As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 235 de 289

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As Luzes de Leonor

Diário

Catarina chega em alvoroço a casa de Leonor ao princípio da tarde. Leva o olhar toldado por um misto de alívio e aflição, lábios crispados e mãos nervosas, enquanto murmura à beira das lágrimas: «Bocage acaba de sair dos cárceres da Inquisição, para entrar a doutrina no mosteiro de São Bento da Saúde!»

Enquanto a encaminha em silêncio para o seu escritório, também Leonor se debate entre a preocupação e a esperança. Tentando impor calma ao pensamento angustiado da amiga aflita, vai enumerando alto os passos entretanto dados com o empenho influente do desembargador Inácio José de Morais e Brito. Primeiro a urgência fora conseguir mudar a categoria da pena: «delito contra o Estado», de que ele ia acusado por Pina Manique, para «erro contra a religião», e em seguida transferi-lo o mais rápido possível da prisão do Limoeiro para as masmorras da Inquisição, onde o perigo apesar de tudo é bem menor.

«Anima-te! Até agora tem estado a correr tudo bem. Na Corte há mesmo quem diga que o próprio ministro Seabra da Silva se interessa pela sorte de Bocage» – tenta Leonor tranquilizar a amiga, embora ela mesma ande aflita sem saber mais como secar as lágrimas da irmã do poeta, D Maria Francisca, que continua a albergar em sua casa.

 

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DIÁRIO

 

Soube a notícia por Joaquim Bingre.

O ministro do Reino, usando da sua influência, conseguiu tirar Bocage do Mosteiro de São Bento e passá-lo hoje ainda para o Hospício das Necessidades, onde será tratado com mais benevolência.

Embora não goste de José Seabra da Silva, tenho de lhe reconhecer a admiração e o apego desinteressados por Bocage e pela sua obra.

Convém que durante algum tempo me aquiete, não responda aos seus remoques nem corresponda ao seu olhar de costumada sobranceria, levado certamente por aquilo que lhe teria dito sobre a minha família Sebastião José, que fez dele seu adjunto para em seguida, com a crueldade sobejamente conhecida de todos, o exilar para o presídio das Pedras Negras em Luanda, lugar de onde poucos saem vivos.

Diz-se tê-lo feito por vingança, devido a Seabra da Silva ter cometido algumas inconfidências acerca dos planos que Pombal andava a congeminar, a fim de levar o Rei D. José a assinar a Lei Sálica, que impediria o acesso ao trono por parte de D. Maria

no dia em que o pai morresse.

Lisboa, 22 de Março de 1798

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O padre Joaquim dos Foios recebe com prazer a visita de D. Leonor de Almeida no Hospício das Necessidades, apesar de entender ser a presença ali do poeta Bocage que a leva a querer falar consigo.

Conhece a sua fama de poetisa ilustre, por isso a olha com tanta curiosidade, dela confirmando não só a beleza dúctil como a sua extraordinária inteligência e, após ter falado com ela uma hora, adivinha-lhe igualmente a determinação e a intrepidez de quem não quebra.

Ao aperceber-se de que não adianta tentar demovê-la de o querer ouvir falar da situação e da saúde do poeta, arrisca abrir-se com ela no que respeita à fragilidade de espírito e à debilidade física do vate, ambas abaladas pelas prisões e interrogatórios por que passara nos últimos tempos. Mas também a tranquiliza, ao garantir-lhe a brandura com que ele está a ser tratado pelos padres Néris, deixando Foios propositadamente para o fim o relato arrebatado das discussões teológicas que ambos já travam. Antes de partir Leonor deixa-lhe sobre a mesa, para ser entregue a Bocage: penas, papel, tinta, e ainda alguns livros enviados por amigos.

E quando ele lhe pergunta se, indo até ali, não estará a desafiar em demasia o Intendente-Geral da Polícia, ela responde-lhe, a olhá-lo com admiração: «Maior risco parece-me estar a correr o senhor padre Foios, ao não me ter mandado de volta sem me receber…»

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Pina Manique resolve seguir ele mesmo Leonor até ao Hospício das Necessidades onde Bocage se encontra preso por sua ordem e em nome do Príncipe D. João, num regime de vigilância apertada, proibido de sair fora e de comunicar com pessoa alguma, à excepção dos religiosos conventuais, podendo andar livremente pelo hospício desde que não se aproxime das portarias.

«É preciso ter desfaçatez!» – resmoneia baixo, fervendo de raiva, ao vê-la entrar no hospício. E o Intendente não sabe o que melhor lhe convirá: se ir atrás da condessa, a colocá-la diante da sua extraordinária preocupação em relação a Bocage, se manter-se quieto, fingindo desconhecer o sucedido, enquanto em torno dela aperta o cerco.

Contaminado pelo baraço da dúvida, atravessa depressa o jardim de buxo, e já na tapada, dentro da cerca, recua para a densidade da sombra fechada dos cedros, a ponderar ainda as possíveis consequências de cada um destes dois actos.

Meses antes alertara D. João contra a presença assídua de D. Leonor na câmara da Rainha e nos aposentos das Princesas reais; confessando-lhe na altura o Príncipe a sua inquietação diante da provável influência nefasta da filha do marquês de Alorna no acirrar dos humores de sua mulher, D. Carlota Joaquina, por si mesma propensa a nervos e às maiores asperezas. Mas, como sempre, quererendo evitar confrontos, esquivara-se a aprofundar o assunto.

«É um fraco!» – resmunga desabrido Manique, puxando mais o tricórnio sobre os olhos, sem deixar de fitar com atenção ferina a porta principal do Hospício, como se esperasse ver sair por ela a qualquer instante a condessa de Oeynhausen, empurrando Bocage à sua frente.