As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 148 de 289

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As Luzes de Leonor

Caderno

 

Madame d’Épinay e Madame de Châtelet recusaram a sombra e a mediocridade. Deste novo espírito de liberdade feminina tomei a ideia de ambição e de insubmissão, mas também a urgência de ser plenamente, para além dos limites e das regras.

No livro Discurso sobre a Felicidade, sem deixar de reconhecer o seu temperamento de fogo, Madame de Châtelet faz sobretudo o elogio do amor das mulheres pelo estudo: de todas as paixões, «aquela que mais contribui para a nossa felicidade».

Jamais iludindo ela a paixão pela posteridade que em mim mesma reconheço. Sublinhando ela, com lucidez e coragem inabaláveis, tudo aquilo de que as mulheres continuam excluídas.

Quando a leio, creio escutar-me.

Véspera da partida de Estrasburgo

†

Carlos Augusto fá-la desviar do caminho para Paris, obrigando-a a uma longa viagem até Avignon a fim de procurar uma casa para viverem.

Na nova morada ela acomoda os criados, vê desmanchar a bagagem e não gostando da cor dos cortinados da sala, manda tingi-los de um denso tom de púrpura a um dos tintureiros da sua rua. Para Paris levará o mínimo necessário, e também as jóias, alguns livros, os poemas, o diário, os cadernos e o estojo de escrita: as penas e o pequeno tinteiro de prata com as suas iniciais gravadas.

Antes de partir, Leonor tenta conhecer a cidade. Agrada-lhe a ponte de Saint Benezet, o Ródano, encanta-se com as janelas floridas, gosta dos candeeiros a óleo das ruas, impressiona-se com a grandiosidade do Palácio dos Papas. Em contrapartida, sente-se sufocada pelos vários lances de muralhas que se fecham em torno de Avignon.

Quando finalmente sai rumo a Paris, atravessa um dos sete portões de madeira reforçados a aço, com pequenos postigos e uma torre que ela espreita, curiosa. Mas os salões, as margens e as pontes do Sena, os parques de Paris esperam-na.

Encosta a cabeça na almofadinha de cetim e fica a pensar, preocupada com a carta que Louise Necker lhe escrevera ainda para Viena, e onde de passagem referia o grande isolamento da Rainha Maria Antonieta, em torno da qual se adensa um clima de ameaça e de ódio.

«Paris, já não é a cidade amável que haveis conhecido, senhora condessa de Oeynhausen. Há nela um mal-estar que cresce a cada dia que passa, provocado pelo luxo ostentatório e desnecessário, pela escandalosa riqueza. Fausto da nobreza, que parece ignorar a extrema pobreza, a fome do povo! Não há pão em França, D. Leonor…»

Ao responder-lhe,

debruçara-se, especialmente, sobre este trecho da carta.

†

Quando viajam de noite, por não encontrarem pouso nos caminhos, Leonor manda parar a carruagem, abre a portinhola e sai para a estrada, por onde se afasta até ficar sozinha e invisível no escuro insondável. Ergue os olhos para o negrume do firmamento estrelado, imaginando seguir pelos espaços celestes até aos astros que habitam toda aquela dimensão sem limites.

E nesse deambular,

enamorada do céu que sempre lhe parece cravejado de diamantes, perde-se de desejo pelo infinito, deixando-se levar pela emoção transportada pelas palavras de Hildegarda de Bingen: «Quando circundo as abóbadas do céu com as asas da sabedoria, ordeno correctamente todas as coisas.»

Desde muito pequena que caladamente sonha ser geómetra, ser astrónoma, como En’Heduana da Babilónia, tantos séculos antes de Cristo, e Hypatia de Alexandria… Ou matemática como Maria Gaetana Agnesi.

Lembra-se de ter escrito:

«Abraço o universo justamente quando acabo de me dar conta dos meus sentidos, da minha inteligência. O espaço da nossa vida é tão curto, a Astronomia é tão extensa. Quando é que conseguirei ser geómetra bastante para aprofundar todas essas leis de movimento, calcular as forças que sustêm e dirigem esses corpos imensos de que o espaço se preenche e eu me apercebo? Quando poderei saber medir as suas distâncias ou as suas trajectórias?»

Leonor demora-se a olhar para o céu, tão fascinada por ele quanto, um século atrás, Helena Lucrécia Cornaro Piscopia,

magistra philosophiae,

no seu belíssimo jardim botânico.

†

Primeiro não lhe vieram os sangues, como marés do corpo que se negam a cumprir o oceano. Mas chegaram as vertigens, as náuseas a piorarem com os balanços do carro.

Sonhava com precipícios

e com cerejas.

Crescia-lhe água na boca quando pegava numa rosa

escarlate.

†

Apesar de se sentir doente, Suzanne Necker recebe Leonor com satisfação. Instala-a com carinho, deixa-a descansar da viagem e, em seguida, dá um jantar em sua honra a que estão presentes os escritores do seu salão literário, entre eles Filinto Elísio.

Louise, que se transformara numa mulher inteligente, culta e rebelde, e passara a adoptar o nome de Germaine, rodeia-a de vivo entusiasmo, inunda-a de livros, de ideias novas, cita filósofos, defende a ciência, debruça-se particularmente sobre a botânica e a astronomia.

Lê-lhe poemas.

Fala de Diderot, de D’Alembert, de Buffon e de Grimm. Alguns deles já ela conhece de quando passara por Paris a caminho da Áustria. A outros fora apresentada aquando do encontro em sua homenagem; e a outros ainda só irá vê-los e escutá-los quando os conhecer na sexta-feira seguinte, um dos dias em que Madame Necker abre o seu salão a uma elite cuidada.

Filinto Elísio, impaciente, aparece cedo demais, contando com a complacência de Suzanne, de quem se fizera amigo e que sabe bem como ele se interessa pela condessa de Oeynhausen.

Nos dias em que se encontram sozinhos olham-se sem rebuço, saudosos do tempo passado em Estrasburgo sob a protecção da abadessa de Rupertsberg.

Saem para passear nas margens do Sena, rever Notre Dame e a luz translúcida que a envolve ao fim da tarde. Frequentam a biblioteca da Rue Bergère onde, tal como Germaine, Leonor passa muitas das horas daquela fugaz passagem por Paris.

Estadia curta e ansiosa, em que ela tenta iludir as náuseas e as agonias que querem derrotá-la logo de manhã, resultantes daquela gravidez que, ainda mais do que as anteriores, a aflige e importuna.

†

No salão de Suzanne Necker, Marmontel, que acaba de publicar o ensaio Autorité de l’Usage Sur la Langue, admira-a de longe, no seu vestido cor de pêssego, a declamar poesia em francês e em português, língua que ele não sabe mas lhe parece ser melodiosa.

– Prefiro quando Vossa Excelência recita em português… –, dir-lhe-á mais tarde, com um ligeiro sorriso de lisonja. E Leonor, não levando em conta o gosto por aquilo que ele escreve, responde-lhe ferina, embora grácil:

– Isso será porque Vossa Excelência, apesar de poeta, não aprecia a poesia declamada. Pois como desconhece o português, suponho que não tenha percebido um único verso dos que acabo de recitar na minha língua.

†

Chega aos salões literários exacerbada, às vezes tímida.

Olhar de pérola recolhida, que de tanto mar nos olhos não perdoa

aos outros a incerta medida e a secura.

Sentindo-se perdida, Leonor de todo não se afoita, mas também jamais se apazigua.

†

Maria Antonieta deixa a companhia da bela condessa Gabrielle de Paulignac, ignorando a expressão desagradada do seu rosto, para ir agarrar a mão de Leonor, e levá-la consigo, silenciosa. Parece no entanto hesitar, desconfiada, sempre que chegam às esquinas dos corredores dourados, onde os tocheiros de prata, as velas acesas dos lustres e dos candelabros pousados em grandes arcas de vinhático ou nas consolas de espelho tentam enganar as sombras.

Quando finalmente entram nos seus aposentos, logo a Rainha de França dispensa as damas e as fidalgas, as aias, as camareiras, as açafatas, e trancando a porta que separa as salas comuns às da sua maior intimidade, vai com Leonor até ao boudoir, paredes forradas de gravuras, espelhos e baixos-relevos. Na cadeira de vestir encontra-se ainda o fato de seda escarlate usado na véspera à noite. Fica-lhe melhor o de cetim lilás que nesse dia veste, de uma simplicidade pastoril, saia lisa e cingida na cintura por um grande laço de seda, cor de pétala de rosa damascena.

De uma lividez impressionante, Maria Antonieta olha à roda como se a confirmar estarem sozinhas, faz sentar Leonor no canapé onde chega a intensa fragrância da água de rosas engrossada pelo aroma de nardo que se esgueira das rendas, dos cetins, das pulseiras, das meias de seda, dos corpetes espalhados a esmo, para vir desmaiar como uma onda junto aos pés de ambas.

Sorrindo contrafeita, traída pelos próprios pensamentos, a Rainha inclina-se, murmurando-lhe baixo, como se estivesse prestes a revelar um segredo perigoso:

– Sei que a senhora Condessa esteve a sós com a Imperatriz da Áustria e Senhora minha Mãe, que me mandou dizer muito bem querer a Vossa Excelência! Sei também terem falado longamente quando a morte já a rondava por perto…

Cala-se, pálida e ansiosa, antes de continuar, voz nublada pela emoção contida:

– Vossa Excelência alguma vez escutou a Senhora minha Mãe queixar-se de saudades desta sua filha?

Acrescentando em voz muito baixa, como quem dialoga consigo própria: «Que falta teria sentido de mim?» E nos seus olhos maquilhados há lágrimas paradas como águas de estio.

O silêncio que se segue sufoca-as, ficando Leonor atenta ao seu alheamento, nervosismo denunciado pelas mãos trémulas que deixam cair os brincos de diamantes, o colar de pérolas do tamanho de ovos de rola, as escravas de platina e ouro que rolam até aos seus pés e que ela apanha e entrega à Rainha de França, que parece esquecida das perguntas que fizera.

Diante da Soberana, Leonor repara como ela está magra e como a maquilhagem, em vez de simular a saúde que lhe falta, lhe acentua a expressão assustada do rosto de cera, onde finas rugas começam a formar-se junto aos olhos toldados e aos cantos dos lábios, a emprestarem-lhe um ricto amargo.

Mas a Rainha fá-la sentar-se de novo, e só então Leonor lhe fala da Imperatriz D. Maria Teresa, sua Mãe. Recorda, mas também inventa, para logo lhe dizer a verdade; comenta a sua força de carácter e inteligência arguta, elogia-lhe o gosto pelas artes, sublinha o arrependimento confessado por a ter levado a ela, a filha mais nova, a ser infeliz, num país onde jamais deixaria de ser estrangeira.

Maria Antonieta escuta com ansiedade cada uma das suas palavras, durante uma longa conversa que às duas parece curta; e levada pelo clima de intimidade, acaba confessando o medo que começa a tomar conta de si, sentimento ruim que lhe revolve o estômago; dá-lhe conta, também, dos rumores, dos insultos e das calúnias.

Ao ver o seu ar assustado, Leonor tem pena dela e sorri-lhe com amenidade, mãos estendidas a ganharem as daquela mulher que para ela deixara de ser Rainha.

Finalmente libertas, as lágrimas deslizam-lhes ao longo das faces como jóias translúcidas.

†

Antes de deixar Paris, Leonor envia a Gonçala um pequeno e sucinto bilhete, com a habitual caligrafia miúda, escrito à pressa e em arrebatamento impensado:

«A Nossa Senhora dos Rochedos tem o teu rosto.

Morro de saudade tuas.

L.

Paris, Novembro de 1784»

†

Leonor regressa a Avignon, onde Carlos Augusto já chegara há muito e a espera com ansiedade mal contida.

Vai na companhia agradável de Suzanne Necker, embora seja a fraca saúde desta a triste motivação da sua viagem. Mas a vivacidade e a turbulência de Germaine acabam por lhe tornar o caminhar menos penoso, pois sempre encontram motivos de diversão nos vários acontecimentos e peripécias inesperadas do trajecto, que observam com minúcia.

– Vamos para os Estados do Papa! – exclama Germaine, zombando com fingido entusiasmo na tentativa de amenizar a tristeza de Leonor, que se vê obrigada a trocar Paris por Avignon.

As etapas que fazem são curtas, pois seguem com cuidado devido à debilidade e à languidez de madame Necker, que descorada e quase sempre de olhos fechados, viaja na companhia do marido, reclinada nas muitas almofadas que a amparam. Segundo os médicos, ela necessita de um clima mais ameno e saudável do que o de Paris, seguindo por isso para o seu castelo situado nas margens sombrias do lago Léman, em Coppet, onde ainda estivera durante o último outono.