As Luzes de Leonor
Angelus
– Olhe a senhora Condessa o que eu encontrei! Uma edição dos Enigmas, de Soror Juana Inés de la Cruz, a décima musa!
Incrédula, Leonor aproxima-se sentindo o pulso acelerado, e com a mão tremendo pega no livro que lhe é estendido, edição amarelecida pelos anos e no entanto intacta. Com o coração a saltar-lhe no peito, lê na capa o nome da monja poetisa, antes de entreabrir o pequeno volume encadernado e começar a desfolhar, cuidadosa, as suas delicadas páginas.
†
ANGELUS
Ensombra-me saber que em breve deixarás a Corte.
Invisível, sombra devorada pelo lume do sol, não me distingues das outras transparências. Mesmo assim afasto-me para debaixo das árvores ou quedo-me nos cantos mais penumbrosos dos salões, fugindo como um vampiro das claridades do dia ou até das velas nocturnas. E quando te vejo em alvoroço a conduzires um carrinho de passeio frágil na sua madeira lacada, mais me parece ires em fuga, rédeas seguras pelos teus dedos hábeis, tendo sentada a teu lado D. Carlota Joaquina.
Imprudentes, voando pelas estreitas alamedas do Palácio de Queluz à hora a que a luz se estilhaça no odor quebradiço dos craveiros, dos roseirais, dos limoeiros de um amarelo-maduro. As duas fazendo rasar o pequeno carro pelos maciços de loureiros nimbados pelos últimos raios de um crepúsculo intenso. Por vezes param, a fim de apanharem da erva os limões e as romãs das árvores, para lhes comerem os bagos de rubi ainda ácidos mas já humedecidos por um equívoco suco sanguíneo.
Conduta indisciplinada de ambas, em nada condizente com as severas regras do protocolo da Corte, numa atitude de rebeldia incontida. O vestido de tule branco da Princesa do Brasil extravasando como neve do carrinho delicado, e a bainha do véu, de cambraia malva, entalada na portinhola baixa, muito fino e enfunado pelas tantas saias de forro de diversos tons de ferrugem, toldadas de verde-íris ou de azul-cobalto, despontando em vermelho-púrpura insinuando-se na fenda destecida, por entre um remoinho de folhos entreabertos nas rachas que entremostram as rendas e os tafetás roçagantes.
Por mero capricho.
A assumires o abandono de um luto a menos de meio do seu termo.
Ensombra-me saber que em breve deixarás a Corte.
Destróis-me! – ouço-me murmurar por entre a brisa erguida durante a madrugada, deitado no lugar onde me revolvo em noites brancas a imaginar-te prisioneira do inesperado odor do meu abraço.
Nua.
Corpo de mirto e de murta enleada a ser dobado pelos meus dedos trémulos. Sonhos fugazes a dealbarem-se já, a esvaírem-se diante de mim, nada possuindo brilho se não estiveres presente. Mas quando chegas trazes contigo uma cintilação de motim mal disfarçado: o tudo intensifica-se e explode de cor. Limito-me a olhar-te levitando à tua beira, a reparar no halo de sacerdotiza que te nimba, porte de filósofa inquieta. Viúva indiferente à própria ausência de sentimentos, atenta e expectante ao que acontece à tua volta, minha pitonisa no teu disfarce de adivinha e de poetisa vibrante.
Como o orgulho te faz distante! – insurjo-me, dúplice, na minha natureza alada. E, infeliz, imagino-me a avançar na tua direcção fazendo-me visível ao teu olhar dolente e enleado de enredos, para logo retornar ao interior apático do meu canto obscuro, de onde fico a espiar-te os movimentos, os modos, as emoções, na esperança de ver surgir no teu rosto a crispação humana que me dará a ver o incêndio do teu coração. Perdendo por ti de bom grado o lado etéreo da minha condição de anjo caído, esquecido das asas, a precipitar-me já em direcção à Terra.
Por enquanto, porém, fito-te da penumbra matizada do fundo de um camarote do Real Teatro de São Carlos; e tu, do lugar que te cabe junto das Princesas, finges ignorar os olhares de lisonja que te seguem por entre as luzes marfinadas das velas dos lustres, a deixares-te de bom grado aprisionar por uma ópera de Gluck ou um concerto de Mozart.
Ensombra-me saber que em breve deixarás a Corte.
Partes de volta a Almeirim, onde te poderei perder mais facilmente devido a esquivamentos e magias que me impedem de defender-te dos perigos por onde te atreves. Ironicamente consciente eu de que, para mim, és tu o cerne do risco.
O fuso, a farpa, o espinho envenenado do universo.
Não posso perder-te – constato de novo e de novo a revolver-me no adiamento do sono. Imaginando-te saindo de Lisboa, a espreitares pela janela da carrugem, a despedires-te da Basílica da Estrela, das ruas, das azinhagas, da igreja dos Mártires, das betesgas e das ladeiras, das quelhas, do Passeio Público, da ermida de Nossa Senhora da Saúde, diante da qual o andamento do carro se demora para te persignares e fazeres uma curta reza.
Impaciente, mandas seguir em frente.
Vejo-te agitada, despenteada pelo vento, cabelos do tom natural do mel coado, madeixas da tonalidade do ouro antigo. Pouco antes de chegares a Almeirim voltarás a pôr o chapelinho de palha com uma pluma enroscada no seu tom adamascado, a pequena aba a sombrear-te o brilho dobado dos teus olhos de anil.
Da intimidade da tua pele chega-me o perfume toldado da gardénia matizada de concha marinha e almíscar branco; mostrando-me como a rispidez se pode unir à ternura. A teu respeito oiço falar de determinação e secura, mas prefiro ignorar a casta do teu coração desabalado em segredo. Sem me aperceber daquilo que em ti ora perdura ora depressa é oblívio transfigurado.
Com um rigor de mapa. De rigoroso plano arquitectado.
Calando as palavras desgovernadas que só usas nos versos a que depressa tornas, como se neles recuperasses o intacto interior dos teus dias. De novo estás de regresso aos teus poemas, aos teus cadernos, aos teus diários.
Virtude, delírio, ou só lisura?
Tanto monta, bem sei, minha senhora condessa dona Leonor. Hoje a madrugada mal rumoreja, atenta ao estralejar nas pedras das patas dos cavalos que te levam e afastam de Lisboa, mas não dos meus olhos nem do meu entendimento que em desigual medida sempre te têm escoltado, cativado, mesmo antes de as minhas asas me transportarem até junto de ti, mantendo-nos sigilosamente perto.
A inventar-te, amor da minha vida inexistente.
A idealizar-te numa constância eterna.
†
Desperta-a o aroma intenso a cravos que lhe invade o quarto, vindo da varanda debruçada sobre o jardim; e estranha ao julgar-se ainda em Lisboa, para logo se dar conta ter regressado à quinta dos Nabais.
As portadas da janela estão entreabertas e os cortinados corridos até metade, mas o perfume forte que se adensa escapando dos canteiros, sobe já ardido e empurrado pelo sol intenso que incendeia a manhã daquele domingo de outono. Ar pesado de verão de São Martinho cortado ao longe pelo sino da igreja matriz de Almeirim, fazendo apressar os menos madrugadores que pretendem ir à missa das oito.
Abre os olhos ainda entorpecida de sono, admirada por ter acordado a hora tão tardia, a contrariar-lhe o hábito e o gosto de se levantar cedo mesmo durante o inverno, quando ainda são visíveis os véus da madrugada. E Leonor salta da cama, camisa de noite de linho macio a roçar a madeira do chão, abre a janela que dá para o terraço, sentindo o bafo da aragem a entrançar-se nos seus cabelos em desalinho sobre os ombros despidos. Apesar de ter dormido muito, continua a sentir-se exausta.
Desolada.
O silêncio em que está mergulhada a casa diz-lhe que as criadas, prudentes, retiveram as crianças mais pequenas nos seus aposentos.
«Há tanta cousa que me falta…» – pensa, aturdida com a intensa luz de diamante que lhe cega os olhos claros, como se o céu fosse um espelho onde o sol se reflectisse e viesse incidir nela por breves segundos.
Não tem como negar quanto lhe custa ter deixado a companhia dos poetas, das amigas, assim como as idas à Corte onde a Princesa Carlota Joaquina a quisera reter, primeiro trocista mas também sedutora e cativante, rosto comprido e pele de morena, sorriso de aventureira na boca grande. Irritada com a nova partida para o Ribatejo da sua dama preferida, sem lhe entender os motivos de viúva, dos quais a própria Leonor já se enfastiara há muito.
– Porque nos volta a deixar Vossa Excelência, negando-nos o gosto da vossa companhia? – acabara por indagar, geniosa, a Princesa do Brasil.
Sem argumentos para lhe apresentar Leonor calara-se, olhos vagos pousados em ninguém nem em cousa alguma, empenhando-se em nimbar de mistério a sua partida, teimando em não reconhecer a grande vontade de tornar a viver em Lisboa. Então, regressara a Almeirim mais cedo do que o previsto, a fim de contrariar em si o gosto de ficar, como quem cumpre uma promessa ou tem empenhada a palavra dada.
Assolada pelo próprio coração vazio, a esquivar-se das emoções e do alvoroço da vida que a pretende de volta.
†
O ministro dos Negócios Estrangeiros e da Guerra, de semblante carregado e olhar inquieto, percorre a passos largos o seu gabinete. Na sala de espera, chegado da campanha do Roussillon, o conde de Assumar aguarda ser recebido.
Antes de ele ter aportado a Lisboa já Luís Pinto de Sousa Coutinho fora informado, por carta particular do general-em-chefe da divisão portuguesa, John Forbes Skellater, do descontentamento que levara o filho do marquês de Alorna a sair da Catalunha a caminho de Portugal, a fim de dar conta ao governo das suas discordâncias e aguardar orientações para levar de volta.