As Luzes de Leonor
Caderno
Esta amálgama de odores,
visita-a por escassos segundos, como se fosse um relâmpago logo consumido sem deixar rasto; uma onda de pestilência a dissipar-se de imediato, diante da multiplicidade dos perfumes que se adensam à sua volta, se crispam e soltam, inebriantes, numa cintilante nuvem que os leques sabem deslaçar, entreabrindo os nós que o almíscar e o jasmim dão entre si. Ocre e resina em desacerto no caroço do fel; água de rosas a abrir-se, trespassada pela leveza da perfeição.
Por vezes, há ainda a indolência.
Fusão perfumante a dissimular quer as lembranças que a mantêm ancorada ao passado, quer os odores pesados dos corpos mal lavados da realeza e dos fidalgos. Mas na memória, as recordações que permanecem são as obsessivas e inevitáveis; daquelas que voltam sempre, mais cedo ou mais tarde.
Antigas.
Íntimas e amargas.
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CADERNO
Pedro finalmente apoia-me: «Creio que ele sentiu todo o horror da minha situação e me dá mostras de um interesse tão carinhoso e tão verdadeiro que, com efeito, me consola muito.»
Tanto ele quanto eu temos a certeza de que a nossa correspondência continua a ser aberta e lida. Além do mais, «os moscas» de Pina Manique rondam-me a casa, e o próprio intendente, quando me encontra na Corte, não desprende de mim o seu olhar de folha de aço.
Só me resta voltar a usar tinta simpática nas entrelinhas, tal como fazia no convento quando escrevia a meu Pai, temendo que, como agora, lessem a minha correspondência.
Lisboa, 8 de Julho de 1788
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Leonor hesitara ainda, mas acaba por ir ao jantar diplomático em casa do Núncio Apostólico para o qual fora convidada. Prepara-se com cuidado, a disfarçar a palidez das noites passadas em claro e da aflição causada pelos inúmeros reveses, pesados rochedos que não consegue remover da sua vida para seguir em frente.
São quarenta os convivas, ficando ela sentada entre o Príncipe de Castel Alcalá e Martinho de Melo e tendo à sua frente o visconde de Vila Nova de Cerveira.
A mesa estreita aproxima-os uns dos outros. Curiosa, tenta perceber qual a reacção do ministro da Rainha por o terem colocado a seu lado, mas ele, depois de a cumprimentar com delicadeza, entretém-se a falar com o visconde.
Leonor olha à roda a dar conta das pessoas que conhece, de quem está ao alcance da sua voz, e começa a elaborar um plano, uma estratégia, a medir o terreno, a calcular os poderes e as forças, crente de que, com o seu savoir faire, poderá encontrar um meio, um modo de encurralar em público Martinho de Melo, levando-o a comprometer-se diante de todos naquilo que ela pretende.
Deixa que o almoço prossiga, que o secretário de Estado da Marinha e do Ultramar se distraia, se descontraia, abra guardas, se torne confiante e desatento até considerar a sua presença inofensiva. E quando ele menos espera, agarrando-se a um qualquer pretexto da conversação, dirige-se-lhe sem meias palavras, temperando a voz que levanta de modo a ser escutada.
Interpela-o, indaga-o, questiona-o e, sem esperar as suas respostas, elogia o marido enumerando-lhe as virtudes, vinga-o isentando-o de culpas em tudo o que habitualmente Martinho de Melo o condena. Este cora, olha-a com amenidade a disfarçar a raiva de que está tomado ao ver-se humilhado em público, mas tenta ainda calá-la através da lisonja e da galanteria.
Fora de si, ela previne, olhando em torno:
– Se me acontecer a mínima cousa ou a meu marido, será obra do senhor Martinho de Melo.
E perante o silêncio constrangido cavado à sua volta, acrescenta num tom já brando:
«Ouso dizer tudo porque só digo a verdade.» E acrescenta, dirigindo-se-lhe directamente: «Se desde que vós governais os homens vos tivessem dito a verdade com esta franqueza, talvez tivessem sido mais felizes.»
Martinho de Melo torna a corar e, apesar de não iludir o rancor no modo como a fixa, promete que depois do jantar escutará tudo o que ela tenha para lhe dizer sobre os seus negócios. Mas quando o procura dizem-lhe que o secretário de Estado já saíra. E pela primeira vez naquela noite Leonor assusta-se com a sua temeridade,
com a insensatez do próprio acto.
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«Escrevo-te duas linhas, meu querido Carlos; espero que partas em breve e que em vez de te escrever tenha o prazer de te abraçar. Estive ontem na Corte e beijei a mão a Sua Majestade e ao Príncipe em cerimónia pela mercê que vos fez. Como Sua Majestade me ordenou que lhe fosse beijar a mão em tal dia, bem vês que tenho motivo para me animar e esperar. A Rainha deu-me a honra de me tranquilizar sobre o tempo e a época da tua viagem. A Senhora Princesa e a Senhora Infanta disseram-me tudo quanto há de mais lisonjeiro; da parte do público recebi também testemunhos de interesse, quer dizer aqueles que dizem respeito às coisas pois só a fortuna tem amigos, tive disso boa experiência. Os nossos filhos ainda não chegaram; podes imaginar com que impaciência os espero. As nossas pequenas estão bem e eu beijo-te enternecidamente. Espera-se aqui o Sr. Pinto a todo o instante. Não quero escrever mais porque acho que já terás partido quando a minha carta chegar. Deus te conduza e te abençoe, meu querido amigo.
L.
Lisboa, 29 de Agosto de 1788»
†
D. Leonor de Almeida entra cautelosa com a bolsinha de cetim cor de pérola, bordada com palhetas e missangas, no braço enluvado; rolo de papel agarrado e preso entre os dedos. E depois de prestar as suas homenagens a minha irmã a Rainha, dirige-se a mim, sorriso um tudo-nada enevoado.
Penteado singelo com o seu cabelo natural, cabeça um pouco inclinada sobre o ombro direito, vénia curta aguardando o meu gesto. Digo-lhe para se sentar à minha beira, perto do clavicórdio onde gosto de me refugiar enquanto ouço música ou vou lendo, pés pousados num escabelo de damasco.
Hoje falta-me José a meu lado e o cheiro da sua pele jovem, ultimamente afastando-se do convívio de todos, melancólico e de uma palidez doentia, debilidade que nele vejo aumentar, perturbada ao senti-lo sucumbir às suas insónias, queixando-se de estar a reviver memórias que não lhe pertencem, e sim a Afonso de Portugal, filho de D. João II.
Tento não o deixar soçobrar na depressão, enquanto por meu lado me esforço por vencer o medo que me dão estas comparações irracionais, a vê-lo enredado na vertigem da queda, como se fosse impelido a resgatar à eternidade algo que não lhe pertence.
Vejo o espanto aparecer no olhar dobado de D. Leonor, ao perceber o meu desassossego de mulher apaixonada por seu marido; afinal, nenhum de nós adivinhava podermos vir a querer-nos tanto ao aceitarmo-nos, casamento decidido pela vontade moribunda de meu pai El-Rei D. José.
Assusto-me de amor pelo meu Príncipe.
†
Os seus cabelos de fogo são como uma auréola,
reflectindo o sol que naquele dia de Setembro incendeia as estreitas ruas de Lisboa.
Lilias Fraser sente no corpo solto debaixo do vestido largo o brasido do verão; atordoada, segue cosida à parede, tentando mitigar o calor nas breves e minguadas sombras de alguma varanda das casas amodorradas; então, estilhaçando os ares pesados, o silêncio da tarde é cortado pelo ruído sacolejante e áspero de um cortejo de carruagens e cavaleiros a aproximar-se.
Do vão de um portal ao qual se encosta no passeio estreito, Lilias Fraser vê despontar os carros reais, dois deles ladeados por fidalgos montados nos seus cavalos brancos ou negros, pêlo de lustro escovado e crinas entrançadas com fios de ouro.
Quando chegam mais perto o olhar dela fixa-se no belo Príncipe do Brasil seguindo ao lado do carro da sua mulher, a Princesa Maria Francisca Benedita, que assomada à pequena janela aberta tenta chamar-lhe a atenção; mas o Príncipe D. José, com os olhos melancólicos, parece buscar alguém que nem ele mesmo sabe quem seja, acabando por descobrir por entre o povo que entretanto acorrera, a mancha de cobre chamejante dos cabelos revoltos de Lilias, e à medida que chega mais perto distingue-lhe a pele lívida de ruiva e o olhar fixo e dourado, que não o desfita, recôndito e absoluto, onde ele já se perde.
E ambos, imobilizados, olham-se, durante breves segundos esquecidos do mundo, das carruagens que seguem em frente sem ele, agora nimbado por uma súbita luz que não vem do sol mas o acrescenta, permitindo a Lilias Fraser ver o negrume, o veneno, o laivo, a nódoa que por dentro do Príncipe o vai corroendo enquanto desliza no seu corpo aparentemente intacto; por entre cisternas, túneis e mares obscuros, bebendo das suas veias,
quase a atingir-lhe o coração de rubi húmido.
†
Todos os sinos das igrejas de Lisboa dobram a finados pela morte do Príncipe D. José.
Chora-se nas ruas.
Leonor vai à Corte a fim de estar perto de D. Maria e apoiar no que for preciso a Princesa Maria Francisca Benedita. Mas esta encontra-se fechada nos seus aposentos, sendo vista somente de longe indo em direcção da câmara de sua irmã e sogra a Rainha, no seu luto carregado de viúva que a adelgaça, a pele muito branca realçada pelo negrume do vestido a torná-la trágica, chorando o marido, a ser embalsamado.
O habitual bulício do Palácio de Queluz deu lugar a um pesado silêncio a tolher-se nas lágrimas, no desgosto e no espanto caldeado pela dúvida diante da repentina desgraça, hesitantes diante da sua causa, pois se há quem acredite no diagnóstico de varíola feita pelos médicos da Corte, há também quem teime na tese de envenenamento. A dúvida permanece a dividir as opiniões.
Mariana de Arriaga que, mal pode, procura Leonor, encontra-a na companhia da condessa de Soure, olhos cintilantes como constelações e pupilas dilatadas pela beladona. O conde seu marido será um dos maiores fidalgos que conduzirá no enterro o coche funerário do Príncipe do Brasil, na companhia dos marqueses do Lavradio, de Angeja, de Pombal, de Penalva e do Alvito. O cortejo seguirá até São Vicente de Fora, com os restos mortais daquele que fora considerado
o Príncipe perfeito.
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É Teresa de Mello Breyner quem, embora de má vontade, apresenta Leonor a Catarina de Lencastre, recentemente chegada de Londres onde o marido, Luís Pinto de Sousa Coutinho, fora até há pouco embaixador de Portugal.
Tal como Leonor, Catarina é ousada, ambiciosa, faz poesia. E quando se encontram na inquietação uma da outra, percebem terem idêntico gosto pela leitura e os mesmos autores preferidos. Logo descobrem poderem completar-se, divertirem-se juntas, trocarem versos e ideias cultas.
Vindas de cortes evoluídas da Europa, sentem-se deslocadas, isoladas, estrangeiras no país em que nasceram.
Teresa ainda tenta pôr ordem naquela amizade nascente que prevê tumultuada, mas elas riem-se já cúmplices, já íntimas não o sendo, e ficam o resto do serão a conversar costurando pequenos silêncios e a recitar poemas. No final da noite, ao despedirem-se, prometem trocar bilhetes no dia seguinte, e voltarem a ver-se naquela mesma semana.
Quando Teresa leva Leonor a casa na sua sege e, mais enciumada do que severa, lhe chama a atenção para os perigos que podem ocultar-se em amizades apressadas com pessoas de pouca confiança, percebe que a amiga nem sequer a escuta. E subindo ao de leve a mão ao peito,
Teresa sente o coração vacilar.
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Veste um fato direito, cor de pêssego,
corpete de ametista e ouro ainda cingido, cintura marcada por uma larga fita de tafetá num tom macerado de pérola toldada.
Sentada sob a magnólia de folhas acetinadas, tenta concentrar-se inutilmente naquilo que a preocupa. O outono ameno leva até si uma cálida e leve brisa de afago, e ela deixa-se enlear, a perder-se de bom grado no sonho. As flores grandes e brancas dos ramos baixos quase lhe afloram os cabelos soltos.
Tem um livro entreaberto no colo.
A Gazeta de Lisboa deslizara entretanto da sua saia até tombar por terra, ficando desdobrada aos seus pés. Leonor, de olhos semicerrados, fita a lonjura à sua frente. A seu lado, um renque de narcisos empresta à paisagem o toque apetecido, de inesperado requinte, ao qual no entanto fica indiferente, de tal forma sente o coração sobressaltado por sentimentos que não domina. Não é por acaso que se lembra dos versos de Camões: «Erros meus, má fortuna, amor ardente / em minha perdição se conjuraram; / os erros e a fortuna sobejaram, / que para mim bastava amor, somente.»
Sempre se sentira fascinada por este poema. E durante um brevíssimo segundo deseja conseguir ultrapassar o equívoco onde mergulhara, na dissimulação em si própria do desassossego, da austeridade, das intimidades recônditas e perturbadoras.
O pior é o freio que tem por hábito pôr aos sentimentos, não estando o problema naquilo que desfaz ou faz de errado, mas sim naquilo de que, como agora, abre mão ao desistir de si mesma.
Fecha os olhos, abalada com os pensamentos que a assaltam e que de futuro terá de evitar se quiser seguir em frente sem demasiados conflitos interiores, nem tormentos de alma dilacerada. Inquieta, põe algumas pétalas da margarida que desfolhara entre as páginas do Oberon de Wieland.
A escutar o silêncio que a aragem quebra ao perpassar pelas árvores, sedenta de cada uma, Leonor desvia-se de um raio de sol ilusor da sombra protectora da magnólia, temperando-lhe com lágrimas o ardor dos olhos febris.
A realidade ameaça-a.
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Sempre que se sente cansado ou preocupado, o arcebispo de Tessalónica toma o estreito e arborizado caminho que liga o Palácio de Queluz à Matinha, lugar de retiro e de sossego onde a beleza parece espraiar-se do modo mais amável.
É capaz de andar horas sozinho por entre o arvoredo, antes de se sentar à sombra a sentir o perfume dos arbustos e das rosas selvagens, na tentativa de descansar o espírito demasiado sobrecarregado com as cousas terrenas. Procurando ao mesmo tempo alinhar as ideias desgovernadas pelo conhecimento diário das traições e das intrigas e mentiras, fruto do constante e pertinaz intuito de alguns fidalgos, que ele conhece bem, de tomarem nas mãos as rédeas do poder político, que por direito só pertence à Rainha, quanto a ele demasiado débil, demasiado fraca, demasiado sensível para lhes fazer frente com a firmeza e o pulso de ferro que merecem.
De momento anda especialmente preocupado com o caso da condessa de Oeynhausen, vinda de França a meter-se na boca do lobo, sem protecção de ninguém: nem de D. Maria, desta vez arredia em ajudar a sua antiga valida, nem da Princesa Maria Francisca Benedita, enredada nas malhas sedutoras da condessa de São Paio. Quando muito, terá o apoio das amigas, dos poetas, e nenhum deles possui influência digna desse nome. Por outro lado, D. Leonor mais parece cavar a própria sepultura, excessivamente imaginosa, excessivamente ousada, excessivamente ambiciosa, determinada e frontal para uma mulher.
Cansado de caminhar, o confessor da Rainha acaba por se sentar num banco de pedra debaixo de um sobreiro da pequena tapada, distraído com as inúmeras gravidades de que tem conhecimento através das confissões da Soberana, a quem ao fim de tanto tempo ele se ligou por um afecto sincero. E agora tenta encontrar maneira de desenredar os nós cegos das intrigas e das mentiras, pensando em como poderá ajudar a adoçar a aspereza da Corte em relação à estranheza da condessa de Oeynhausen.
Embrenhado nos seus pensamentos, o arcebispo não se dá conta dos passos furtivos que se aproximam por entre a folhagem densa, das mãos nervosas a afastarem os arbustos; não ouve o esmagar dos líquenes, o pisar da erva e da terra, nem os estalidos dos galhos e dos gravetos partidos pelos gestos bruscos ou mesmo os passos precipitados de quem já se aproxima em corrida.
Distraído, frei Inácio de São Caetano vira-se de frente para o sol a baixar no horizonte, e fecha os olhos. Mas de súbito sente a luz do crepúsculo a estourar na sua cabeça e desmaia sem se dar conta da brutal pancada que o derruba.
Mesmo assim os sicários continuam a espancá-lo, com sacos de areia do rio que corre ali perto, empregando a força adequada a não deixarem marcas, indícios, pistas que levem a quem lhes pagara para fazer o serviço. E só param quando o vêem caído de bruços, no chão que cheira a húmus, a musgo, a insectos, à chuva da véspera.
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A Rainha manda chamar o seu ouvidor.
Quer ser informada, pessoalmente, do que ele descobrira acerca da morte do arcebispo de Tessalónica, seu confessor, encontrado assassinado na Matinha. De olhos pregados no chão, o magistrado balbucia em surdina algumas palavras que a Soberana não entende.
Agastada, ordena-lhe com aspereza para repetir o que dissera, de modo a entendê-lo, mas a voz do h0mem continua tão embargada, trémula e misturada que D. Maria fixa nele o olhar gelado, o que acaba por emudecê-lo de vez, braços caídos ao longo do corpo atarracado.
– Não volto a dizer que quero escutar bem claro tudo aquilo que sabeis! – adverte-o a Rainha num tom gélido.
Muito pálido, o ouvidor recomeça do princípio o seu discurso, desta vez com precisão e clareza, esforçando-se por disfarçar o tremor das mãos. E vai expondo aquilo que, dia após dia, fora escutando, constatando, descobrindo; e, embora relutante, acaba por expor planos, nomes, vinganças. A enumerar as intrigas, as ratoeiras, os jogos de poder, as ambições desmedidas por si apuradas.
É a vez de D. Maria empalidecer, à medida que ele fala.
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Chora de raiva lágrimas que não enxuga.
A autorização que conseguira obter da Rainha para a entrada de Carlos Augusto em Portugal, acompanhado pelos filhos mais pequenos, acaba de ser cancelada, certamente por influência de Martinho de Melo. Leonor não tem maneira de prevenir o marido.
Na verdade nem mesmo sabe como resolver a própria vida.
Continuar em Portugal a partir daquele momento parece-lhe inútil e sem sentido. No entanto também lhe faltam forças para fazer a viagem de volta com Frederica e Juliana. Sente-se escarnecida, encurralada, derrotada pelos seus inimigos, por poderes que nunca teve nem tem. Mas, de súbito, para ela tudo fica muito claro:
Partirá por mar o mais breve possível.
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Encontra consolo a escrever versos, à luz do sol ou à chama trémula e amarelecida da vela mantida acesa à cabeceira da cama, e que leva para a escrivaninha à qual se senta em camisa de dormir bordada, envolta num leve xaile pois as noites esfriaram.
Durante as madrugadas, no entanto, rasga quase tudo aquilo que escreveu.
Catarina insurge-se:
– Não tens esse direito!
Leonor exalta-se, confundindo-se nas explicações que presta a si mesma mais do que à amiga, que a escuta admirada com os súbitos excessos que dela desconhecia.
– Por isso eu prefiro a razão, compreendes agora? O coração importuna-me, confunde-me, afundo-me e perco-me nele! – E Leonor leva as mãos até ao rosto pálido da insónia da véspera.
– E as razões do coração? – indaga Catarina.
Mas Leonor continua a rodar em torno dos sentimentos que a perturbam.
E, embora relutante, acaba por responder:
– Fogo-fátuo, Catarina! Nada mais do que isso.
Nesses dias até a cinza do fogo inventado lhes põe o peito em brasa.
†
Desce o último dos cinco degraus que circundam o Jardim de Malta, e caminha devagar parecendo atraída pelos meninos de mármore que no meio do lago brincam com os seus jogos de água, sob a luz bruxuleante dos archotes a arderem ao sabor da noite calma.
Da Sala da Música de onde acaba de sair chegam-lhe os acordes do concerto para flauta e harpa de Mozart que, inquieta, não escutara até ao fim; pensamento na rosa-chá de haste longa que lhe fora enviada a acompanhar um bilhete, onde havia um curto pedido:
– Não parta!
Leonor sente-se febril, as faces ardem-lhe com a inesperada chama acesa no seu peito, e cede à tentação de imaginar em cada vulto que passa aquele que espreita, quem sabe se por entre o arvoredo, ou antes a disfarçar-se do outro lado do buxo recortado por caminhos dela bem conhecidos, com recantos sombrios onde às vezes se refugia, a sentar-se nos pequenos bancos de pedra, a querer fugir das conversas monótonas das infantas ou do riso solto e superficial das açafatas, dos murmúrios segredados das aias da Rainha.
Palácio de Queluz, onde ela gosta sobretudo dos aposentos de D. Maria Francisca Benedita, neles agora sempre recolhida, e onde Leonor fora despedir-se e entregar-lhe a Epístola que lhe era dedicada, escrita pouco depois da morte de Sua Alteza Real o Príncipe D. José.
Demora-se a recitá-la a pedido da Princesa viúva, na salinha fresca e acolhedora onde fora recebida, tapete de Arraiolos e cortinas leves, claras, cadeiras de braços forrados de cetim com galão de ouro, frente à escrivaninha de lareira onde está sempre pousado um tinteiro de bandeja com a pena atravessada.
Já mais tranquila, Leonor senta-se na borda do lago, deixando-se envolver pela tepidez do ar e do odor pesado e doce dos ananases vindo do Jardim das Estufas, cortado pela acidez dos limões e pela frescura do cálamo. Mais perto de si destaca-se a fragrância das pequenas flores cobrindo os ramos do ácer que o luar parece transformar em prata.
Faz-se então um súbito silêncio, antes de as pessoas começarem a sair do palácio sufocante, em busca da frescura da noite. Para ela acabara a tranquilidade. Ergue-se, pois, e caminha devagar, cumprimentando de forma breve quem se lhe dirige, entra pela porta ainda escancarada da Sala da Música já vazia e toma o corredor por onde segue até à grande Sala dos Embaixadores, que atravessa a fim de descer pela escadaria dos Leões até junto ao Canal dos Azulejos, diante do qual está uma sege alugada que a espera.
Manda seguir para casa.
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Toma-lhe a cintura estreita, tentando pela graça iludir a tristeza onde mergulhara depois de Leonor lhe ter comunicado que dentro de dois dias tomará o paquete de regresso a Marselha. Volta-a para si, aperta-a nos braços, mas lendo-lhe nos olhos o desagrado solta-a, melancólica, mesmo assim sorrindo um tudo-nada na tentativa de aliviar a conturbação das duas.
Estão na pequena estufa onde Catarina gosta de passar os fins de tarde, perdidas ambas num silêncio apenas cortado pelos cantar dos pássaros, que ao pôr-do-sol sempre regressam à mata abandonada no início do dia.
– Nem sabes como me magoas com a notícia da tua partida! – acaba por confessar Catarina, erguendo-se a desfolhar uma begónia branca que desponta breve por entre a desordem dos botões vermelhos das rosas-da-china, num contraste de sangue vivo com a aristocracia discreta, embora intensamente erótica, das orquídeas.
– E tu, compreenderás a minha tristeza por ter de partir? – responde-lhe Leonor, ficando ambas a recordar as horas passadas juntas, a tecerem uma amizade que fora crescendo nos últimos tempos.
Lá fora a buganvília cresce, rebelde e furtiva.
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Bem pouca atenção e amor deste a Leonor Benedita enquanto aqui estiveste, e quase nada te demoraste reparando nela, ou se reparavas era sem a aceitares como é, querendo-a igual às irmãs; em vez de lhe dares carinho materno a apertá-la ao teu peito, sempre te afastaste, tão evidentemente preferindo Frederica e Juliana que magoava quem vos via juntas. E, alheada, parecias nem em mim divisares o desgosto, a doença, a queda, ou atentares na minha decrepitude, tu agora minha única filha, porque à outra levaram-na os anjos.
Afinal nem te falei da minha decepção, nem te recriminei como devia, quando apesar de saberes com antecedência a data da partida do paquete onde seguirias viagem nada nos disseste, comparecendo apressada com as minhas duas netas pela mão a despedires-te na véspera de voltares a França, de que tanto continuas a gostar, e onde há já mais de um ano o teu marido e os outros teus filhos te esperavam, enquanto por aqui tu andavas insistindo na teima de alcançares o sonho e a desmesura, sem aceitares da vida a sua parte do meio, que é a da realidade, nessa tua procura acerada e insana de quem unicamente reconhece os extremos.
Neste ano em que por cá estiveste, Leonor, bem te vi a fitares-me com domada raiva ou indiferença, sem nenhum sobressalto de ternura; mas eu sempre te conheci egoísta e mal agradecida, nada te bastando, filha, ansiando por mais do que aquilo que te possa ser dado. Como aconteceu desta vez com a nossa Rainha D. Maria, que de novo te distinguiu com a sua bondade, e tu, Leonor, em vez de lhe seres agradecida pela pensão que Sua Alteza decidiu dar-te, exigias mais dela e dos seus ministros, a rodeares as princesas sem escutares nem o teu Pai nem a tua Mãe ou os teus amigos.
Mas tu não escutas ninguém, Leonor, e orgulhosa como vieste assim partiste, sem nos fitares nos olhos, desmesurada e excessiva, mal me beijando no rosto tal como à tua filha, que volta a sentir-se por ti abandonada, ora escondendo-se pelos cantos da casa, ora junto da cadeira à qual as pernas inertes me agarram. Foste embora sem em qualquer de nós atentares ou cuidares de nos ouvir. Mas o teu peito possui a dureza da lâmina da espada que os homens usam na ilharga, inquebrantada. Como Mãe adivinhei-te o coração atormentado não sei por que desgosto ou desgaste que, habilidosa, evitaste contar-me.
Despedi-me de ti, a imitar-te no modo distanciado, sem te apertar nos braços ao dizer-te adeus, enquanto com mágoa ardida saías de nossa casa, muito direita no vestido preto e vermelho de seda macia, sem te voltares para trás a olhares a tua filha Leonor Benedita, menina abatida à espera desse olhar ou de um gesto de carinho, antecipando a saudade. Mas a tua frieza, a tua arrogância, o teu desprendimento magoam-me tanto, Leonor! E a tua indiferença mais ainda, se isso é possível. A ferires-me com a farpa, o espinho de rosa que cravaste no meu coração desgastado de mãe, que por vezes imagina não lhe restar nenhuma filha.
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