As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 282 de 289

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As Luzes de Leonor

Capítulo 1803

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Não percebe se é de cansada se é de raiva recolhida que cambaleia, a esbarrar nos móveis.

A amparar-se, mãos tacteando as arestas e as paredes, julgando vê-las moverem-se à sua roda; grito mordido e simultaneamente solto, mais rugido animal ou até de medo, sem conseguir controlar aquele turvo sentimento de ter uma víbora enroscada no peito a retirar-lhe o ar, tal é a desmesura da sua ira, tornada primeiro em amargor e só depois em tormenta e raiva.

Agrura de tempestade por onde vai hasteando a magra vela de uma embarcação destroçada, sem saber domar a turbulência e o temporal de súbito levantados, a fim de lhe atingir o âmago da vida: fazendo-a girar sobre si mesma, sem esteio nem esperança onde se apoie, a aflição tomando conta dela.

Move-se na desordem diante da fragilidade estriada de impotência e de fraqueza com as quais nunca se conforma, na aversão que lhe dá sentir-se e ver-se como ave aprisionada, apanhada por armadilha há muito montada. Ferida pelo lado da dignidade e do orgulho, temendo mais do que tudo perder a coragem, gosto acre a terra queimada, travo a cinza fria na boca amargosa.

Apercebendo-se de modo tão vertiginoso quanto daninho e incongruente não ser já quem fora horas antes. Podendo estar em risco a sua vida caso não saiba dominar as circunstâncias, que lhe exigem uma serenidade de que nem sequer sabe se dispõe.