As Luzes de Leonor
Diário do Marquês de Bombelles Embaixador de França em Lisboa
Para ele, tratando-se de mulheres, as possíveis conspirações e maquinações são ainda mais terríveis do que as dos homens, porque especialmente difíceis de deslindar, de encontrar o fio da meada que elas propositadamente enredam, embaraçam de maneira hábil e indecifrável.
Por isso, quando ambas se levantam e, sem olhar à roda, se dirigem para o labirinto dos corredores do Palácio, ele segue-as cosido às paredes, deslizando na escuridade esgarçada pela chama fraca das velas, a persegui-las mais pelo som dos passos leves do que pela cauda do vestido de seda branca de D. Mariana, alvura a desmaiar na penumbra. E sem se surpreender, vê-as entrar nos aposentos da Princesa do Brasil.
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DIÁRIO DO MARQUÊS DE BOMBELLES
EMBAIXADOR DE FRANÇA EM LISBOA
«Dia 4 [dezembro 1787]
Tivemos esta tarde a visita da Senhora Condessa de Oeynhausen, mulher do ministro de Portugal junto da corte de Viena, embora se encontre longe dela há cinco anos […]. A conversão à religião católica não influenciou em nada a conduta do senhor de Oeynhausen; há muito que ele vegeta em Avignon, obtendo através de intrigas e importunidades da família da sua mulher, prorrogações de licença, sob o pretexto de viver mais economicamente nesse cantinho da terra papal. Entretanto, em comendorias, vencimentos ou pensões, ele recebe da corte de Lisboa vinte e sete mil cruzados, o que perfaz sessenta e sete mil e quinhentas libras de França e vinte sete mil florins de Viena, soma suficiente para que um ministro de segunda ordem viva decentemente nesta capital, mesmo com mulher e filhos. É a grande cidade da Europa onde tudo é ainda muito barato, se exceptuarmos o custo do arrendamento, custo que não é verdadeiramente caro a não ser para as pessoas que querem ter uma casa inteira e situada no interior da cidade; mas os arredores, mais agradavelmente habitados do que a cidade, oferecem presentemente residências muito bonitas onde a maior parte dos ministros estrangeiros se estabelecem, por um preço bastante moderado.
A Senhora Condessa de Oeynhausen, nascida Alorna, junta, dizem, ao espírito todo o romanesco, toda a inconsequência e a desordem da conduta do seu marido. Regresssada aqui sem ele, para tentar arrancar novos favores da corte, ela parou três semanas em Madrid com o intuito de interessar a seu favor Sua Majestade Católica e sobretudo a Princesa das Astúrias. O seu plano era terminar em Lisboa a educação da Infanta de Espanha casada com o Infante de Portugal D. João, mas Madame de Oeynhausen, que tinha indiscretamente confiado os seus projectos ao marquês de Louriçal, foi traída, sem que talvez o saiba ainda, pelo malicioso embaixador. Todas as pessoas interessadas a afastar dos meios de crédito uma descendente dos Távora porão tais obstáculos às diligências de Madame de Oeynhausen, que se ela os ultrapassar dará uma grande prova da sua habilidade.»
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«Meu querido Carlos Augusto,
Estou ainda em Lisboa detida pelo mau tempo e pelo medo de atravessar o rio; estes momentos longe de ti e dos meus filhos são muito penosos e muito fatigantes para mim. A minha alma está sempre junto de ti e eu quereria poder comunicar-te a força e a esperança de que ela está cheia mas preciso de muita paciência tal como tu. Creio mesmo que tu deves preparar-te para ires a Viena mas não partas sem que eu te advirta porque tenho boas razões para acreditar que S. M. desculpará um atraso motivado pela tua saúde e a dos nossos filhos. Estou muito preocupada por a tua febre retornar tão frequentemente; cuida bem de ti, meu amigo, e está seguro de que a tua Nelly não existe sem ti. Falei hoje ao Arcebispo e entreguei-lhe uma carta de Floridablanca; ele disse-me que já tinha uma outra. Acrescentarei a isto, meu amigo, que não as pedi pois não estou voltada para pedir protecções mas sinto-me muito lisonjeada com as amabilidades que tiveram para comigo, que são em excesso. Tenho notícias de Madame de Thun que me inquietam; a sua saúde está muito arruinada e a sua hipocondria é muito forte. Entretanto, o pequeno porta-se cada vez melhor; dará um belo homem. A irmã está sempre indisposta com as primas mas sempre bem comigo; também gosto muito dela.
Vi muito pouca gente aqui, excepto ontem que o duque de Lafões me convidou a jantar em casa dele; tivemos um jantar muito bem servido e elegante; cumularam-me de gentilezas e de aplausos muito pouco merecidos. M. de Bombelles, que toca cravo maravilhosamente, honrou-me com uma descarga de versos tão polidos quanto maus; o Duque fez outro tanto. Cantou-se muito, dançou-se e fui obrigada a dançar um minuete com o Duque. É um bom rapaz e sê-lo-á eternamente. Muito susceptível, disse-me que não fazia ideia da razão por que o detestavam pois que nunca tinha feito mal a ninguém. “Não há ninguém senão eu que possa queixar-se de vós, Senhor Duque, mas eu perdoo-vos; de resto creio que toda a gente deve gostar de vós.” Ele ficou deveras confundido com esta resposta e tartamudeou uma desculpa; tudo acabou com canções. Eu apercebo-me do estado dos negócios pelo termómetro do tratamento que me dispensam.
Nelly
Lisboa, 8 de Dezembro de 1787»