As Luzes de Leonor
Raízes
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Reparei primeiro na grossa corda com muitas voltas e nós, a atar-lhe os pulsos atrás das costas que ela, mesmo assim, queria endireitar de modo tenaz, rodando os ombros finos, num fraco equilíbrio do corpo delgado; depois atraiu-me o seu olhar brilhante de miosótis azul-lilás – um olhar seco, sem rasto de lágrimas. Olhar neutro na face neutra, de quem sabe comandar e encobrir ou mesmo emendar os próprios sentimentos afincados.
Os soldados traziam-na empurrada, apesar de ela caminhar de bons modos, condizentes com a sua aparência tranquila e calma, embora arrastasse um pouco o passo demorado, primeiro na entrada de pedra e mais tarde na madeira aplainada do meu gabinete, onde ambas ficámos em silêncio diante uma da outra. E porque já nos conhecíamos, mais nos dividíamos, perturbadas por motivos diversos e em planos opostos daqueles em que sempre estivéramos:
Eu, a madre prioresa do convento das Grilas; ela, a orgulhosa e poderosa marquesa de Távora. Eu, a abadessa nomeada por El-Rei D. José para ser sua guarda ou guardadora; ela, a acusada, a implicada no atentado à vida de Sua Majestade. No entanto, são as longas mãos dela que repousam em paz em cima do regaço de seda negra, e as minhas que nervosas se agitam sobre o tampo da secretária de pinho, tropeçando no missal, na Bíblia, nos cadernos de assentos do mosteiro, na capa do meu indevido diário.
Inquieta eu no novo papel e obrigação de vigiar, observá-la; mantê-la em cárcere de cela isolada. Afastando-me e afastando todas as irmãs da perniciosa e perigosa convivência com a sua pessoa, seguindo as ordens reais.
– Cumpra Vossa Reverendíssima o que tem por obrigação cumprir –, disse-me com voz clara e firme D. Leonor de Távora. E em seguida pediu-me um terço e alguma roupa íntima.
Aflita por vê-la tão despojada de tudo, tirei o meu próprio rosário de marfim, pendente da cinta, e coloquei-o nas suas mãos, julgando nelas sentir o coração do gelo.
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