As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 90 de 289

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As Luzes de Leonor

Caderno

Uma cena que renovará muito as minhas saudades suas, é o encontro com meus cunhados, vou ter esse gosto no caminho e isso me dará grande receio já que não posso ver os meus. No correio que vem terá a mana uma carta minha mais comprida porque como Deus me deu nesta a certeza de que vive espero que as minhas forças se restabeleçam para poder escrever muito.

Dá-me cuidado tanta dilação na Azinhaga, desejo notícias de Lisboa e ponho aos seus pés sir Charles que a ama infinitamente.

A Deus mana.»

L.

Paris, 1780

 

†

CADERNO

 

Madame de Châtelet e Madame d’Épinay.

Madame du Deffand e Julie de Lespinasse.

Todas elas têm vindo de diferentes maneiras e modos a rejeitar a sombra onde, pelo facto de terem nascido mulheres, seria mais natural apagarem-se.

A recusarem o passivo aceite da mediocridade e da ignorância imposta ao seu sexo. Determinação que lhes negaria o direito à inteligência, ao pensamento livre, ao estudo da Ciência, da Teologia, da Filosofia.

Cada uma reivindicando para si o direito ao estudo, à independência, à sabedoria.

A um itinerário de liberdade.

Nesta minha passagem por Paris, reaprendo a escutá-las, a lê-las, das suas vidas tomando o ensinamento da determinação.

Reivindicando o direito à obra literária.

À posteridade que nos é devida.

Paris, 10 de Julho de 1780

†

Passeia devagar pelos jardins de Versailles, distraída com a luz que lhe faz semicerrar os olhos cor de orquídea; claridade filtrada pelo verde espesso das copas das árvores alinhadas ao longo das compridas alamedas, que fazem parte do plano dos jardins geométricos delineado por Le Nôtre.

Debaixo dos pés calçados de cetim bordado – sapatos onde minúsculas borboletas esvoaçam em torno das fivelas de prata – sente a aspereza da gravilha, enquanto a aragem lhe enrodilha os cabelos soltos. Mão esquerda aflorando a faixa de seda e pérolas, bolsa de tafetá branco moiré comprada em Paris.

Escolhe ao acaso uma das mais longas alamedas, com cedros e plátanos a ladeá-la, deleitando-se com o perfume de invisíveis lilases mandados plantar pela Rainha Maria Antonieta junto do Petit Trianon. Odor que àquela hora chega ao Palácio de Versailles com uma intensidade vibrante e misteriosa. Fecha a sombrinha para receber o sol na face levantada, a bebê-lo num lentíssimo trago.

Pára?

Hesita um pouco e pára.

Olha em frente, satisfeita ao descobrir ao fundo a escultura de uma figura feminina reclinada, que ao longo da manhã tanto procurara. E à medida que se aproxima repara maravilhada nos seus pequenos pormenores: a delicadeza branda do pescoço, a linha sinuosa dos ombros, a pele acetinada e húmida. Os anjos à sua beira parecem querer ajudá-la a levantar-se.

Ou a deitar-se?

Curtíssimas asas ligeiramente entreabertas.

Na figura dourada da mulher reconhece Ceres, de que tão entusiasticamente lhe falara Suzanne Necker quando na véspera a visitou: «Não parta a minha amiga para a Áustria sem a ver», recomendara.

À sua volta, o silêncio é todo ele feito de múltiplas cintilações, num ambíguo jogo de sombra matizada e de pequeníssimos ruídos translúcidos tecidos pela leveza da luz, a reflectir-se na água do tanque onde se apoia a estátua.

No meio de estrelas de cristal rebrilhando.

E Leonor estaca,

coração a saltar-lhe no peito, respiração suspensa. Sem saber como suportar, incólume, tão resplandecente

beleza.

†

Excelentíssima Senhora

Condessa de Oeynhausen

Distantes estão os tempos difíceis,

mas também inesquecíveis de Chelas, dos quais brotaram num arroubo de belo entusiasmo Alcipe e Filinto Elísio. Mas, como dizia Camões, «mudam-se os tempos, mudam-se as vontades»…

Não escondo o choque que foi para mim ver-vos esplendorosa no salão de Madame Necker, nem como fiquei dolorosamente dividido entre precipitar-me ao vosso encontro, movido pelo alvoroço e o entusiasmo de poder de novo falar-vos, aflorar vossa mão, sentir-vos o perfume, e o dever de recuar, levado por tudo aquilo que o ressentimento, a humilhação e o orgulho me impunham.

Aflige-me agora constatar, devido à vossa reacção, como a minha atitude turvada e hostil vos ofendeu e magoou. Não era essa a minha intenção.

Lamento e sofro por ambos.

E ao receber o vosso generoso bilhete, onde parecíeis sugerir que vos procurasse, tive novamente a tentação de ceder aos ditames dos meus sentimentos acesos, embora a dignidade me imponha o oposto. Porque se nenhum de nós teve qualquer atitude nefasta que pusesse em risco o nosso entendimento único, o marquês de Alorna vosso Pai, ao denunciar-me, conseguiu fazer com que do meu coração brotasse o ódio e o desejo de vingança, ainda não apaziguados.

Rogo-vos pois, em nome da amizade e da admiração mútua que apesar de tudo parece continuar a aproximar-nos, que tenteis compreender-me.

Só temos de dar tempo ao tempo.

Quem sabe se a vida ainda nos permitirá um dia refazermos os liames do afecto, a retomarmos uma ligação em tudo prestimosa e fértil.

Com a minha eterna

e veemente admiração

Francisco Manuel do Nascimento

Paris, 20 de Julho de 1780

†

Fui hoje visitar a casa onde morreu Voltaire.

Não queria deixar Paris sem lhe prestar esta homenagem. Deste modo tentando, inutilmente, aproximar-me dos últimos meses da sua vida de homem e filósofo, que me moldou com a luminosidade do seu pensamento.

Com a sua lúcida inteligência.

Determinante foi para a minha formação a leitura da sua obra, que me permitiu escapar ao obscurantismo do convento onde fora fechada em criança; guardo ainda hoje o deslumbramento sentido diante das suas teorias pois, mais do que um desafio, elas foram a promessa de uma outra forma, livre e justa, de viver. Dando-me coragem para continuar, na tentativa de chegar mais longe.

Na teima de acreditar.

Talvez por isso, ao chegar emocionada diante da porta espaçosa por onde Voltaire tantas vezes entrou, fui acometida de uma forte vertigem, valendo-me o braço roliço de Louise Necker que, contrariando a minha vontade, descera da carruagem onde lhe pedira que ficasse e me seguira, como sempre palpitando de curiosidade.

No jardim abandonado havia magnólias e plátanos, à sombra dos quais nos refugiámos, entontecidas pelo intenso cheiro das glicínias. À nossa volta as flores cresciam ao acaso, misturando-se de forma exuberante numa desordem pesada de abandono: as begónias ao lado das margaridas, os lírios a quererem entrançar-se com as dálias, junto das longas hastes mirradas dos jarros exauridos. Em contraluz,

estava a casa com as paredes já escurecidas pelo pó e pela humidade. E ao longo do muro baixo que nos cercava, trepava serpenteando o trevo de ouro, na sua rara delicadeza esverdeada.

Ali tudo se negava à perfeição da ordem.

Procurei em vão, atenta, uma pista que me levasse até ao meu mestre, ao seu quotidiano partilhado com Madame de Châtelet, por quem eu sentia simultaneamente admiração e inveja. Mais do que de Diderot, de D’Alembert, ou mesmo de Rousseau, foi do pensamento de Voltaire que eu colhi as Luzes.

O fruto do conhecimento.

Os ensinamentos necessários que continuam a formar o meu espírito. Foram as suas palavras que eu bebi e me passaram o imenso e inadiável gosto de aprender. Foi o seu pensamento que me ensinou, me fez descobrir a decisiva importância da razão.

De uma nova sabedoria.

À minha beira a jovem Louise sorria distraída, abanando-se de forma indolente com um pequeno leque com aplicações de lantejoulas a rebrilharem quando o sol lhes batia.