As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 35 de 289

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As Luzes de Leonor

Epístola

A uma Freira em Chelas

 

Quando em silêncio adormecem

Todos os seres mortais,

Ligeiros à tua cela

Voam saudosos meus ais.

Dize, leste os versos de ontem,

Onde insculpio a ternura,

Comovida ao contemplar-te,

Indícios de mágoa pura?

Agora que tudo dorme,

Agora que só se escuta

Da noite o surdo rumor,

Reflexo de alguma gruta;

Quando toda a natureza,

Envolvida em sombra densa,

Dá liberdade aos suspiros

Que nascem da mágoa intensa:

Corre o vago pensamento,

E no pequeno recinto

De uma cela, aí te encontro,

Para explicar-te o que sinto.

Eu te vejo, oh Céus! que vista!

Aprisionando entre flores

Os corações delicados

De mil cativos amores.

Das perfeitas mãos te nasce

Ora murta, ora alecrim,

Ora imitando teu rosto

Cândido e lindo jasmim.

Que ideias ternas te inspiram,

Quando o gosto da leitura

Diminue brandamente

O cargo da desventura!…

Nos discretos caracteres,

Vão teus olhos magoados

Ora lendo o seu conforto,

Ora o decreto dos Fados.

Já te lanças brandamente

No seio da paciência;

Já te recreia admirar

O aspecto da Providência.

Eu te sigo suspirando,

E teço então sobre a lira

Estas cantigas saudosas,

Que o contemplar-te me inspira.

Se meus versos te consolam,

Sempre a branda simpatia

Conduzirá no silêncio

A Musa que teme o dia.

†

Minha Leonor

Obrigada pelas rosas rubras recriadas

e pelo delírio do poema.

As flores inventadas pela minha amiga incendeiam a minha cela. E os versos escritos pela minha poetisa, enlouquecem-me o coração.

Vossa até à eternidade.

Gonçala

Chelas, 1 de Fevereiro de 1774

†

Mansos são os teus ombros no seu perfume raro, rosas bravas e fundura estriada de jasmim, pele a clarear-se de morena-alva mal ficas despojada do hábito que te esconde a finura da cinta, na anca dobada pelo seu próprio fio, na firmeza das coxas longas que faço subir até mim, ambas de pé encostadas à porta da tua cela que pouco antes traváramos com uma cadeira pesada.

Na alba puríssima.

Encostado ao meu, sinto o palpitar do teu corpo intocado, que se guarda até ao fim na intimidade jamais desvendada, a evitar mostrar tudo o que detém, e eu partindo à tua descoberta, pouco a pouco desvendo-te; com suspiros, com sussurros, com resistências, com desvios que os meus cuidadosos e demorados dedos respeitam, enquanto os teus em mim se espraiam no resguardo do esquivo.

Do equívoco, Gonçala.

Comissura dos lábios e enlaçado enleio. A encontrarmos o alvoroço dos corpos onde se apressam os corações tumultuados, desejando e recusando, tentando ainda reter o alvoroço dos sangues enfebrecidos, os beijos que desordenados vão descendo no teu pescoço, nos ombros, no abismo dos seios uma da outra ao tocarem-se, convocação do abismo subitamente aberto à nossa frente.

Sem recuo já, ou salvação possível,

pois tudo o que aprendemos sobre o pecado declina, vacila, soçobra; enquanto abraçadas rolamos nas cobertas da cama, permitindo aos lábios a manipulação dos sítios por onde passam, semeando o incêndio onde em seguida ardemos. Prazer cada vez mais ávido, mais onda, mais dobado e veloz, onde se vai insinuando o desvario, o delírio. Tão rapidamente postas na troca dos anseios, das carícias, da vertigem, que nada mais entendemos senão a entrega, a dádiva, o aceite, a invenção de tudo o que nem se imagina.

Adivinhando a nudez na sombra absorta do veludo anil do vestido, que para ti entreabro e depois dispo; dando-me tu em troca o véu negro de te cobrir a cabeça, permitindo-me descobrir-te rapaz além do que supusera, no ouro do cabelo quase rapado, nas orelhas agudas, na doçura infantil da nuca trigueira, minha ávida, com o teu travo a rosmaninho, suor a gardénia nas axilas encobertas pelo largo e hirto cabeção branco que ainda conservas do hábito, sobre o teu peito a desejar-se solto.

O pé descoberto,

pela meia descida na pele macia por onde resvala e hesita no tornozelo estreito, a equilibrar-se depois a custo na amêndoa das unhas rosadas, cortadas rente. E na intocabilidade, na intimidade ambígua que tem sido a nossa, algo estremece e muda, a tornar-se outra: no vacilo, no frágil, no grito despojado, a sufocar-se no pudor aflito. Mirto e mosto num delicado odor mate, a pespontar o imoderado ocultamento que os nossos corpos soltam.

Qual de nós sabe ou conhece o mistério,

o motivo do proibido daquilo que a vida assim nos empresta ou entrega, nos propõe e agarramos, tal como a pertinaz razão que a mim me toma, me desarma e me envolve, algema e acorrenta?

E só meses mais tarde me espanto com a falta de arrependimento, com o desejo insaciado que sempre retorna, nos toma, envolve e impele, conduz uma na direcção da outra, sem darmos tempo a que a culpa e a vergonha cheguem a tomar pouso.

†

Para descer à grade, Leonor tem, ultimamente, entrançado os cabelos dourados. Parecendo usar uma grinalda, um halo, uma treliça de luz enredada.

Retoma,

recupera o controlo dos outeiros, faz leitura de poemas, glosa, dá motes, porfia no seu brilho maior, dando novamente mostras irrefutáveis do enorme talento e da sabedoria que lhe emprestam as musas e as Luzes.

Levando no seu rasto Maria que, ágil e alegre, aceita as deixas da irmã, elabora-as com generosidade, não escondendo a satisfação quando Filinto claramente a gaba:

As madeixas tomou das veias de ouro,

Nos olhos pôs safiras,

Que das setas que atiras

São, fero amor, o mais caudal tesouro.

Numa tarde em que se prolongam mais as rimas e os despiques, os talentos lustrados ganham mais o fino engenho de quem se pretende mostrar cada vez melhor poeta, são os motes e as glosas que prendem especialmente a atenção de todos.

Sendo Leonor quem sugere os motes.

Começando pelo verso da tragédia Castro, de António Ferreira, em torno de Inês e Pedro: «Amor ao mundo dá, doce amor gera». E faz um ligeiro sinal a Sebastião José Ferreira Barroco, que de bom grado aceita a primazia:

Se Alcipe canto, a bela Alcipe invoco:

Esta flauta me deu, com que fiado

Rústico sim, porém sincero toco

Seus louvores no meio deste prado;

Mal seu nome repito, eis que provoco

Os sátiros do fundo do silvado;

Seu nome humilha a mais bravia fera,

Amor ao mundo dá, doce amor gera.

Decepciona-se Leonor, e querendo disfarçar esse sentimento que a faz sentir-se implacável e mal agradecida, chama por Filinto Elísio que avança para as grades, por trás das quais estão as duas irmãs a olhá-lo com expectativa. Fita Maria nos olhos, toma-lhe a mão, chama-lhe Dafne, e sem lhe soltar os dedos com ela fala:

Formosa e meiga Dafne, diferente

Desta Dafne que a Febo foge esquiva,

Tu aluna das musas, sê contente

Inspirar em meus versos chama activa;

Acenderei em teu louvor a gente,

Que de te ouvir e ver o fado priva,

Teu rosto, em que o amor pôs de amor a esfera, Amor ao mundo dá, doce amor gera.

Estremece, impaciente, Leonor, ferida pela evidente diferença de qualidade entre o poema de Filinto dedicado a Maria, e aquele que por Ferreira Barroco a si fora destinado.

Só Domingos Maximiano Torres parece ter reparado no desagrado de Alcipe, e antes que o olhar dela se torne ainda mais inclemente e ressentido, dirige-se para o centro do parlatório e termina o despique com dois tercetos bem arquitectados.

Da sua janela, onde está de vigia,

a prelada entende que ele quisera não só evitar dissabores,

mas também apaziguar os amores fortes.

†

O conde de São Miguel pede autorização para falar com Leonor, sua prima afastada. Traz-lhe o resultado da tarefa de que ela o incumbira: saber a resposta – esperada há muito – da Mesa Censória ao seu pedido:

uma licença para adquirir livros proibidos.

Leonor desce apressada ao locutório e, praticamente sem o cumprimentar, senta-se e vai direita ao assunto, perguntando em voz baixa:

– Qual é a resposta que Vossa Excelência me traz?

– A Mesa Censória diz que não dá tal licença a mulheres. Nenhuma até agora, aliás, fez tal pedido.

– Então estranharam?

– Estranharam e desconfiaram. Eu, se fosse à prima, não tornava a insistir nessa ideia.

Sabendo os perigos a que poderia concorrer se insistisse e consciente de que tal seria remar contra a maré, ela concorda e agradece ao conde o trabalho que lhe dera. E mal este se vai embora, inconformada com a recusa, sobe ao quarto de Maria, onde ficam as duas a combinar o melhor meio de contornar o assunto: convencer Pedro a que, em vez dela, seja ele a requisitar a licença.

Leonor sabe que, sem ela, não terá muito que ler.

†

Leonor tenta sempre que a mãe não a veja ler

os livros que ela já sabe irem levantar problemas. Obras proibidas onde se debate e expressa a filosofia das Luzes, e que, quando vai a tempo, esconde debaixo do bordado há muito esquecido em cima do regaço quente.

«Leio quanto posso porque reconheço que a ignorância é a primeira causa das preocupações e da irregularidade dos costumes» –, escreve ao pai, preocupado com os seus males, pois é hábito pensar-se serem os livros especialmente prejudiciais à saúde das mulheres.

A ela, de clausura imposta num convento, a leitura salva-a.

Fazendo-a voar tanto as odes de Horácio como os sonetos de Petrarca e Camões, ou As Metamorfoses de Ovídio; as palavras de Voltaire como as de Montesquieu, evadindo-se ora através de cada um dos volumes da Encyclopédie ou de Candide, ora com L’Esprit des Lois, em busca de pensamentos libertadores.

Erguendo-se acima de si própria.

«A razão diz-me que estou certa.»

 

†