As Luzes de Leonor
Ladainha da Prelada
Único modo, também, de pôr a salvo o seu próprio poder.
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LADAINHA DA PRELADA
É ela, D. Leonor de Almeida, a provocar o assombro com as suas maneiras e modos de despropósito, a prata de brilho das suas ideias; o amargor dos seus princípios. Atitudes e equívocos, caprichos de timbre herético com versos de precipício. Convoca quem for preciso para ficar do seu lado. Por ambição e por gosto o centro resplandecente ou chama de cera e vela, a labareda do sol onde a frágil borboleta tomba e arde desmaiada.
É ela, D. Leonor de Almeida, quem recria e quem desvenda, quem inventa e imagina, quem desatina e porfia, teima, briga e pleiteia, quem tocando na lonjura revoa no seu voar, e ainda insubordina, tece e espalha o estremecido e envenena o devolvido da ciência, estudo e verso, da tentação o seu canto. Imaginando o equívoco, semeando o sobressalto, encrespando o que é mar alto no coração dos mais fracos.
É ela, D. Leonor de Almeida, arrastando e lendo alto textos de regozijo ou tristeza desatada. Debatendo e defendendo filosofias perversas e salmos de pouco arrimo, renegados e reimosos, negados pela Igreja e tidos como nefastos, onde o ímpio faz seu ninho. Maliciosa arrogância de quem há muito desdenha desta casa do Senhor, ofende e desarranja na incerteza o cuidado, deslaça e desafia na recusa do que é frágil.
É ela, D. Leonor de Almeida, tão depressa vidro e lágrimas, enevoado turvor, ou malícia de candura em arremedos e dor, da maior extravagância no primor do desprimor, onde o lume faz de lâmina; o sal na ferida aberta onde o sangue se incontém e em seguida nos mostra o brilho do seu desdém. Versejando sem decoro, reclama e declama quando me encontro presente, prelada eu por meu mérito e esmero do Patriarca.
É ela, D. Leonor de Almeida, perfume de lúcia-lima, vestido sem armação, raridade de cultivo, rosa rubra e rosmaninho fiado com fio e cuspo, com a ponta do sossego escondendo a rebelião, uivo de lobo ou gemido, quando parece bordar no centro do próprio crivo: ponto de cruz todo ele com a linha da mentira. Águia em vez de andorinha, voo alto de poiso vão, debruçada no desvão, cisterna do proibido.
É ela, D. Leonor de Almeida, alma nunca aplacada, gémea da tempestade, torvelinho e desacerto, novelo de muita água; imagem de mau exemplo sem nunca querer emendar-se, arrepender-se e salvar-se, redimindo os seus pecados, sanando a alma danada o seu desvão mais cavado no fundo da solidão, onde o negrume é negado, teimosia obscura de ofensa obstinada; de sutura e tentação, de pecado e de deslize.
Perigosa no querer passar para além do seu limite.
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