As Luzes de Leonor
1758-1768
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Chegam ao convento de São Félix por entre o ladrar de cães estremunhados, o metálico ruído das ferraduras dos cavalos, das rodas das carruagens, e o choro do menino pequeno a procurar amparo no ombro da mãe, perdida no alheamento em que ficara, lágrimas deslizando-lhe devagar no rosto, desde que deixara para trás o abrigo da casa.
– O meu filho! – gritara num apelo aflito no momento em que a separavam de Pedro, agarrado às suas saias.
– O menino fica! – respondera-lhe o desembargador Eusébio Tavares que já lhe levara o marido, quando à sua ordem os soldados tentavam arrancar dela a criança em pranto. Revolveu-se Leonor de Lorena na dor que lhe tolheu o passo, alegando que o menino ficaria no desamparo. E vendo o desembargador hesitar, recorreu a todos os argumentos maternos, voz trémula e comedida embora trespassada pela cruel lâmina da desgraça. Conseguindo desse modo comovê-lo, mal o ouviu dar a ordem no sentido de Pedro seguir com ela, baixara a cabeça e deixara-se levar em silêncio.
Os múltiplos sentimentos que na altura não expressara, confessá-los-á mais tarde em cartas clandestinas enviadas ao marido, os soluços cosidos no peito, os dedos incertos a fazerem-lhe tremer a letra mal desenhada no papel grosseiro, obtido à custa dos poucos dinheiros que lhe restavam.
Moedas encontradas no fundo de uma bolsa trazida por Leonor de cima da cómoda dos aposentos dos pais, e que ela encobrira depois na roda da capa onde a ama a embrulhara, antes de serem levadas para o carro, à espera diante da entrada, de cortinas fechadas.
– A menina fique calada pois ninguém lhe está a fazer mal! – ralhou um dos soldados a Maria, que gritava enquanto, agarrada pela cintura, era sentada no banco corrido da carruagem. E formada a escolta pela tropa, o cocheiro fez os cavalos tomarem o caminho dos campos, a coberto da tempestade.
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Entraram noite alta, a contragosto, contritas, lívidas.
As três amparando-se umas às outras, o bistre das olheiras a macerar-lhes as faces ainda molhadas pelas lágrimas, o rapazinho, que nem devia ter vindo, agarrado com susto ao vestido da mãe. Só a menina mais velha me procurou os olhos, a querer prendê-los nos seus numa teima assombrada, jeito de quem é brava de coração e carácter.
A interrogar, a querer entender e a duvidar ainda.
Oito anos obstinados, ásperos e esquivos, almiscarado odor a bergamota toldado pelo perfume de água de rosas lívidas, nela havia já uma certa altivez orgulhosa e aristocrática; mais firme e determinada do que a mãe e a irmã, a avaliar-me a mim, prioresa do convento de São Félix em Chelas, onde não se sabe por quanto tempo irão ficar reclusas. Como se ela pudesse entender ou adivinhar que só as recebo porque a isso me obriga a obediência devida ao vigário geral do Patriarcado, o arcebispo de Lacedemónia, a cumprir por sua vez ordens do ministro de Estado de El-Rei D. José.
Não me cabe reparar no mundo fora da casa do Senhor, e menos ainda ter opinião sobre os assuntos do Reino, mas a partir de hoje temo bastante pela instabilidade do nosso convento, devido à revolta que elas possam arrastar para dentro destas paredes sagradas, com os seus destinos desordenados. Temo sobretudo a rebeldia de Leonor e a maturidade invulgar que apercebi no seu impenetrável olhar de veludo incerto, embora também me preocupe a presença do menino, que terá rapidamente de abandonar o convento, e os nervos quebradiços da marquesa de Alorna, com a sua fragilidade doentia, tal como o estouvamento mimado da filha mais nova.
Vamos ter, por certo, uma convivência difícil.
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O arcebispo de Lacedemónia comparece no dia seguinte no convento de Chelas, a fim de comunicar à madre superiora as directrizes do conde de Oeiras no que diz respeito à estadia no mosteiro da marquesa de Alorna, D. Leonor de Lorena, e à das suas filhas.
O menino terá de sair em breve, mas não o comunica à prelada.
Preocupada com a visita, de que não estava à espera, esta consegue suster no peito a indignação nela desencadeada pela presença das três estranhas chegadas noite alta, na véspera, a fim de cumprirem castigo de reclusão, e embora duas das intrusas sejam crianças isso não lhe importa, pois em todas corre nas veias o sangue condenado dos Távora.
Continuando o arcebispo num silêncio pesado, olhos pequenos e astutos tentando captar os dela, esquivos como se temesse revelar o que não deve, a prelada acaba por tomar a palavra, mãos nervosas a subirem-lhe ao rosto longo e a sublinharem as palavras das quais, de início, tenta ainda encobrir o tom desabrido…
«Vossa Eminência vai perdoar-me a impertinência, mas vejo-me na necessidade absoluta de Vos comunicar a grave preocupação que de imediato me invadiu, ao constatar que com a marquesa de Alorna vinham não só as filhas mas também um filho! Ora, num convento de religiosas, Vossa Eminência sabe não se poder criar um menino, vê-lo crescer todos os dias a ficar mais homem… Já me basta a pesada tarefa de gerir este convento, a tentar harmonizar freiras e noviças, pensionistas e recolhidas, senhor Arcebispo de Lacedemónia, mais a mais vendo-me agora obrigada, no cumprimento da ordem do senhor ministro de Estado, a acolher com generosidade nesta casa do Senhor membros de uma família banida por Sua Majestade, e isso já me basta senhor Arcebispo.»
Estranhando não ter sido ainda interrompida, a madre abadessa, que ao deixar-se embalar pelo discurso se levantara, volta-se para o prelado, que continua a fitá-la num pesado mutismo, com um meio sorriso sarcástico nos lábios finos.
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Tempo depois, tal como era esperado pela mãe e pelas irmãs, apesar de não o confessarem umas às outras, o desembargador Eusébio Tavares volta a Chelas acompanhado pela tropa, a fim de levar Pedro de volta à casa da Boa Morte, onde continuam os criados e alguns parentes afastados.
Ignorando ter sido Sebastião José quem dera ordem no sentido de o menino não ser fechado num convento de religiosas, Leonor de Lorena domina-se, tentando serenar-se, a conformar-se já com a solução encontrada.
Pede apenas uns instantes sozinha com o filho, que sente a tremer de susto, mão gelada apertada na sua. E quando voltam a sair do quarto, o menino vem muito branco e calado, mas sem lágrimas no rosto crispado.
«Filho corajoso!» – pensa comovida, já a arder em febre.
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Leonor ficou à cabeceira da mãe doente durante meses, fingindo um apaziguamento e uma maturidade que não tinha.
Tremendo de desamparo mal se encontrava só.
Convocava então os sonhos para lhe fazerem companhia, e juntamente com outras fantasias vinham os arcanjos e os anjos com os quais fingia deitar-se a descansar das tantas aflições e demasiados sustos; embora não a tranquilizassem as suas espadas desembainhadas e nuas, nem as suas armaduras com estreitas aberturas por onde passavam as asas.
Mas logo arrependida dessas ardilosas fugas, a menina voltava a debruçar-se sobre a mãe, de olhos fechados, a defender-se de qualquer luz que a cegasse, modo encontrado para se negar à dor, à nova vida a transbordar de desgraça imposta a todas elas. Preferindo aguardar a morte reclamada por si com ansiedade, deixando-se ir no estreito leito dispensado pela prioresa e colocado numa pequena cela por duas noviças com olhares enviesados e rancores de inveja.
Inveja de quê? – indagava-se Leonor, admirada.
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Meses mais tarde, em resposta ao pedido que Leonor de Lorena, através da prioresa do convento de Chelas, tinha endereçado a Sua Majestade, no sentido de lhe serem enviados alguns dos seus mais necessários pertences, chegam apenas peças de vestuário, lençóis, mantas leves e alguns cobertores.
Mas esse pouco que lhe é mandado como se fosse esmola tem o condão de agudizar em cada uma das meninas – Maria que sonhava com as suas bonecas e Leonor com os seus livros – a consciência das irremediáveis perdas sofridas por todas elas. Juntamente, vem também a notícia da transferência de D. João, marquês de Alorna, até então prisioneiro na Torre de Belém, para o Forte da Junqueira. Chega ainda, para ser entregue a Leonor de Lorena, uma ordem com a assinatura Real, a deixar claro o que afinal esta já esperava: «A D. Leonor de Lorena e a suas duas filhas, está vedado o contacto com qualquer membro da família do ramo dos ex-marqueses de Távora.»
Novamente de joelhos junto à cama da mãe, Leonor escuta-a gemer durante a longa noite, dando-se conta, de madrugada, que ela volta a arder em febre, privada de conhecimento.
Não tendo a quem recorrer, a menina leva dias a pôr-lhe pachos frios na testa escaldante, tentando ignorar as freiras que entram e saem do quarto, arrastando os pés renitentes nas lajes, persignando-se e rezando baixo, resmungando adivinhações e maus presságios.
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É rigoroso o primeiro dos muitos invernos passados por elas no convento do vale de Chelas. Leonor treme de frio na inóspita cela despida, que partilha com a irmã, sono leve e inquieto, enrodilhada sobre si própria, as pequenas mãos enregeladas e roxas a tentarem tomar do corpo o calor que lhes falta: ora debaixo das axilas, ora entre as coxas fechadas.
Uma noite em que procurara a quentura boa do corpo da mãe, no compartimento ao lado, esta sacudira-a, dizendo-lhe num tom seco e ríspido: «Volte já para o seu leito e comporte-se como uma menina da sua condição!» E ela tornara para a cama álgida, a tropeçar no escuro, descalça e assustada com as sombras que julgava antever no corredor deserto e os sussurros abafados que pareciam partir das celas onde as freiras há muito estariam a descansar num leve sono de pássaro, cumprindo, uma atrás da outra, as horas canónicas.
Mesmo na primavera gela-se no coro enorme, e é à custa de sofrimento e determinação que ela consegue aprender a tocar órgão, dedos ulcerados, frieiras que esconde, envergonhada da sua fealdade. Também nos corredores e nas escadas sente-se a humidade a ressumbrar na pedra fendida das paredes e dos degraus tão altos, que nos primeiros dois anos as suas curtas pernas só a custo os alcançavam.
Quando reza o terço, ajoelhada, tiritando na tábua lustrosa que serve de genuflexório, chega-lhe a fragrância adocicada das flores postas nas jarras de vidro e porcelana dos altares da igreja. Odor que lhe desperta a saudosa lembrança do calor dos jardins da casa dos avós Távora, no Campo Pequeno, onde passara manhãs e tardes a brincar com os primos, à sombra perfumada das magnólias e dos cedros, das tílias e dos plátanos.
Ao recordar esses tempos, Leonor sente os olhos enevoados de lágrimas, que sem ela querer começam a descer, contritas, vagarosas, ao longo do seu rosto de menina negligenciada; lágrimas de mar salgado, a fazerem-lhe arder os lábios gretados de cieiro.
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De madrugada vai descalça ver as estrelas, às escondidas das freiras, a sentir as lajes muito lisas e frias debaixo dos pés. Corre pelos corredores de pedra, silenciosos e sombrios, que as raras tochas nas paredes mal iluminam, cabelos soltos a esvoaçarem sobre os ombros, largados dos laços, das fitas e dos ganchos que durante o dia os sustêm a custo.
Sai da cela, às escondidas da mãe, prisioneira do seu habitual alheamento, a chorar os mortos e a orar pelos vivos encarcerados em prisões bem piores do que aquela onde Sebastião José de Carvalho e Melo as fechara, à mistura com freiras, santos de altar e crucifixos. Enjoada com os intensos cheiros a incenso, a salva e a sebo das velas de iluminar as imagens sacras, Leonor não desiste de imaginar o mundo que continua a existir lá fora, embora à medida que os dias passam o vá sentindo cada vez mais distante da sua memória. Daí a urgência de o reinventar à luz de uma realidade intensa, sonho a amendoar na boca, num ácido sabor de rilhar os dentes à tardinha.
– Tenha termos, menina, que Deus está entre nós! – ordenavam-lhe as madres, e ela ria em surdina no escondimento da palma da mão erguida, dedos unidos em cima dos lábios. Mas logo o olhar branco da mãe se cruzava com o seu e o peito esvaziava-se-lhe do riso. Desbotada, a ternura materna passava sem se deter em nada, menos ainda nela, muito direita nos seus vestidinhos de linho escuro de luto aliviado, golinha com abotoadura atrás, cintura mínima apertada por um laço discreto e murcho que ela própria dava, não querendo incomodar ninguém.
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– Só nos deixaram trazer D. Feliciana Micaela, e ela mal chega para resolver os nossos tantos afazeres –, lembra-lhes a mãe num tom de voz aveludado, mas com aresta de aspereza, cheia de minúsculas lâminas das quais Leonor prudentemente se distancia quanto pode. E no entanto, ao vê-la febril ou em pranto, não é capaz de a deixar sozinha: faces privadas de cor onde as lágrimas, como pérolas, não param de rolar durante meses, desde o dia em que seus pais, os marqueses de Távora, foram executados num patíbulo montado nas areias, perto da Torre de Belém.
Leonor, pelo contrário, recusa-se a mergulhar no desgosto sentido sobretudo pela morte da avó. Porém, quando fecha os olhos a recordação de Leonor de Távora torna: a maciez das palmas das suas mãos longas, o azul toldado dos garços olhos cor de violeta, a essência da água de rosas que ela usava, arrastando consigo a memória das transparências de que era feito o seu sorriso. E pressentindo a tristeza a esvaziar-lhe o gosto, assim como o gesto a comedir-se no empreendimento de em si mesma voar na largueza, a menina teima no esquecer, sem jamais conseguir ultrapassar a saudade acicatada pela lembrança do que fora a vida antes de ter sido forçada à clausura no convento de Chelas.
Então, sentada num dos bancos de azulejos que contornam o tanque do claustro, ela procura as estrelas no céu, secretamente temendo que as constelações se transformem em seres malignos, com asas sedosas e enganadoras, e só depois volta em bicos de pés, pelas pegadas invisíveis dos passos em que voara indo; as unhas da mão direita cravadas no pulso esquerdo, que no dia seguinte cobrirá com um dos punhos tufados das mangas do vestido.
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– Menina! – ralham as madres ou as senhoras pensionistas ao verem Maria correr sem tino e de olhos fechados à roda do claustro, onde se misturam os cheiros da humidade das paredes grossas de pedra cinzenta e rachada pelo terramoto, com o das águas lodosas do Tejo, que durante os invernos rigorosos tanto se aproxima do convento; e ainda os odores a círios votivos vindos da igreja, trazendo no seu rasto os fanados perfumes das rosas brancas, dos cravos lilases e das açucenas, que todos os dias chegam como oferenda do palácio real.
As fitas de cetim que Leonor e Maria usam nos cabelos desprendem-se com o vento da cerca, e quer os canudos de uma quer os caracóis da outra, despenteados e esvoaçantes, acabam por tapar os peitilhos dos seus vestidos de fazenda escura.
A luz do meio-dia cai a pino na água estagnada do pequeno tanque no centro do claustro, onde os peixes vermelhos nadam emaranhando a água em torno do próprio vagar; nos canteiros, por entre as ervas daninhas, despontam as pervincas, as margaridas e as chagas. No entanto, é na brancura móvel das nuvens que Maria demora o olhar curioso, enquanto Leonor desce o seu até à terra, onde estão a florir já as begónias sanguíneas que ela, desobedecendo às freiras, muita vezes colhe…
durante a madrugada.
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Leonor preferia os anjos músicos.
Sonhava com eles a descerem dos céus, a procurá-la na cela onde dormia enrodilhada no leito duro e estreito, coberta pelo lençol grosseiro e a manta fraca.
Tinham cabelos de ouro de altar tombando nos ombros delicados, olhar esvaído e alvo, vagamente indócil. E um indecifrável sorriso fixo nos lábios muito pálidos. Consigo traziam as cítaras, as pequenas harpas, as liras, as flautas, e cantavam tão baixo que só ela os escutava.
Anos mais tarde, quando já organista do convento de Chelas, na penumbra poeirenta do imenso coro, sentada diante do órgão ofertado por El-Rei D. José logo a seguir ao terramoto, descobrirá ser a música de Bach a que eles nas suas visões interpretavam.
Inquietava-a ter-lhes estendido os braços mórbidos de criança solitária, durante imprecisas mas coniventes e dúbias madrugadas.
Enquanto uma poalha fugidia lhe acobertava o choro.
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Maria não gosta de ficar sozinha. A irmã, pelo contrário, prefere estar fechada no quarto, debruçada nos seus cadernos e livros, voando pelo interior das páginas e das histórias, dos pensamentos que sempre a levam até à mais aguda consciência da inevitabilidade da sua reclusão, desse modo colocando-a, com dez anos ainda, diante da ideia do fanatismo, da prepotência, o que por sua vez a reconduz à liberdade sempre associada ao passado que ela teme poder começar a esvair-se da sua memória.
Procura, aflita, o olhar da mãe, que em silêncio o desvia, continuando a calar diante das filhas os motivos pelos quais Sebastião José de Carvalho e Melo, com a anuência do Rei, as mantém no convento como se fossem prisioneiras de Estado. E se a mais velha tenta voltar ao assunto, leva o dedo indicador da mão direita aos lábios pálidos, numa muda ordem de silêncio imposto.
Desde que entraram em Chelas Leonor escuta-a chorar até de madrugada, e quando finalmente ela e a irmã conseguem adormecer logo são acordadas pelas freiras que se despertam umas às outras, a fim de cumprirem os rigores das horas canónicas: pancadas secas nas portas de madeira velha e esburacada, com frinchas largas como as da porta do quarto de Leonor e Maria, e por onde elas espreitam as misteriosas celas em frente.
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– Leonor –, diz-lhe baixo a mãe, enquando ela lhe arranja as cobertas e a dobra do lençol, cuidando alisar o linho e a renda branca com os dedos dormentes de frio, e em seguida lhe põe panos húmidos na testa, a tentar arredar-lhe do corpo a febre nervosa que a mantém doente. Sentindo a menina os olhos a fecharem-se de sono, devido à insónia da véspera; há noites em que mesmo Maria acorda a chorar com pesadelos, e ela, estremunhada, tenta dividir-se entre a mãe e a irmã, passando de um quarto para outro pela porta interior, agora sempre entreaberta.
– Leonor! – teima mais alto Leonor de Lorena, olhar vazio e mão direita tremendo a tentar em vão fechar-se em torno do estreito pulso da filha que, muda, se inclina um tudo-nada sobre os seus lábios sem cor, dos quais sente o sopro fraco mas escaldante.
As palavras por vezes fogem da boca da mãe, língua presa entre os dentes cerrados até fazer sangue, que Leonor aflita limpa com um lenço, ela mesma temendo emudecer por castigo, alma sem salvação, por causa da raiva aninhada na cavação do peito, como uma pequena víbora de coral. Pecado de ódio por via do desejo de vingança e da vontade incontrolável de fugir, de sumir, a esgueirar-se por entre as grades cruzadas das janelas e do parlatório.
Sem saber para onde ir.
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Chama-a com insistência sabendo-a desatenta, perdida nos seus sonhos. Mas Leonor de Lorena, mesmo com a mão trémula, consegue agarrar-lhe o pulso e puxá-la para si, enquanto inutilmente a menina tenta escapar ao abraço febril que de súbito a larga. Então a mãe soergue-se para tirar de baixo do travesseiro tiras de papel muito dobradas e finas que, depois de olhar furtivamente à sua roda, esconde sob a capinha de lã que mal a agasalha.
Em seguida manda Leonor abrir a porta e espreitar ao longo do corredor, e voltar depois a fechar os batentes carcomidos de humidade, encostar neles a única cadeira da cela e tornar a aproximar-se dela, que lhe entrega as folhas ainda com o calor do seu corpo, ordenando-lhe que as desfolhe. Constatando Leonor estarem todas elas escritas com tinta encarnada.
– Minha filha conhece esta letra? – pergunta-lhe. Ao que ela responde num fio de voz, a sentir o sobressaltado bater do coração:
– Parece-me ser a letra do senhor meu Pai –, e vê-a sorrir, apesar de o seu olhar permanecer inclemente, a fazê-la tremer tomada pelo maior receio.
– Pois bem, é a letra e o sangue de seu Pai. E se a minha filha revelar seja a quem for ter lido estes papéis, ter tocado este sangue, o nosso e o de vosso Pai correrão, tal como correu o de seus avós Távora!
Ao dizer isto, pálida de morte, recai nos travesseiros, o rosto molhado pelo suor da febre, o cabelo em desalinho. Sem força nas pernas, Leonor deixa-se escorregar para o chão de pedra onde fica apoiada à borda da cama.
– Leonor! – torna a mãe, usando de ternura na voz débil. – Preciso de escrever a vosso Pai, mas as mãos não mo permitem, e só tenho minha filha a quem recorrer…
Assustada, ela escuta-lhe o falar sussurrado, como se a história de ambas fizesse parte de um pesadelo.
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Depois de ter sido chamado pela pensionista D. Antónia Xavier Botelho para me observar, o doutor Inácio Tamagnini vem sangrar-me quando desmaio ou ardo em febre, malinha de fole de pele castanha e macia de onde retira um espelho e o estilete de prata, assim como a pequena bacia de cobre nas mãos de Leonor, lívida, a aparar-me o sangue, que no início sempre parece relutante em aflorar ao finíssimo golpe feito com a dura lâmina afiada, na dobra vulnerável do meu braço, onde as veias azul-celeste transparecem altas sob a pele doentia.
Há dias em que prefiro ser sangrada nos pulsos quebradiços, pousados em seguida sobre o lençol, envoltos em ligaduras que a pouco e pouco vão ficando ensanguentadas; e ali me deixam a descansar, sonolenta e acalmada, as vozes do médico e da minha filha a perderem-se ao longe. Sem no entanto conseguir afastar do pensamento a expressão de repugnância dela ao ver as primeiras gotas do meu sangue a rolarem, renitentes, na maciez arruivada do metal da taça, para logo de seguida surgir o jorro exultante, carmesim e apaziguador, que a veia generosa permitira. Espalhando em seu redor um odor acre, com um amargor ácido de ferrugem.
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Quando chegou até mim a ordem do secretário de Estado Sebastião José de Carvalho e Melo, a proibir à marquesa de Alorna e a toda a sua família o uso do título e apelido Távora de seus pais, mandei chamar D. Leonor de Lorena ao meu gabinete, onde compareceu sem pressa, vestido preto e véu de viúva não o sendo, amparada pelas filhas que me encararam com a hostilidade de sempre.
Confesso ter sido sem custo e até com prazer, coração leve e alma lavada, que lhes dei a notícia. E ainda julguei vê-la vacilar, empalidecendo, mas em vez das lágrimas de humilhada que eu, rejubilando, esperava, cresceu-lhe a voz na resposta soberba:
– Espero terem igualmente informado Vossa Excelência, enquanto madre superiora deste convento onde estou presa, qual o apelido que sou autorizada a usar, aquele que a partir de agora parece ter passado a ser o de minha dizimada família!
– Aquele que Vossa Excelência já usa, D. Leonor de Lorena –, ouvi-me responder raivosa. E durante um tempo que me pareceu interminável, ela manteve-se impassível. Talvez a tenha visto estremecer um tudo-nada e apoiar-se um pouco mais ao espaldar alto da cadeira, na qual não aceitara sentar-se. E sem nenhuma outra palavra, as três atravessaram vagarosamente a sala, mas quando estavam já do lado de fora da porta, paradas num dos lados mais claros da arcada que rodeia o claustro, a menina mais velha virou-se para trás, olhar de rebeldia em chama desatada, e perguntou-me com a habitual impertinência:
– Será que o senhor secretário do Estado irá tirar-nos mais alguma coisa? Quem sabe, a vida, como fez com os meus avós, marqueses de Távora…
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Se é certo que a mana Leonor lamenta que a nossa Mãe se mantenha enferma, mãos trémulas e pernas mais vezes paralisadas do que saudáveis, é igualmente verdade não desejar vê-la para já totalmente curada, pois só a sua doença lhe permite ser a única de nós a escrever a nosso Pai, prisioneiro nos cárceres do Forte da Junqueira. Cartas escritas no maior sigilo, tarefa difícil nesta casa – Deus me perdoe e livre – de coscuvilheiras, mentirosas e intriguistas, espias todas elas a mando da abadessa.
A mim cabe-me vigiar a porta, enquanto a minha irmã se inclina aplicada sobre as folhas pousadas na mesa a custo obtida para estudarmos no quarto. Folhas finíssimas e leves que ela preenche sem deixar margens nem espaços entre as frases, numa letra miudinha e cuidada, pois quando erra ou a tinta esborrata o papel não pode voltar ao princípio, de tal modo é difícil obtê-lo sem levantar demasiadas desconfianças. Tudo isto para satisfação da mana, que gosta de heróicas dificuldades e de tenebrosos segredos.
Fazendo tudo no maior risco.
Missivas por demais importantes para nós as três: elo, cordão de afecto tecido e entretecido com as suas ideias muito próprias, fazendo a seu modo o relato completo dos nossos dias monótonos, narrados com sua enervante maneira criativa. E se no início nos lia tudo o que enviava, sem que déssemos conta foi-nos afastando quanto podia, acabando por inventar para nós aquilo que afinal não escreve. Ou pelo menos omitindo a essência primeira das cartas que não podiam seguir lacradas, a resguardar o que não lhe interessa mostrar-nos. De tudo isto sou eu testemunha, pois quando posso espreito por trás do seu ombro aquilo que escreve. Mas sempre ela me enxota, dizendo num murmúrio: «Sai daqui Maria, deixa-me em paz!». E eu afasto-me a contragosto, arrastando os pés nas lajes.
Talvez porque Leonor desconfie de todos, começou, ardilosa, a acrescentar novas linhas nas entrelinhas, desenhadas com sumo de limão; numa espécie de código secreto e invisível, a enganar a mórbida curiosidade das freiras, a voraz ferocidade da prelada, mas sobretudo a iludir quem, a mando de Sebastião José, possa estar por demais interessado naquilo que dizemos, pensamos e fazemos.
Ironia suprema!
Na medida em que, por estas bandas, cousa alguma é possível inventar com poder para subverter as normas… Que nos obrigam ao nada mais absoluto.
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Anos depois de terem chegado a Chelas, Leonor começa a fazer os próprios cadernos que, segundo ela imagina, a irão acompanhar quando sair do convento para viver o resto da sua vida. Folhas de papel aparadas e medidas, sobrepostas em resmas delgadas, cosidas depois com longas agulhas enfiadas em linha grossa.
No final cola-lhes as capas de cartolina, forradas com as sobras dos vestidos, das saias e das blusas dadas pelas pensionistas e as recolhidas. Restos de tecidos lavrados, esboços de hastes e flores harmonizando tons e desenhos esvaídos, ou de seda lisa verde-lima ou veludo escarlate, atravessados de onde em onde por um ligeiríssimo brilho ruivo ou ondulação de marfim, correndo o risco de quando neles escreve acabar por ser distraída, para desacerto dos pensamentos ou da poesia que ultimamente faz em papéis dobrados ao meio, para em seguida os passar a limpo nas suas folhas.
Depois aperfeiçoa-os, tentando acertar a cor com o seu exercício, o uso que pretende dar a cada um deles, a sublinhar e a debater nas suas páginas temas diversos ou matérias específicas. E também versos, frases e pensamentos, tirados dos livros que vai lendo e que particularmente a entusiasmem ou lhe suscitem dúvidas.
Poemas, política e filosofia passam a dar nova coloração aos acabrunhados e medíocres dias conventuais, até aí sem sustento nem respiração suficiente para a sua desmesurada ambição.
Outras vezes copia para esses cadernos pedaços das cartas enviadas ao Pai, acerca de diferentes temas a repensar mais tarde.
Dizeres, cantigas frágeis, quadras e várias epístolas.
Os desabafos de alma, rogos do coração e outras solidões, que os sobejos das cassas e dos cetins das capas exaltariam com a fixidez da opala e os luzeiros de esmeraldas, de rubis sanguíneos e de rosas solares, guarda-os Leonor para os seus diários íntimos.
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Fica de joelhos, muito quieta, no canto mais sombrio da igreja, às horas em que sabe estarem as freiras ausentes.
Diante da imagem de S. Sebastião, Leonor deixa-se ir, inquieta e expectante, os olhos fitos no belo corpo torturado e quase nu: torso núbil e macios ombros cravejados de setas, feridas lívidas de onde partem correntezas de pequenos rubis de sangue que na penumbra lhe parecem demasiado reais; tal como a pele dúctil do santo, os pulsos frágeis mantidos atrás das costas, presos por uma corda dourada a um curto poste de marfim; os olhos tem-nos ele de um azul velado, parecendo fitá-la com intensidade.
Ao sentir-se olhada daquele modo intenso, perturba-se, visão toldada e respiração opressa a deixá-la sem ar, coração correndo na desordem do peito, a precipitá-la dentro de si mesma com uma estranha fraqueza na fundura do estômago.
Num vertiginoso susto.
Cabelos soltos debaixo do véu, sob o qual a nuca se entorpece em súbitas labaredas, gotas de suor a perlarem-lhe o corpo de rapariguinha precoce que, atordoada, imagina sensações nunca antes sentidas. Passando a ter visões ou sonhos onde S. Sebastião, ancas breves, ilhargas lisas e as longas pernas entreabertas, se deita a seu lado num demorado gemido; e ela quase grita, sem entender se de prazer ou do mais puro medo daquilo que ainda não entende, mas já antevê e deseja.
À sua volta o ar parece mover-se, num folheado e levíssimo barulho de asas que a entontece, enquanto S. Sebastião, do cimo do seu pequeno altar, continua a fitá-la, lábios enlanguescentes por onde adejava a sua estreita língua de águia. Em torno daquela equívoca nudez atormentada e cativa, há uma cintilação carnal, uma luminosidade doentia. Então Leonor julga levitar como Santa Teresa de Ávila: joelhos desligados do chão subindo um tudo-nada a coberto do vestido, num exercício de paixão através da devassa da alma, inocente e tímida, sigilosamente, tentando disfarçar o pulsar aceso do interior de um vulcão…