As Luzes de Leonor
Capítulo 1788
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Leonor Benedita foge-lhe, esgueira-se, recusa a sua convivência, nega-se às suas palavras, desobedece às suas ordens, insurge-se contra os seus ralhos, despreza os seus conselhos.
Vê-a como uma desconhecida hostil.
Leonor deixa-a afastar-se, caprichosa, voluntariosa, fechada. Sente-se sufocar em Almada, entre a sombra em que a mãe se tornara, a extinguir-se sem esperança na sua cadeira de entrevada, e intermináveis conversas com o pai, que à força de tanto a querer guardar a atabafa.
Quando se obriga a trocar Lisboa por Almada, Leonor sente-se desterrada e perdida. Sem a idealização da distância, a vila ganhara para ela os medíocres traços de um lugar feio e obscuro:
«Almada é um horror para mim», escreve a Carlos Augusto.
Na Corte, pelo contrário, entrega-se à satisfação da pressa, à divergência dissimulada do jogo político. Sob o apelo e o desafio que sempre a levam à vertigem que adora, tomada pelo arrepio febril desse jogo que de bom grado aceita. Usando da habilidade exigida, Leonor desdobra-se e multiplica-se: encontra maneira de se insinuar nos aposentos da Rainha e das Princesas; de captar a simpatia das camareiras fingindo integrar-se nas suas conversas plasmadas; de fazer versos brejeiros a fim de agradar à superficialidade alvoroçada das açafatas; demorando-se a escutar a inquietação das infantas, no momentâneo esquecimento do próprio sobressalto.
E quando recolhe à casa da Rua da Boa Morte, onde agora vivem Pedro e Henriqueta, dá conta da falta que lhe faz o estudo e a poesia, sem os quais não sabe nem quer viver.
Para trás deixara muitos dos seus papéis e cadernos fechados na escrivaninha de laca, assim como a grande maioria dos seus livros. Na biblioteca do pai não encontra o que procura, numa constante busca de conhecimento, de inovação e abertura de espírito: de tudo aquilo que rompe, propõe e antecipa a mudança.
Da sua vida faz parte a diferença que sempre comporta risco, mas a faz avançar, indo cada dia mais longe, até conseguir tornar-se ela mesma vertigem. Leonor ambiciona a dimensão jubilosa da obra feita,
interdita à mulher.
Nunca se conformando com os anos perdidos.
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Estão as duas debaixo do caramanchão de madressilva, envoltas no seu odor intenso e doce, perto do roseiral dos jardins ensolarados da casa dos condes de Vimieiro, sentadas ambas nos bancos de azulejo com motivos de caça. As pombas arrulham ali perto e uma pequena gata branca espreguiça-se, estendendo as patas macias e encolhendo as unhas rosadas, antes de saltar para o colo acetinado de Teresa de Mello Breyner.
Como vem acontecendo desde a sua chegada a Lisboa, Leonor escuda-se num silêncio hostil, sem conseguir impedir o ressentimento e a decepção que sempre surgem quando se encontram sozinhas.
O relacionamento das duas esfriara.
Aliás, Teresa nunca escondera o seu carácter autoritário, de amiga ciumenta e dominadora, a querer seleccionar-lhe as amizades, filtrar-lhe os relacionamentos, controlar-lhe as leituras e até os poemas que escrevia. Tentando vigiar-lhe o pensamento, os sonhos e o imaginário. No entanto, a amizade sempre fora mais forte que todas as zangas, amuos e diferenças.
Enquanto Leonor estivera em Viena corresponderam-se muito, saudosas uma da outra; a recordarem apenas o envolvente convívio perdido, as confidências trocadas, a conivência diante dos desacertos da vida. Mas depois de ela ter passado a viver em Avignon a correspondência entre elas rareara. Leonor passara a reagir mal tanto às suas recriminações como à constante tentativa das pequenas intrigas.
Apesar de tudo, a primeira vez que se vêem quando do seu regresso a Portugal caem felizes nos braços uma da outra, mas sem serem capazes de reatar o convívio antigo: como se entre ambas alguma coisa se tivesse estilhaçado para sempre, mantendo-as distanciadas. Leonor desconhece mesmo que Teresa voltara a escrever, e esta, quando uns meses mais tarde a amiga lhe conta do ensaio em que trabalha sobre a importância da educação das mulheres, corta com impaciência ríspida:
– Já me tinhas dado conta desse teu projecto!
Leonor calara-se perplexa, e a partir desse dia evitara revelar-lhe quer as suas parcas alegrias, quer os muitos avistamentos de tristeza, as dúvidas, assim como os inúmeros projectos há muito acalentados.
Reprimem os afagos e os desabafos.
Ressentidas, passam a evitar maiores intimidades, indo Leonor buscar a Mariana de Arriaga o apoio que lhe falta, a compreensão, o entendimento para as suas contradições e excessos. Ousadia que a camareira da Rainha não só acalenta como incita.
Ao contrário de Teresa, sempre a retê-la, a querer impedi-la de ousar, a cortar-lhe as asas, a prendê-la ao passado. E é dessa atitude retrógrada que sobretudo Leonor a acusa.
Nessa tarde, ao encontrá-la a ler devotadamente um livro do padre Manuel Bernardes, perguntara-lhe se não tinha curiosidade, se nunca se cansava das mesmas leituras, se não sentia necessidade de chegar mais longe, a ousar atingir o impossível.
Teresa responde-lhe não ser esse o propósito da sua vida, que as suas intenções são bem mais nobres – usando o tom de desprendimento e distanciamento dos seus piores dias. Severidade que, aliás, sempre intimidara um pouco os outros.
– Será assim tanto o que nos separa? – indaga Leonor, moderada, mas logo se enerva ao acusá-la da aridez do trato que tanto empobrece a relação das duas.