As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 76 de 289

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As Luzes de Leonor

Angelus

Por segundos hesita, reparando em volta, inquieta.

É quando se apercebe do vulto que junto à porta parece fitá-la com meticuloso interesse. Mas mal atenta na sua figura já ele se escapa, evitando mostrar-lhe o rosto. Intrigada, está a pensar segui-lo, quando aparece como um louco o arcebispo de Tessalónica dando sinais de alegria, e dizendo-lhe com ar de triunfo:

«Diga lá a seu pai que lhe pegue e que vá ralhar com Vossa Excelência a Viena!»

Aturdida, Leonor fica imóvel sem entender o significado das suas palavras. Mas ele prossegue num atropelo:

«A Rainha é que quis, eu não fiz nada. Mas diga lá que eu não sou seu amigo e do seu homem! Vai por terra ou por mar? Onde está o seu marido? Que venha beijar a mão à Rainha e eu tenho que lhe falar.»

Atordoada com este turbilhão de novidades e de perguntas, ela apenas lhe responde:

– Por mar ou por terra tanto se me faz senhor arcebispo. Eu quero é partir.

 

†

ANGELUS

 

Por um instante deixas o olhar preso no meu, a envenenares-me o sangue, a apunhalares-me o corpo febril que acaba de perpassar pelo teu num levíssimo roçar, fazendo-me enlouquecer com o odor a mirto e a gardénia que dele se desprende.

Há quanto tempo te acompanho?

Lavado era já o linho do teu olhar quando grave e melancólica fitavas a distância, a imaginares o que o mundo para ti poderá guardar, ideal e simultaneamente mesquinho, durante anos visto através das grades do parlatório ou do teu quarto no convento de Chelas.

Depois desse tempo de ambiguidades românticas, muito negrume à tua volta se extinguiu ganhando outro esplendor, a transfigurar-se em mudança. A exigires, Leonor, o maior empenho no aprumo e no belo.

Nesse altivo modo te reconheço minha única, ora na entrega ao sonho, ora querendo voar ainda mais alto no burilar dos versos, julgando seguires viagem antes mesmo de partires.

Tu,

por entre os fios interiores da trama onde se entreabre a levíssima fissura da tua interioridade abismada, sem adoçares porém a parte resoluta, o dique, a rocha existente em ti.

Fatal consegues ser, e ao mesmo tempo arcanjo.

Padecendo eu do desejo ardente de te tocar a ponta do sorriso que desponta incerto quando alguém te mostra a vertigem, a vara da saudade e da tristeza, a imaginares vires um dia a descansar de ti mesma.

Apesar de tanto te demorares junto da queda

de água do teu olhar longe do meu.

E é na seda dos teus cabelos naturais, com um leve tom de ouro acrisolado, minha loura temperada de mel e de cobre, onde mais se demoram os reflexos enchamejados das grossas velas dos lustres do Palácio de Salvaterra, echarpes transparentes e xailes deslizando ao longo dos teus braços despidos, vestidos demasiado leves para os meados deste inverno de chuvas, de geadas e de ventos fulvos.

De ocultos brasidos.

Ensimesmada e pálida, mas mesmo assim raio de sol, poetisa ou deusa ou simplesmente sílfide, boca de cereja carmim onde nunca se demora o sorriso. Lânguida

na inquietude que te distancia de todos.

Pétala.

Deixando atrás de ti um brevíssimo rasto de cravos e rosas entreabertas, onde no seu perfume de almíscar sempre te descubro pelo avesso da severidade exigida pelas tuas próprias regras. Teimando tu, Leonor, em seguires no trilho oposto ao do teu nascimento, lutando por te tornares mais livre, a viver conforme os estudos e os talentos a que te propões, e dessa maneira a desenhares as emoções e os modos,

as dúvidas e as obsessões no mapa onde se inscreve o teu destino: por entre montes e rios, mares e caminhos de ervas daninhas e lírios.

Incerta e esvoaçando.

Aí paira a minha mão, adejando, a querer delinear-te o tépido contorno dos ombros nus, estilhaçando com o seu brilho nacarado o cristal da luz dos castiçais e dos lustres. Nunca saberei se te preferiria quebrada nos meus braços, dócil e submissa, ou se tanto te quero por seres tal como és, silva e baga,

rutilante e altiva.

Por isso tento afastar-me, para logo retornar sobre os meus próprios passos, atraído pelo teu irresistível luar. Corro então o cortinado atrás do qual me escondo e de onde dissimulado te sigo, vigiando-te cada gesto alado.

Tu, perdimento na fímbria da luminosidade.

Eu sem nunca me mostrar, mas em tudo atento ao teu luzir,

fito-te do lugar do assombro.

Intimidado diante de tudo o que imagino, quando creio ir por fim enfrentar-te esbato-me, esquivo-me, dobro esquinas, subo ruas e faldas de hortênsias, abafando o que sinto. E no entanto porfiando em perseguir-te,

Leonor,

nos teus percursos pelos penumbrosos corredores do palácio, enquanto me sinto a defender-te não sei de que absurda hipótese de crime. Teimando em ser invisível aos teus olhos, abrigo-me atrás dos reposteiros desbotados pelos anos, esgarçados nas auréolas e nas costuras envelhecidas, bainhas esfiapadas pelo arrastar no soalho. Fugindo quanto posso da claridade das janelas dos salões e dos quartos, que pelos terraços largos de pedra escurecida comunicam entre si, na devassa das intimidades.