As Luzes de Leonor
Caderno
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Antes de entregar a carta que hoje escrevi a Teresa ao moço de recados que me leva a correspondência, faço esta pequena cópia para fixar a ideia do que nela a certa altura digo:
«Em Portugal afeiçoa-se a ignorância que apenas serve a quem recorre à força para submeter o rebelde espírito da liberdade. O conhecimento que fortalece o carácter e o espírito, sempre é condenado.»
Como neste país se pode ser superficial, ignorante e árido!
Chelas, 23 de Dezembro de 1774
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Maria sai da grade e sobe devagar a caminho do quarto de Leonor, sem saber ainda como lhe dizer o que Francisco Manuel do Nascimento acaba de contar, pedindo-lhe ao mesmo tempo que fosse portadora de uma tão inesperada e grave notícia:
– Sebastião José Ferreira Barroco vai ter de partir de um momento para o outro, não podendo voltar a S. Félix. Creio que só vós sabereis dar esta cruel nova a vossa irmã, sem lhe destruir o coração.
Atónita, limitara-se a perguntar:
– E ele parte porquê e para onde?
– Um despacho nomeou-o juiz de fora para a Bahia.
– E quem o nomeou tão de repente?
Depois de olhar à volta, a ver se alguém os estaria a ouvir, Filinto acaba por lhe confidenciar quase sussurrando:
– Consta que foi ordem de Pombal… Ninguém sabe se será verdade, mas o namoro dele com Alcipe pode estar na origem deste trágico desfecho.
À medida que, aturdida, se aproxima do quarto da irmã, Maria modera o passo. Acabando por parar, voltar atrás e entrar na própria cela. Precisa de alguns momentos para pensar como deverá dar conta de tudo aquilo a Leonor.
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Leonor ainda esperou que Sebastião aparecesse a despedir-se, o coração doendo. Sem ser o amor da sua vida, ele era o encantamento que lhe faltara para se sentir uma mulher cortejada como as que viviam fora daquele convento de aridez sombria.
De um momento para o outro ele embarcaria, e ela ia perdê-lo como sempre perdera tudo o que quisera na vida.
Quantos mistérios e dores a rodeiam!
Mal uma desgraça acaba outra surge a tentar despedaçar-lhe o ânimo, ferindo-a. As horas parecem voar à sua frente com uma vertigem difícil de suster e a grade, para si, continua vazia. Sem disposição para fingir uma indiferença que não sente, afasta-se.
Agarrando-se à poesia que sempre lhe valera nas ocasiões mais tristes, tenta encontrar o lenitivo de que tanto necessita. A usar os versos para acompanhar até à barra Sebastião Barroco…
As horas voadoras vão trazendo
Instante fatal de uma partida,
Que dos gostos ligeiros desta vida
Um retrato funesto está fazendo.
Assim começa ela um soneto onde põe todo o desconsolo que lhe apunhala o peito consumido. Culposa por afinal poder ser ela a causadora daquela estranha partida. E numa ode que faz à viagem de Sebastião Barroco, escreve estes versos aflitos:
Inda julga presente o grande dia
No qual, por causa dela, o Deus da guerra
Assusta o sol na sala do Tonante,
C’os fados portugueses.
Leonor não sabe mais o que Pombal quererá fazer cair sobre a sua vida.
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«Meu querido Pai e meu senhor
do meu coração
Apesar de me sentir ainda demasiado alterada para coordenar ideias
rigorosas sobre o único assunto abordado por V. Ex.a na carta de ontem, para me dar conta do dilatado estado de adiantamento em que se encontram as conversações mantidas por V. Ex.a com D. Brás da Silveira, cunhado por sua irmã do conde da Redinha, por sua vez filho do Marquês do Pombal, tendo em vista segundo V. Ex.a o muito conveniente casamento desta vossa filha com a medíocre pessoa dele. Contrato esse que eu por completo desconhecia.
Se pertence a glória de ir com as minhas ansiosas diligências libertá-los, pereçam todos os sistemas em que eu tinha fundado a minha felicidade própria e será uma sorte assaz digna de satisfazer-me aquela em que eu puder servir o meu querido Pai e procurar o inteiro restabelecimento de minha Mãe. Nada mais me pode obrigar ao sacrifício da minha liberdade e a tomar o encargo de mãe de família. O coração e o pensamento todo ocupado das minhas perdas e das minhas aquisições apresenta-me como um desastre o sair dos braços de minha Mãe, da casa de V. Ex.a para outra desconhecida, aonde me não leva nenhum princípio dos que a natureza nestes laços poderia apresentar.
O rapaz é um homem sem estudo; que pensará dos meus?
Tem uma irmã aliada com o algoz que abomino. Como poderei eu viver perto de semelhante gente? Mas… trabalha na liberdade de minha Mãe; anuncia vagamente a de V. Ex.a… Oh! Meu querido Pai, tomara, antes de separar-me desta casa, abraçar nela a V. Ex.a, tomara que V. Ex.a viesse
aqui ensinar-me qual é o meu dever! V. Ex.as ambos é que poderiam remediar tantas perplexidades. Eu não sei o que digo, não sei o que faço, vivo em uma obscuridade impenetrável. Deus me socorra e me faça atinar com o que for melhor.
De V. Ex.a
A filha que mais o ama e respeita
L.»
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Com esses modos obstinados e sem cuidado, ainda vai conseguir o contrário do que deseja. É de temer que eles possam vir a «cortar a haste e as raízes através das quais a minha filha se alimenta» – escreve o marquês de Alorna, tentando em vão moderar a filha mais velha, preocupado com as suas ousadias e desobediências.
O que mais o aflige, na verdade, não são os contínuos desacatos dela no mosteiro de Chelas, mas sim os laivos de rebeldia que, cada vez com mais frequência, reconhece nas cartas que ela lhe envia em resposta às dele, através das quais continua a tentar manter o controle sobre a formação e a educação das filhas, apesar da idade que já vão tendo.
E sendo Leonor a que tenta rebelar-se, fugir-lhe apesar das afirmações contrárias, é a ela que teima em dominar, em domar, em dirigir, a fim de lhe modificar o carácter forte e resistente ao mando alheio, igual ao de sua avó a marquesa de Távora, sogra de quem ele nunca gostara.
Em Leonor reconhece a insolência.
O modo como se recusa a obedecer. Em tudo contrária à doçura da mãe e ao mel de Maria.
O olhar do marquês de Alorna endurece: como pai, saberá ensinar a filha rebelde a respeitar os limites.
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A querer recobrar o ânimo que lhe falta, Leonor volta a abrir a carta de Teresa de Mello Breyner. Está cansada de tentar demonstrar ao pai que o casamento arranjado por ele é impossível, dada a repulsa em que toda a sua natureza se empenha na recusa desse homem ignorante, que não só mal sabe ler como ainda pertence à família mais chegada de Pombal.
Senta-se na beira da cama estreita e começa a reler desde o princípio as queridas palavras já decoradas: «Meu coração, apesar do meu gosto não aproveito a grade de hoje.» Leva as mãos ao peito, apertado de angústia causada pela decepção. Desde a véspera anda a contar os minutos para se encontrar com Teresa, amiga exigente, tão depressa ouvinte paciente e tolerante diante das suas mágoas e desabafos, como opressora e ciumenta, severa condutora dos seus passos, pronta a chamá-la à razão, atenta aos desconcertos do seu coração leal mas precipitado, controladora dos seus destemperos, ardências e humores contraditórios.
Sentindo aumentar a preocupação causada pela prepotência do pai, enviara um bilhete a Tirse rogando-lhe que viesse depressa, mas em vez de aceder ao seu pedido ela acaba por se esquivar, e Leonor encontra-se de novo só face à adversidade. Mas pior do que a solidão e o medo é o desconcerto interior, a desilusão causada pela reacção do pai frente à sua clara recusa em casar contra-vontade, atitude impensável e inaceitável para quem a pretende sacrificada, em troca da liberdade própria, a tornar-se um manso cordeiro entregue a um glorioso sacrifício.
As folhas translúcidas da carta de Teresa tremem-lhe entre os dedos frouxos, enquanto olha a tinta malva aqui e ali diluída pelas lágrimas que sobre elas verteu, dificultando a leitura daquilo que a amiga escrevera:
«Ando sentindo as dores que te atormentam. A cada instante porém me persuado por amor que melhoraste, mas é tão pouco eficaz a tua eloquência nesta parte, que não chego a crer o que para ti estou desejando. Amanhã é provável que te vá ver para suavizar-te a mortificação. Tomara que entendas como me custa o estar longe de ti, minha amada.»
Pelo menos, que a amizade permaneça intacta, intocada!
Inclina-se para trás na cama remexida, olhos azul-goivo presos na claridade incerta que, vinda dos vidros da janela, gatinha no tecto liso e branco com vagares de bicho.
Leonor demora-se absorta e enrolada na manta quente, olhar preso à carta amarfanhada onde se destaca o T finamente desenhado no final da despedida terna,
de promessa desmedida:
Lembra-te que te sou fiel.
T.
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Dirigi-me pela primeira vez à grade do convento de Chelas atraído pela fama da inteligência e da beleza de D. Leonor de Almeida. E embora conheça alguns dos seus mais entusiastas admiradores, cheguei sozinho e pouco à vontade. Mas como sou primo do conde de Lippe, que conhece a prelada de São Félix, fui muito bem recebido pelas freiras e, por isso mesmo, friamente acolhido pelas filhas dos marqueses de Alorna.
Persistente, insisti em voltar,
de novo e de novo,
tentando sempre passar despercebido. Desse modo tenho assistido a grande parte dos tão conhecidos outeiros poéticos, nos quais D. Leonor é
o núcleo, o centro, o cerne, em torno do qual tudo e todos giram ofuscados pela delicadeza da sua luz irisada, numa explosiva mistura de fulgor e ousadia. Partilha de melancolia e riso, aplicação e desafogo, desacertando-se no certo,
alvoroço e desabrigo.
Voz de cristal e de búzio a dela, onde ressoa a toada do mar que se espraia, para logo tornar a erguer-se num tumulto breve. Mistério de sedução oculto nos seus olhos, de um aceso azul ponteado de lazúli. Boca de carmim ao mesmo tempo esvaída, delgadez e corpo de haste. E eu, apesar de não dominar a língua portuguesa, escuto-a com encantamento e gosto, fascinado pela sua beleza e pelo firme tom do tanto entusiasmo.
Conquistado pelo encanto da sua extrema graça, bebo-lhe avidamente a musicalidade das palavras, estrangeiras aos meus ouvidos e entendimento, deixando-me banhar pela claridade ofuscante do seu olhar de verbena, embalado pela toada mágica dos versos que recita, por vezes fitando-me.
Com suspeição.
– O senhor conde de Oeynhausen parece ter tomado gosto aos poemas! – disse-me ontem em francês, num tom de evidente ironia.
Frase aparentemente banal e mansa, mas na qual percebo o travo do desafio agreste.
Habituado às regras do jogo, aceito-lhe o gume desabrido com enfeite de seda.
Desejando-a já, no antecipado gosto de ela ser:
autêntica e bravia.
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As sombras parecem adensar-se, a empurrarem os negrumes para junto da cama onde está deitada. Como se, à sua volta, as velas acesas pelas madres mais antigas se fossem apagando uma a uma.
A noviça sua valida, que quando ela adoecera a tratava com desvelo, foi rareando a presença atenta, e agora, transfigurada e esquiva, quando aparece em silêncio limita-se a endireitar-lhe a dobra do lençol que há muito já não é mudado.
A prioresa do convento de São Félix perde cada vez com mais frequência o conhecimento, a mergulhar nas trevas. E quando volta a si encontra-se quase sempre sozinha, desse modo a certificar-se sem espanto já ter sido esquecida mesmo por aquelas freiras que pareciam nutrir por ela algum sentir de merecimento. O médico, que raramente a vem observar, desenganou-a sem compaixão desde a primeira visita, ao aconselhá-la a chamar o confessor e a encomendar a alma a Deus.
Mas ela só agora lhe segue o conselho avisado, e antes que, moribunda, se possa esvair para sempre sem retomar a lucidez que tanto preza, pede os sacramentos que a entreguem imaculada nos braços do Senhor. E apesar de não sentir culpa de nada, nem de nenhum pecado ter de se arrepender, recebe a extrema-unção e desmaia,
julgando sonhar ao ver aproximar-se do seu leito D. Leonor de Almeida, menina ainda como quando chegara a Chelas, a debruçar-se sobre ela com um olhar condoído.
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Olha Carlos Augusto de Oeynhausen, como sempre em silêncio, a fitá-la absorto. Elegante na farda que o adelgaça, a espada na bainha a sublinhar a linha direita da anca magra.
Olhos sem mistério pregados longamente nela.
No entanto, existe alguém que não tira dela um olhar atento.
E Leonor distrai-se com essa fixidez, que lhe despe ainda mais os ombros descobertos pelo decote audacioso.
Há semanas que ela e Maria dão conta de uma figura sempre já presente no parlatório quando elas entram na grade. Acobertada na sombra, dando a ver somente parte da face meio embuçada, no seu lugar penumbroso.
O que mais a conturba e ao mesmo tempo a atrai, é a obsessão adivinhada no esvoaçado mover de duas asas.