As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 202 de 289

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As Luzes de Leonor

Morte da Mãe

Tão agressiva fora a relação de ambas depois de libertas do convento de Chelas: estilhaços de vidro, farpas, espinhos. Sem conseguirem entender-se fora dos trocados papéis de substituição interpretados pelas duas: a filha que trata e cuida da mãe, e esta que exige atenção e se deixa cuidar pela filha.

O marquês de Alorna não sabe se, diante da morte materna, Leonor conseguirá lidar com tanto ressentimento acumulado. Intimamente ele deseja o seu descontrolo, na expectativa de ouvi-la abrir a porta da biblioteca, transtornada, a pedir o seu auxílio.

Sem o procurar, porém, ela dirige-se directamente para o quarto onde a mãe acaba de morrer.

 

†

MORTE DA MÃE

 

Tantas vezes vi minha Mãe em perigo de vida, desenganada pelos médicos, que agora diante da sua morte sinto o enorme fracasso do nosso afecto.

Memória esvaziada de mágoa, desgarrada ou inexistente.

Ao longo dos anos ela foi-se extinguindo, como quem se perde ou vinga do muito de que fora espoliada.

Olhar esvaído, sempre perdido na lonjura. Atribuindo-me a tarefa de ser adulta, era eu menina, enredada no próprio medo recalcado, a obedecer sem palavras de resposta nem de amor, a cumprir as ríspidas ordens que então me dava. Agora que a vejo finalmente serena, as queixas de mim silenciadas na comissura dos lábios, penso nela tentando não me entregar ao ressentimento que vem ressumar na minha boca, amargosa e ácida.

Minha Mãe infeliz, mas à sua maneira impiedosa.

Minha Mãe, obediente e passiva diante do poder de quem aceitava ordens, submissa, voz esquiva e doce e mágoa a aflorar como espiga no seu peito, todavia severa e implacável e cruel sobre quem ela mandasse.

Louvando a docilidade conformada.

Minha Mãe, de corpo como o linho, de quem sequei os sucos, os corrimentos e cheiros ruins, tomada de suores por mor das febres e dos nervos que a debilitavam, a alagavam sem dó: faca e fogo e lago de águas venenosas.

Minha Mãe rigorosa, exigente, submetida ao jugo de um destino que parecia encarniçar-se em derrubá-la, em feri-la sob os seus golpes.

Minha Mãe doente de histeria e infelicidade, presa das suas convulsões, amparada pelos meus fracos braços de criança. Minha mãe cheirando a murta e a alecrim, cabelos de ouro espalhados no travesseiro.

Minha Mãe idealizada, alada.

Minha Mãe, que embora sem o confessar eu rejeitava, culpando-me por isso.

Silenciando anseios e ressentimentos, evitando o seu olhar de violeta. Diante dela buscava aquilo que nem sabia se procurava, descobrindo de mim a face insegura reflectida no seu espelho: mistura de sangues e imagens, enquanto a via a desfolhar-se, a fanar-se, a estiolar-se.

Eu fui a sua cúmplice.

Eu fui a sua testemunha.

Eu fui a sua espia aturada.

Dela era mãe e sou filha:

bordado e avesso do sentimento negado, caule e flor, estame e corola da emoção recolhida. Minha Mãe austera e frágil e dura, pondo a desgraça no lugar da alegria, usando de inclemência em vez de ternura; minha Mãe sem cuidar de esconder a preferência por Maria.

Fecho-lhe os olhos azul-cobalto, tiro-lhe os anéis dos dedos afilados e rígidos, as pulseiras dos braços magros e frios, cruzados sobre os seios, o cordão de ouro com uma cruz de granadas. E em seguida vejo as mulheres lavarem-na, vestirem-na, calçarem-na. No fim passo-lhe óleo de amêndoas na pele triste, massajo-lhe a face, perfumo-lhe o corpo ainda belo. Componho-lhe o severo penteado de cachos, sob a touca de renda negra de Bruxelas.

Depois dirijo-me para aquele que já foi o meu quarto. Fecho as portadas das janelas, corro o cortinado e fico encolhida no breu, cegando. Até Carlos Augusto me procurar, apertando-me a si num prolongado abraço, julgando consolar-me.

Gostaria que fosse desgosto e dor o que sinto, e não medo. Um medo desbotado, medonho, de criança posta de castigo, trancada numa cave às escuras.

Perguntando a mim mesma: e agora, o que vou fazer com todo este desacerto, este pavor, até hoje mantido em segredo?

Ou, o que vou fazer com tanto amor sofrido? Com tanto amor nunca correspondido?

†

Leonor resolve ir sozinha até ao novo acampamento, na Porcalhota, onde Carlos Augusto, marechal de campo, comanda as manobras. Quando as sentinelas mandam parar o fiacre, ela identifica-se e logo se afastam para a deixar seguir ao encontro do marido, que ela quer surpreender.

Mas quando o descobre ao longe, delgado e louro no meio das tropas, o olhar turva-se-lhe e, resguardada na penumbra do carro, fita-o com estranheza, como se, de repente, nele visse um desconhecido. Ou como se, de súbito, ele se tivesse transmudado numa personagem da literatura.

Tristão ou Ulisses…

Heitor ou Aquiles…

E ao mesmo tempo que o seu imaginário o recria, o reformula, o confunde com o próprio desejo, Leonor toma consciência da urgência que tem de aventura, de como é premente encontrar um herói que dê romance à sua vida.

†

Desde a morte do marido que Teresa de Mello Breyner anda distante, recolhida; perdida dentro de si própria, afastada da vida. Parecendo quebrada, distraída do que lê, a pena abandonada e seca em cima do papel branco.

Não que alguma vez tivesse amado Sancho com paixão ardente, casamento arranjado pelo pai com o primo marquês de Vimieiro, de quem recebeu o título a que era indiferente, continuando a usar o nome de solteira.

– E nem com esse assinas o que escreves! – lembra-lhe Leonor, agastada com o anonimato que a amiga prefere, mesmo depois de ganhar o prémio da Academia das Ciências, com o romance Ósmia. Modéstia que a indispõe, tal como a inesperada intensidade daquele seu desgosto de viúva.

Sedenta de crepes.

Vestido de seda preta a cobrir-lhe o colo e os braços, leque de luto pousado no cimo dos joelhos unidos, véu de negrume translúcido descido a cobrir-lhe o rosto, mitenes de renda e cetim obscuro a subirem nos pulsos.

Para lhe cortar a tristeza do trajo, Catarina de Lencastre oferece-lhe um xaile de caxemira cinzento, que Teresa agradece mas não usa. Passa as manhãs na igreja do Loreto e as longas tardes no Convento de Santos, esquecida da casa e dos escritos que abandona.

Leonor preocupa-se com a sua apatia e mais ainda com o seu apego às missas e às rezas. Recusando os convites da Corte e dos amigos.

– Cuidado, Teresa, tu estiolas! – chama-lhe a atenção para tão inusitado excesso, por parte de quem sempre se pretendeu equilibrada e sensata.

– Sentes assim tanto a falta de teu marido?

– Não é ele que me falta, sou eu própria.