As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 69 de 289

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As Luzes de Leonor

1779-1780

†

 

 

É Leonor quem acomoda com cuidado os mais de seiscentos volumes da sua biblioteca, feita enquanto estivera no convento. Os livros seguirão juntamente com a mudança dos móveis, das louças, das malas e dos baús para o Porto, onde vão viver ela e o marido que não lhe esconde a decepção por não ter sido colocado em Lisboa.

Na verdade fora ela a pressionar nesse sentido com os pedidos feitos à Rainha, que de novo a atendera, atribuindo a Carlos Augusto o comando do 6.o Regimento de Infantaria daquela cidade do norte, da qual ouvira falar com entusiasmo mas que ainda não conhece.

Leonor precisa de distanciar-se da animosidade do pai, que desde o casamento dela deixara de lhe dirigir a palavra. Mas também da vigilância constante embora dissimulada da mãe, a tentar imiscuir-se no seu quotidiano, e da infelicidade evidente da irmã, de quem sente saudades.

Só não esperava estar grávida na data de fazer a mudança, quebrada pelas náuseas, pelos vómitos e as tonturas, a estranhar o novo corpo que em si se forma deformando-a, transformando-a num ser desconhecido ao qual não se habitua. Desgostosa com a cintura grossa, o ventre dilatado, as ancas alargadas, os peitos inchados e doridos de grandes mamilos de um tom obscuro de madeira apodrecida.

Depois de se ter livrado de uma prisão, outra se lhe segue.

Sente-se enganada pelo destino que a maltrata, roubando-lhe a liberdade que desejava para louvar plenamente a vida. Sentimento de perda e estranheza que Leonor esconde de todos, culpabilizada e descontente consigo própria, mas a zangar-se sem saber porquê com quem lhe está por perto. Envenenada pelo desassossego reencontrado durante as insónias, quando como uma alma penada deambula pela casa, proibida pelo médico de voltar a tomar o láudano que sempre usara.

Ela própria se admira da vontade que tem de chorar sem motivo, em dias de tédio. E até da poesia lhe parece estar a afastar-se, temendo o que possa expor de si mesma.

Desinteressa-se dos bilhetes conturbados de Joana Isabel Forjaz e das intermináveis cartas que Teresa de Mello Breyner lhe escreve; inquieta e ressentida, responde-lhe tardiamente e com pouco empenho. Impacienta-se com as graças e a alegria estouvada e sem motivo do irmão, a tentar distraí-la. E quando a criança começa a mexer-se dentro da sua barriga, entra em pânico, dividida entre a ternura equívoca que desperta nela, e o mal-estar, o desacerto que isso lhe provoca.

Descobrindo que o ser mãe é pouco para si.

Sonhando voar mais alto do que apenas isso.

A maternidade nunca lhe adoçará a vida.

†

Leonor e Maria já estão casadas,

falta o Pedro – diz D. João de Almeida a sua mulher de novo recolhida na cama, olhar perdido num silêncio de corsa sacrificada pela vida. Mas ele, sem atender a esse apelo, continua enumerando as possíveis noivas para o filho, enquanto percorre o quarto de um lado a outro:

– Estava eu ainda no Forte da Junqueira e tu em Chelas, quando pensei iniciar conversações com o duque de Aveiro, tendo em vista a união de Pedro com a sua filha mais nova. Mas acabei por ir adiando, e deixar os casamentos para quando saísse do cativeiro.

«Então inclinei-me para D. Maria Margarida Josefa, filha do visconde de Vila Nova de Cerveira. Mas apesar de um começo auspicioso, ele acabou por preferir uma outra casa mais rica e vantajosa do que a nossa.

«Pareceu-me depois conveniente a aliança com a tua sobrinha Joana Bernarda, filha do teu irmão Manuel Bernardo e da marquesa nova Teresa de Távora, tua tia e cunhada. Mas os acontecimentos terríveis pelos quais foi tão responsável tornaram-na uma mulher difícil, amarga, ressabiada, que se recusa a ter contacto com a família.»

E aproximando-se do leito onde Leonor de Lorena se amodorra, acrescenta sem a olhar:

– Sobre isto nada te disse por temer um outro desfecho negativo do meu empenho, como na verdade aconteceu… Aliás, deduzo que continuas com a ideia fixa de casarmos Pedro com uma das filhas do conde de Niza, apesar de saberes da minha falta de gosto a esse respeito, e dos inúmeros pedidos de casamento que nos garantem ter essas raparigas.

Parecendo finalmente dar conta do prolongado silêncio de Leonor de Lorena, o marquês de Alorna encara-a de raspão

e pára interdito diante do seu sorriso trocista.

†

Antes de ir para o Porto, Leonor encontra-se na Corte com o duque de Lafões que acaba de retornar do seu prolongado exílio.

Ela olha-o com curiosidade, tentando descobrir nele o seguidor das Luzes que tanto a atraem enquanto princípios filosóficos e ideais grandiosos.

Ele reconhece-a das notícias que lhe haviam chegado a Viena, falando da sua estranheza de mulher culta e poetisa de talento invulgar, beleza de requinte, carácter forte e difícil.

Tentam entender o que os distancia e os aproxima um do outro; demoram-se a falar de Voltaire e Diderot,

D’Alembert e Rousseau.

Os dois enumeram projectos, itinerários traçados para a sua vida, tendo como meta o conhecimento humanista.

Ela fala-lhe de partir pela Europa em busca de si própria.

Ele, de voltar a Portugal, onde há anos sonha criar a Academia das Ciências, e para isso obtivera já a licença da Rainha e a ajuda prestigiante do abade Correia da Serra, de quem Leonor, entretanto, se tornara desvelada discípula.

Ela encara-o como um homem velho, conhecedor, mas de aparência desconcertante; amigo da sua amiga Teresa de Mello Breyner, a ele ligada pelos laços da ciência e da conivência literária.

Ele vê-a como uma bela mulher jovem ainda, um pouco assustadora quer pela ousadia do pensamento e ambição quer pela firmeza das convicções.

Exigente e destemida.

†

Minha muito querida e adorada

Mariquita da minha alma

Neste mundo não há gosto perfeito, sempre o soube, mas nem por isso deixo de estranhar ver-me separada das minhas duas filhas, tão chegadas que fomos toda a nossa vida. Agora que tenho junto de mim a companhia de meu marido, falta-me a vossa,

quando já foi o contrário.

Sinto infinitas saudades da tua doce companhia, filha, tão mansa e alegre Maria, que a todos encantas pelo lado da ternura e da suavidade; mantenho embora o ânimo capaz de me fazer aguardar em ânsias as tuas visitas, como se morasses longe e não a dois passos aqui de casa. Pois ultimamente muito tens andado afastada, e eu espero ansiosa que chegues, a acalmares-me as ânsias do peito, a diminuíres-me o susto, a iludires-me as premonições ruins que a teu respeito nos últimos tempos nunca me largam. Ficando sem saber se te peça novas do teu homem, pois não conheço como ele te é na intimidade do carinho. Um dia, filha, ainda me vais contar a verdade sobre a tua nova vida, pois da última vez que aqui estiveste achei-te magra demais, triste demais e desiludida como jamais encontrei alguma outra mulher casada há tão pouco tempo.

Por aqui tudo continua incerto, com Leonor de partida para o Porto a qualquer momento. Como por certo ela já te deve ter contado, a tua irmã está de esperanças e passa bastante mal.

Acredito que também por causa das divisões e dos ressentimentos que são muitos por esta parte, à conta do silêncio que junto dela sempre guarda vosso Pai, inconformado com o seu casamento, continuando a argumentar contra o conde, cousa que muito me apoquenta pelo perigo que isso pode trazer ao seu estado. Mas a tua irmã também não cede em nada, trancada no seu desmesurado orgulho, sem perdoar as desfeitas ao conde de Oeynhausen. E eu tenho de reconhecer, Maria, não haver «maior carinho do que aquele que encontra no marido. Ela perdeu nos bens, mas ganhou muito por essa parte». Perante tais sentimentos de afecto fico descansada, pois as doçuras de ambos são constantes.

Afinal,

como tudo com o tempo se concerta, desfaz ou entorpece, chego à conclusão de ter estado certa ao tentar, como sabes, que o teu Pai aceitasse o casamento de Leonor, até porque sempre é inútil a demasiada oposição às afeições verdadeiras.

Esperemos, filha do meu coração, que um dia possamos todos esquecer as cicatrizes das feridas que neste momento ainda tanto sangram.

Permita Deus que o tempo sare os nossos corações aflitos.

E a ti, Maria, digo-te o mesmo de sempre: esquece o que há para esquecer, filha, pois é errado supormos que esta vida pode ser mais para as mulheres do que um vale de lágrimas.

Recados da tua irmã, que não te pode escrever porque está a vomitar muito, e passa a maior parte do tempo deitada

na escuridade do quarto.

Beijos da mãe que muito te ama

Leonor de Lorena

Lisboa, 4 de Abril de 1779