracção das manas a respeito do vosso estado.
Gostei infinito de ler as finezas que V. Ex.a me envia, tal como as muitas saudades que garante sentir a meu respeito. Mas gostaria que a minha Mãe se lembrasse que só as más saudades atormentam o coração de quem ama, pois são essas as que mais afligem.
Muito estimo a vossa bênção e afecto
minha querida Mãe.
Mil abraços do filho
Pedro
Colégio dos Nobres, 9 de Outubro de 1767
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Elas tecem o desacato com engenho, na mansa lentidão dos dias deste nosso convento; tão depressa suspiram maleitosas, ensimesmadas e aflitas, como em tudo inventam supérfluos motivos de riso e de alegria. Cantam, rodopiam, dançam, nos seus quartos interpretam peças maliciosas e declamam poemas no parlatório, Senhor Arcebispo da Lacedemónia.
Elas confrontam-nos com o rasto do mal, usando perfumes de gardénia, de nardo e de almíscar, odores doces e turvos, a fazerem esvoaçar a roda das saias folhadas, rendadas. A contaminarem lugares de culto, os sítios sagrados onde só deveriam estar os cheiros das velas, do incenso, do sândalo, e todos os voláteis aromas dos turíbulos, Senhor Arcebispo da Lacedemónia.
Elas usam nos lábios e nas faces o carmim das rosas selvagens, pondo igual desvario nas vestes e nas ideias, com a mesma tenacidade e descaro com que expõem palavras e pensamentos impróprios tal como a nudez sem véus, dos braços, dos pescoços de cisne, assim como os colos alvos nos decotes descidos, Senhor Arcebispo da Lacedemónia.
Elas são altivas e vaidosas, escrevem poesia, discutem filosofia, lêem livros proibidos, quando nesta casa de Deus só deveria haver a Bíblia e as vidas dos santos. Recusam os jejuns, fogem à confissão, esquecem as horas canónicas, preferem os estudos e os espelhos às missas durante as quais se distraem, troçam e riem, Senhor Arcebispo da Lacedemónia.
Elas tresandam a heresia com as suas atitudes e ideias pervertidas; provocam com estouvamentos e arroubos, e sendo-nos opostas, torpes e insanas, alheiam-se e inquietam-nos. Usam as cabeças a descoberto no locutório e a nudez de partes indiscretas do corpo, com despudor de modos, que nos amesquinham, Senhor Arcebispo da Lacedemónia.
Elas gostam do luxo, oposto aos princípios de humildade das freiras simples que somos. A presença das filhas dos marqueses de Alorna nesta casa do Senhor perturba e inquina e desassossega-nos. Induz ao pecado, urde maus pensamentos, levanta a curiosidade, cola-nos à mentira, desperta animosidades, acorda a ira, o prazer da intriga, Senhor Arcebispo da Lacedemónia.
Elas trazem consigo ideais perigosos, instruem-se, estudam, perseguem a utopia, na constante busca extremada da Luz que sempre leva ao negrume, em busca do atordoamento do novo. Comportamentos impróprios, perturbadores das noviças, a afastá-las das penitências e das rezas, enquanto às madres mais velhas as confundem e azedam, Senhor Arcebispo da Lacedemónia.