As Luzes de Leonor
Monólogo de Leonor
†
Deixa que me abrigue à tua sombra! – queria ser capaz de pedir-te. Em breve será tempo de partires, e eu que jamais permiti que me ensombrassem, me obrigassem, me abrigassem, temo vir a desesperar de desgosto.
Consigo no entanto conter o grito da paixão que me denunciaria. Me alumbra, deslumbra, a fazer parte do meu próprio delírio.
Por ti.
Por ti poderia perder-me, poderia perder-te,
de impossibilidade.
Eu sou a tua rola.
Selvagem.
Tua mulher não domesticável.
Tu és o caçador ou sou eu a caçadora?
Predador e eu predadora, alfange, faca de afiado gume, folha de navalha, espada usada por ti junto à tepidez da tua anca tão breve e lisa e magra, a precipitar-me na vertigem.
Amante inesperado a desejar capturar-me.
Aprisionar-me.
Carcereiro dando nove vezes a volta à chave da minha cela.
De mim esperas que seja…
apenas o despojo?
Objecto de tua pertença, escolhido durante o saque, entre duas batalhas. Prisioneira impaciente de herói viril e vencedor, mas também ele frágil e vulnerável ao meu veneno?
Tento dizer-te que, apesar de tomada por paixão mais arrebatada e constante do que por certo a tua, não sou capturável.
Nem vítima.
Nem fraca, no outro extremo de mim a calar a fera.
Impede-me,
impede-me, meu amor, de um dia vir a transformar-me: tornando-me a tua perda, o teu soluço, o teu estertor, a causa da tua morte. Impede-me, meu amor, de te deixar partir de junto da minha ilharga. Nó de atadura da minha teia-trama narrativa, em ponto dado a pesponto e laço de desmanchar o teu sossego.
Ulisses…
Nessa tua viagem sem retorno nem regaço para descansares a cabeça ou casa onde pernoitares ou cama onde te deitares, a quereres ocupar um espaço que já nem te pertence, enquanto recordas, tentando esquecer o mundo e o hino encantatório e sequioso de seda e sede das sereias.
Como contar-te que nunca serei Penélope?
†
Henri Forestier acaba de lhe dizer que decidira partir.
Leonor julga não ter entendido.
Sentada na borda da cama, volta-se em silêncio para o olhar estupefacta. Vê-o ainda deitado, tal como o deixara, na sua nudez de Narciso, a fazê-la lembrar o quadro de Nicolas Poussin que vira em Paris, logo então estremecendo.
Continua a fitá-lo, incrédula, mas o olhar dele repete as mesmas palavras que ela recusara entender. Então, sem o desfitar, Leonor começa a despir devagar o que entretanto já tornara a vestir: a pequena camisa de cambraia translúcida, o corpetezinho apertado à frente com botões de madrepérola, as meias de seda que desce nas pernas; e por fim deixa tombar os desmanchados cabelos longos.
Depois, como se fosse uma feiticeira,
desdobra devagar as suas asas áureas,
a tremeluzirem na penumbra do quarto. E parecendo pairar, desliza nos lençóis a deitar-se sobre o seu corpo, a voar nele, resvalando nas arestas do ar, num mesmo e único abraço, arrebatando-o.
Tomando-o para si como nunca antes.
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