As Luzes de Leonor
Caderno
Por vezes Leonor Benedita descobre, surpresa, o odor a canela das próprias coxas, cheiro mal disfarçado pela fragrância abaunilhada da essência da pele. Então, baixa com pressa o vestido, assustada diante da exposição imprópria do corpo, alisa as mangas de tule com as mãos nervosas que poisa em seguida no cimo dos joelhos: a unir o desunido.
Muito quieta, olhar turvo preso algures.
Num impreciso vazio.
Ao regressar sente uma aragem que a refresca, afogueada na pressa que leva a fim de ir esconder-se no quarto, coração irregular batendo sob o peitilho ajustado onde os seios despontam por entre fitas de cetim entrelaçadas. Ao alcançar a fronteira entre o bosque e as áleas da casa, pressentindo a presença de alguém, Leonor Benedita pára, prudente, a espreitar por entre a folhagem: descobre a mãe sentada à mesa de azulejos do jardim, debruçada sobre as páginas soltas de uma carta, demora-se a olhá-la e a seguir-lhe os gestos, a espiá-la, alerta, atenta, desconfiada, sem uma ponta de afecto.
E ali escondida, a desconhecida é ela, a estranha, a estrangeira.
Por segundos Leonor Benedita julga adivinhar o furtivo brilho do aço de um punhal nos olhos que a mãe levanta, para de imediato os baixar.
Mais uma vez escapando-lhe.
†
CADERNO
Ver o despertar da natureza faz nascer em mim gostos de botânica; partir no rasto de plantas, por entre matas, bosques, brenhas; empenhos de estudar, pesquisar, de descobrir por entre os juncos verdes, urzes e agrimónia com a sua cura de suco amargo.
Assistir ao desabrochar da natureza, quando «brotam plantas, arbustos, brotam flores», dá-me vontade de inventar odes ao reflorescer da terra, ao incêndio do sol, na teima em secar ou aquecer as águas que restam do inverno.
Testemunhar o florescer da natureza, a aridez que se transforma e transfigura. «No mês de Abril as flores purpurinas pendem em cachos das acácias.» Sugerindo à natureza, como se fizesse um verso inicial: «Vem enramar-me a escrita.»
Presenciar o florir da natureza desperta-me vontades de voo, a imaginar o futuro num longo poema em lentas recreações botânicas. «Tu, que preparas com perfumes e gala o nascimento.» E torno, insistente: «Vem de aromas também encher meus versos.»
Almeirim, 27 de Abril de 1794
†
Catarina pousa no assento lavrado da sege que a conduz até Almeirim um rolo de papel atado com fita de seda lilás: os versos e a carta que, antes de professar, Teresa lhe passara por entre as grades do parlatório do Convento de Santos, a fim de serem entregues a Leonor: «ela irá entender os meus motivos», acrescentara sem grande convicção, mas com o mesmo tom de voz determinado com que sempre falara da decisão de tomar o véu, de tornar-se freira.
Vai estonteada com o calor que tomara conta do fim da primavera, corpete de tafetá rugoso verde-esmeralda, decote deixando ver o começo dos seios. A abanar-se, aturdida, com o leque de seda bordada, mas até o ar que ele movimenta está incendiado.
Tira com impaciência o chapeuzinho de palha e atira-o para o fundo do banco, pensamento em voo sem tino, empreendendo nas vidas diferentes de cada uma das três: Leonor, Teresa e ela mesma. Acabando por olhar suspeitosa as linhas das palmas das próprias mãos, parecendo-lhe descobrir nelas percursos, rumos, trajectos, itinerários, metas, num traçado laborioso de mapa.
Um entre os destinos delas.
Tão diversos.
As três tão diversas.
E o embalo sacolejado do carro que começara por nauseá-la, acaba por entorpecê-la mais ainda, a afundá-la no sono, resguardada pelas cortinas de seda que ensombram a acesa brasa do sol, mas mantém a temperatura afogueada do carro.
À medida que o tempo passa e se aproxima de Leonor, preocupa-a mais a notícia que leva, mas antecipa também o gosto de lhe cair nos braços, embora tema poder ser recebida com frieza, a fazê-la sentir-se rejeitada. Enquanto Leonor se guarda-resguardando a alma, mantendo-se intacta, vidro sem mancha em que se torna.
Por isso Catarina anseia por chegar junto dela, embora receando reencontrá-la. Tão depressa desejando o seu abraço, como se arrependendo de ter partido de Lisboa ao seu encontro. E na pressa que leva evita qualquer paragem nas postas e nas estalagens, acabando por passar a noite em branco no carro, aproveitando para repensar as relações turbulentas que mantém com as suas amigas.
Recusando a lisura atemorizadora, insípida e severa de Teresa.
Temendo as Luzes de Leonor, que sempre a ofuscam.
†
Frederica fica parada na cozinha
junto da porta da despensa, a respirar os odores quentes e os vapores que escapam das tampas das panelas e das caçarolas ao lume, água a crescer-lhe na boca pequena, língua a palpitar na antecipação dos sabores dos cremes, das natas, dos doces de amêndoa, enquanto a cozinheira tende a massa do pão ou das tortas na mesa salpicada de farinha.
Açúcar a ganhar ponto nos tachos que fervem nos fogões de lenha, cheiros a misturarem-se encorpados: pau de canela e de anis, fios de ovos e pudins de mel, leite de creme queimado a ferro em brasa nas travessas. E Frederica engole a saliva espessa na expectativa do prazer que lhe dá rapar o fundo dos tachos e das tigelas bojudas onde são batidos os bolos com colheres de pau manchadas pelas chamas altas e a fervura dos molhos.
Cheiro a baunilha e a erva-doce a desprender-se dos fumos, ou do arroz-doce que gosta de comer ainda morno, chupando devagar os pedaços da casca do limão que as criadas retiram, cuidadosas, antes de o deitarem na terrina onde ficará a arrefecer até ser servido à mesa.
Por entre aquela amálgama de aromas a menina consegue distinguir o do manjar-branco que a mãe prefere desde o tempo do convento de Chelas, assim como o do chocolate quente deitado na cafeteira de prata da qual se aproxima sorrateira, a fim de aparar os pingos que escorrem lentamente para o prato ao lado do açucareiro e da leiteira, das chávenas da Companhia das Índias.
Franzina, queda-se entorpecida pelo calor da cozinha para onde se escapa em vez de ir como as irmãs dormir a sesta, em dias em que há visitas chegadas de Lisboa e se preparam os doces do lanche e as sobremesas do jantar. Quieta, fica a ver retirarem do forno os tabuleiros com os biscoitos de gengibre, os folhados, o pão-de-ló dourado ainda na forma e que irá ser colocado no baltazar pousado no tampo de mármore do aparador de mogno.
Então a menina estende a mão peganhenta e mergulha um único dedo no caramelo da taça de cristal à sua beira e em seguida rouba dos covilhetes um queijinho-do-céu onde enterra os dentes, sorvendo a moleza das gemas que engole sem pressa. E os seus pés calçados de pelica deslizam sem ruído, na tentativa vã de passar despercebida, baixinha que é para a idade, em estreiteza de ossos, magreza arisca que a deixa melhor esquivar-se com comprazimento através do silêncio.
– Como a condessinha é gulosa! A menina não mexa em nada, que ainda vai fazer desandar os doces! – grita-lhe Thérèse, que rindo com a cozinheira a enxota para fora da porta, e quando esta se fecha nas suas costas cortando a trança das essências meladas e estonteantes, Frederica queda-se por momentos decepcionada, mas logo se despacha a sair dali, encolhida e furtiva em bicos de pés pelo corredor comprido, até à ala onde ficam os aposentos das crianças, mergulhadas no sono ligeiro da tarde.
†
Indolentes, tomam refresco de groselha e limonada debaixo das acácias
ou das magnólias de brancas flores luxuriosas, perto do roseiral que vai entornando no ar manso o dormente aroma das rosas portuguesas, enquanto as duas desfiam poesia dobando os nomes de alguns dos poetas mais amados: Camões, Bocage, Dante, Homero, Petrarca… e Violante do Céu, de entre as freiras que faziam poesia.
Leonor acaba por lembrar Filinto Elísio, retirando de entre as páginas do diário pousado no regaço um dos poemas que ele lhe dedicara durante os dias passados em Estrasburgo; tristeza a velar-lhe de sombra o olhar fatigado, silenciada pelas saudades juradas por cartas vindas de tão longe, que sempre lhe apunhalam o peito de forma inesperada, a conturbarem a memória da perfeição dos dias intranquilos que anos atrás haviam passado juntos.
Catarina, por seu lado, esquecendo a amiga de súbito emudecida – e ambas, Teresa – fica relembrando com melancolia alguns dos versos ardentes por ela escritos e inspirados por paixões ardidas-perdidas.
Escondidas.
As duas recebendo nos lábios entreabertos o gosto frutado de uma levíssima aragem vinda dos arbustos arrepiados à luz matizada do crepúsculo.
†
– Quando regressares a Lisboa vou contigo – decide Leonor num repente brusco.
«Preciso de ver Teresa. Tentar perceber a sua decisão de abandonar o mundo. Não lhe encontro motivo forte nem melancolia ensombrada que a levasse a tomar uma decisão tão contrária à sua natureza de sageza e moderação, que sempre prega. Não me bastam a carta e os versos enviados pelas tuas mãos, necessito de olhar o seu olhar. Sei que irá tentar iludir os sentimentos e as emoções com a máscara das palavras, das ideias e dos pensamentos urdidos para me aturdir.»
– Quando regressares a Lisboa vou contigo – torna Leonor com aspereza de zanga diante do silêncio murado de Catarina.
«Quero ouvir da boca de Teresa as razões que a levaram a recusar, num aniquilamento pertinaz, o talento literário que a própria Academia Real das Ciências reconheceu ao premiar-lhe a escrita. Faz-lhe falta a ambição, o desmando, o desconchavo.»
Perante a apatia da amiga, de olhos fechados como se tivesse adormecido, prossegue num monólogo de sobressalto.
– Quando regressares a Lisboa vou contigo – diz Leonor determinada.
«Quero saber do porquê da sua teima em escolher a obscuridade, que desde sempre parece caber às mulheres. Suspeito que ao encontrá-la na penumbra do convento, onde por menor que ele seja custa a entrar o fulgor, a desvendar nela um fogo rutilante, alimentado pelas entranhas da própria turvação.
Numa espécie de embuste.»
E embora saiba ser tarde demais para a trazer de volta ao âmago das Luzes e das reflexões filosóficas e da ciência, quer testemunhar esse afastamento do mundo onde Teresa julga encontrar o despojamento, para melhor se ver reflectida na superfície intacta do aquietado lago no qual, narcisa, continua a debruçar-se.
– Quando regressares a Lisboa vou contigo – teima para Catarina, agora a olhá-la com mansa ironia.
«Afinal, só de preces, de meditação, de missas e de leituras místicas não se alimenta o espírito de uma mulher que sempre recusou a ignorância, embora persistindo na teima de não chegar à cintilação e ao excesso.»
Leonor reconhece o afinco com que a amiga ilude as ambiguidades da sua personalidade. Jamais cedendo à tentação de transgredir, nem de entender a própria insatisfação.
Dilacerada entre o recolhimento e a desmesura.
Esperando que esta arda até às cinzas.
†
Deslumbrada, Henriqueta observa Juliana no seu vestidinho de cassa cor-de-rosa, faixa de cetim lilás presa na cintura com um pequeno alfinete de ouro, mangas tufadas de tule e renda. Repara no seu gesto afectado a retocar os caracóis louros tombados nos ombros e afastados das têmporas por lacinhos que ela mesmo dera, diante do espelho, sem ajuda.
O calor começara já a abrir caminho entre a malva-da-índia, os gerânios e as begónias, quando os criados vêm buscar os baús de viagem, levando-os para as carruagens que os aguardam na sombra do pátio para os levar a Lisboa.
Henriqueta dá conta do odor delicado das ervilhas-de-cheiro, acirrado pelo perfume das rosas-chá que sobe do jardim enquanto o jardineiro as rega. E curiosa vira-se para encarar Leonor Benedita, no seu fato de algodão preto abotoado discretamente nas costas, que magra e pálida se aquieta sentada na beira da cadeira de toilette, mãos compridas cruzadas nos joelhos unidos, a esperar a partida num silêncio ausente ditado pela maior indiferença.
O pequeno relógio de mármore em cima da lareira vai dando as dez horas da manhã; com um jeito urdido pela satisfação de se mostrar, Juliana afasta-se finalmente do espelho que lhe reflecte a imagem ainda de menina, pele acetinada de criança, olhar inocente mas trespassado já pela vaidade, a ajeitar o fio de ouro sobre o peitilho costurado com finíssimas nervuras.
O seu olhar de satisfação, que guarda todos os cambiantes do azul e do violeta, prende-se e detém-se na figura delgada da mãe, que entretanto chegara, e sem entrar nos aposentos das filhas ficara encostada à ombreira da porta, atenta, a avaliar as três.