As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 143 de 289

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As Luzes de Leonor

Memória

†

 

Sempre procurei a beleza, aliando-a à busca do conhecimento, tomando ambas como causas primeiras da minha vida.

À perseverança.

Entrançando as Luzes e o humanismo.

Por isso, também, ao partir da Áustria escolhi ir por Estrasburgo, como fizeram tantos dos humanistas que admirava. Seguia em busca de paz, querendo pôr fim à depressão onde mergulhara depois do nascimento de Juliana; temendo que apenas os versos não me afastassem da beira do abismo.

Hoje prendo-me de bom grado aos pequenos detalhes, às pequenas grandes coisas da vida, tais como escutar o sussurro da aragem a passar pelos ramos das magnólias em flor, o odor espesso da madressilva trepando à minha janela no final das tardes quentes, encontrar uma flor seca entre as páginas de um livro, recordar o olhar límpido e intranquilo de Maria Madalena no retrato que dela fez Josefa de Óbidos.

Tempos houve em que precisei de bastante mais.

Inquieta.

A minha vida parecia quebrar-se depois de cada maternidade.

De medo?

Sim, creio que então temia perder-me e aos meus sonhos. Culpava-me por sentir cada uma das minhas filhas recém-nascidas como se fossem âncoras que, apesar das amas e das criadas, me retinham os passos. Embora minha mãe tudo tenha feito para me incutir e a Maria os prazeres da maternidade, jamais me consenti verdadeiramente essa entrega.

Nessas alturas, se pudesse, teria fugido.

Como se me salvasse.

Sentindo-me a asfixiar depois de cada parto, escancarava as janelas em busca da aragem que me refrescasse; afastava de rompante os cortinados, empurrava com brusquidão as portas pesadas dos aposentos fechados. Acendia os pavios fininhos das lamparinas e ficava a vê-los navegar diante das imagens dos santos, a deslizarem no azeite de um tom de esmeralda profundo, para de súbito esmagar entre os dedos as suas luzes minúsculas; e só agora entendo como então me deveria sentir zangada com a vida, que de maneira cruel me manietava e limitava, tomada pela infelicidade.

Já não era no entanto esse o sentimento que me tomava à chegada a Estrasburgo, cintilante ao sol, com a sua pedra em grés vermelho dos Vosgos.

Longe daqueles que me queriam, e eu amava, ia-me modificando, reconstruindo-me.

Julgando-me livre.

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