As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 177 de 289

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As Luzes de Leonor

Angelus

Agora parece ser ela a estar indecisa.

Por um brevíssimo momento Leonor detém-se junto a um canteiro de amores-perfeitos, e quando se vira para trás, com alguma brusquidão incontida, a sua echarpe de tule verde-esmeralda fica presa numa trepadeira de ervilhas-de-cheiro de um cor-de-rosa de pureza única.

E finalmente olham-se, medindo a distância e revendo os sonhos, os silêncios escusos, reclusos, os desejos evitados no sobressalto do corpo.

O vazio feroz, como uma imensa sede.

Nunca mitigada.

 

†

ANGELUS

 

É o clima ardente dos teus olhos que me embruxa.

Agreste.

Em ti mesma agreste e luz. Em ti mesma agressiva, violeta e zimbro.

Camélia.

Tu, bromélia.

Quando ao te referires de passagem à secura de Constantinopla e da Alexandria que conheces dos livros, pareces desdizer os crepúsculos acesos das laranjeiras bravas, e mais acima no mapa, das cerejeiras em flor, as framboesas, as alfarrobas e as flores rosadas das amendoeiras. As rosas que se entreabrem a estremecer de desejo, ao mínimo toque dos dentes e da língua.

Mediterrâneo…

Sob o golpe do teu olhar atlântico.

Ao menor contratempo, insegura, nesse inquieto anseio que perdura em ti, de viagem em viagem, numa espécie de busca de eternidade que sempre procuras, sem no entanto jamais te entregares a ninguém, nem a nada.

A usares da tua secura, em oposição ao fulgor que geras.

Vagem, grão, semente…

De onde brotam as lágrimas que regam o interior dos desertos da alma?

Tu, de corpo expectante ao toque do meio-dia.

Perfumado, num odor de glicínia e madressilva.

Esquiva.

Tu arrebatada.

Tu ansiosa e esguia.

Nas horas malogradas, desamadas e torpes, perseguindo rotas, contornando mares e estrelas e rios. Inventando os cais, as baías, as enseadas supostamente tranquilas, mas que tu logo insubordinas. Pois sempre indisciplinas os lugares por onde passas, altiva e tão orgulhosa que os outros se desviam, fitando-te de longe, deixando-te sozinha contigo própria; descuidada, elaborando a trama do vago tecido do sonho que durante o dia persegues… Em busca das cidades por ti imaginadas: Roma, Atenas, Alexandria… Onde a vertigem e a queda não te impedem na desmesura, pois a desmesura é já teu próprio corpo.

Febre e logro e lodo vagaroso.

Os teus versos escritos ao arrepio do que te foi ensinado; com eles tu partes, galopas, percorres um círculo em torno da razão, largando o coração no cintilar do todo.

No borralho da lava.

Logo a extravasar em teu peito afoito e conturbado. Dividida talvez, quem sabe… Tu, Leonor, a eleita daqueles que te lêem, te escutam as palavras, a poesia.

Arredia.

E algumas vezes dizem-te: vem! E tu distancias-te, com a lisura branca das aves submarinas.

Diva!