As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 21 de 289

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As Luzes de Leonor

Memória

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Com o decorrer dos anos passei a entender o convento de Chelas como um cárcere político: paredes e escadas roídas pelo tempo e pelo lodo das águas do rio, portas trancadas impedindo o acesso ao mundo, grades por entre as quais, durante anos, passei as mãos e os braços até onde podia, numa imensa sede de liberdade e espaço de mudança. Pois nada se quer preso, imóvel, imutável – já então tinha absoluta consciência disso. «Todo o mundo é feito de mudança», como escreveu Luís de Camões.

Continuo hoje a acreditar que a falta de liberdade mata.

Corrói, desvirtua-nos.

Estilete a insinuar-se na nossa mente, na nossa inteligência, a tomar conta delas, para em seguida as anular, nelas acrescentando o medo que sempre nos apouca. Tudo nesta vida tem o seu tempo, o seu espaço movível, explícito ou invisível, que o corpo juntamente com o espírito tece e recria.

Inutilmente, em busca de justiça.

O convento de Chelas foi para mim uma prisão de mulheres, cárcere onde, inocente, cumpri uma pena de dezoito anos. Castigada por um crime terrível, levado a cabo pelos meus avós maternos, segundo a palavra odiável de um déspota e as provas por ele obtidas sob tortura. Urdidura de uma perfeita intriga, a fim de aniquilar o poder da aristocracia. Quantas vezes, ao ir em busca da minha identidade, desejei «poder entender na vida que me escapa, aquilo que, impartilhável, faz apenas parte de mim, e me torna única». Pois nada jamais me impediu de acreditar que um dia seria livre, embora a minha condição de mulher tornasse esse sonho idealista por demais difícil de conseguir.

Lembro-me de ter jurado a mim própria nunca trair o princípio da insubmissão, da rebeldia e da resistência, frente à ignorância, à superstição, ao despotismo! Talvez por isso nas minhas atitudes sempre se tenham espelhado os princípios do rigor e da insatisfação, sem nunca deixar de reflectir a ideia da liberdade.

Escandalizando assim as freiras com o meu comportamento determinado, na defesa das ideias em que acreditava. Mas também quando recitava poemas meus nos outeiros poéticos, ou claramente namorava ou fingia namorar no parlatório, afirmando amar quem não amava, em promessas de entrega, para logo me afastar durante dias, a defender-me com a clausura.

Provocar dava-me um prazer infinito, jamais resistindo ao gosto de desafiar mesmo Teresa de Mello Breyner – a minha Tirse – ou cada um dos poetas que me procuravam na grade – sobretudo Filinto Elísio, com quem falava de poesia, discutia política e filosofia.

Hoje olho incrédula para tão firme resistência da minha parte, sinal da maior insatisfação revoltada e revoltosa, usada como cortina de fumo para tapar o que em mim tão depressa era desespero como enovelada melancolia. Tendo o cuidado de iludir tudo isso nas cartas enviadas a meu Pai, que apesar de preso no Forte da Junqueira pretendia controlar a minha vida.

«Faço de conta que aceito as suas ordens – decidi com astúcia –, pois se quando encubro o que leio, o que quero, sinto e penso jamais me desacerto com o meu Pai, o melhor é fingir acatar sem recalcitrar sobre cousa alguma e tomar como certos os seus conselhos em todas as matérias. Deste modo poderei com tranquilidade aprender com Rousseau, Voltaire e Diderot, pois todos eles deixam de me estar interditos, embora a censura os tenha proibido.»

Treinei-me então a esconder os livros apreendidos, que me chegavam de vários e engenhosos modos, ao mesmo tempo que me empenhava no seu estudo. Sem com isso deixar de fazer golas e punhos de renda para nosso uso, ou bordar a ponto cheio as toalhas e os lençóis que as freiras tinham de entregar no Paço, onde já havia chegado a fama da minha rebeldia, como chamavam ao grande lume que ainda hoje em mim se mantém aceso.

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