As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 106 de 289

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As Luzes de Leonor

Diário

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Ao arredar as cortinas translúcidas que cobrem os vidros das janelas, julgo entrever alguém a espiar-me, abrigado pela folhagem das árvores do outro lado da rua, à frente de minha casa; ou a observar-me da penumbra de uma carruagem negra que durante longas tardes se demora junto do passeio.

Em vez de me recolher como deveria, abro para trás as vidraças e debruço-me movida pela curiosidade. Mas também, confesso-o, por um estranho anseio que me leva a querer infringir o interdito, alguma coisa que quebre a monotonia da rotina, de um quotidiano pesado, no qual o meu anseio de brilho e a ambição se perdem.

Viena, 15 de Novembro de 1780

†

A carta chega de manhã cedo.

Ainda não a abriu.

Olha-a, desconfiando, pousada no canapé.

Intocada.

Observa-a perto da sua saia armada, enfunada, a aflorar-lhe muito ao de leve as coxas num brevíssimo arrepio reprimido. Tacteia o lacre intacto de um tom sanguíneo, a língua a tomar do céu-da-boca o seu sabor almiscarado a ambrósia. Afaga ao de leve com a ponta dos dedos tépidos a rugosidade do lacre entretanto quebrado, da carta ainda por abrir posta agora em cima dos joelhos.

Prefere adivinhá-la?

Trocá-la pelo vazio, pela palavra ausente, permanecendo intacto o selo do silêncio?

Versos?

Um suposto segredo revelado no começo da página?

Fugir na memória? Mas ao voltar atrás no tempo revê o claustro do convento de Chelas – turvidade fechada em torno de si mesma – hirto e austero ao sol do meio-dia, ou nas horas dos muitos invernos alagado pela chuva cheirando a rio que lhe corroía as lajes. Depressa deixa para trás as recordações e regressa ao presente em Viena, onde a carta permanece fechada no seu regaço de seda azul-cobalto.

Debruça-se sobre ela, parecendo-lhe primeiro reconhecer a letra de quem redigira o seu nome, letra firme de traço masculino, para de imediato lhe parecer o contrário, adivinhando uma caligrafia de mulher na curvatura amável das letras desenhadas, com a segurança de quem escreve muito.

Assustada com a própria ansiedade, decide rasgar a carta.

Pôr termo à sua presença nociva.

Afasta o olhar das hastes longas das letras e, para se tranquilizar, tenta convencer-se de que pode ser um recado, um convite, um bilhete sem importância.

Uma ameaça ao recato? Possibilidade inquietante a desarrumar-lhe o resguardo onde se abriga, querendo afastar o coração do perigo das suas razões sem razão alguma, empurrando-a para o anseio, para o risco, para a vertigem que a precipita, a mergulha abaixo do nível do mar onde já não se respira.

De natureza inquieta, nada a acalma, nada a apazigua, apesar da determinação em aceitar os limites. Mas em vez disso, sobe por eles até ao centro dos sentimentos imprudentes e despertos. O incêndio consome-lhe a alma, ameaçando vencê-la, perdê-la, apesar de não se poupar a nenhuma privação dos sentidos. A si mesma exige mais do que aos outros, a quem já exige demasiado.

E de novo agarra a carta com a respiração suspensa, percebendo ter medo do que nela possa estar escrito.

Será então melhor rasgá-la?

Pensa ainda tentar desvendá-la à transparência do sol que entra pela janela a deslizar dentro do quarto, nos tapetes, acabando por ir aninhar-se junto aos seus pés descalços. Com o olhar toldado por uma ligeira neblina, enrolada no xaile de caxemira cor de sangue, volta a pegar na carta que lhe pesa na mão, ajoelha-se no mármore da lareira e pela última vez pensa em abri-la.

– Não consigo – conclui, na recusa de saber o que nela está escrito. Mas torna a repassar os olhos pelo endereço detendo-se no seu título, Condessa de Oeynhausen, ao qual continua a não se habituar, como se fosse um corpo estranho que dissesse respeito a outra mulher. E isso faz com que a carta não pareça ser-lhe dirigida, mas antes àquela outra que em si ainda não encontrara morada. Desdobra-a de novo e atira-a para cima da lenha que o lume poupara, onde fica oscilando, quase voando na sua delicadeza como uma borboleta púrpura de asas raiadas. Por uns brevíssimos segundos só se ouve o silêncio profundo da casa.

Afasta os olhos sem querer vê-la arder, transformada em chama. Quem sabe se não terá ainda tempo de estender a mão e colhê-la do fogo, antes que as labaredas a consumam vorazmente com o seu hálito.

Desanimada, inclina a cabeça:

O clima gelado de Viena e tudo à sua volta parece empenhado em derrotá-la.

†

Naquele dia o abade de Vermond está inquieto e desatento, enquanto, como habitualmente, distribui o pão aos pobres nos portões do Palácio de Versailles. Na véspera, já tarde, o embaixador austríaco, conde de Mercy d’Argenteau, confirmara-lhe os boatos de que a Imperatriz Maria Teresa piorara no seu estado de saúde e, muito fraca, se apaga como uma vela no palácio de Hofburg em Viena. Inquieto com a fragilidade da Rainha de França, de quem o abade é instrutor e conselheiro, recomendara-lhe um especial cuidado no apoio a dar-lhe.

Maria Antonieta recebe-o no Petit Trianon, vestida de luto carregado como se a Mãe já tivesse morrido: fato de seda negra com mangas rendilhadas que, ao extenuar-lhe o esplendor da pele de pêssego, a emagrece, a favorece acentuando-lhe a palidez, fá-la parecer mais branca e delicada com o seu forte odor a flor-de-jasmim.

Tenta ainda o abade de Vermond consolá-la, transmitir-lhe uma derradeira esperança que ela repele, impaciente, distanciando-o com um aceno leve da sua mão fina de boneca de Saxe. A fazer-lhe lembrar, por momentos, a gentil arquiduquesa de quinze anos que ele acompanhara durante a viagem de Viena de Áustria para vir casar na Corte de França.

Mas logo repara nas suas faces macilentas e no lago parado do olhar turvo, e pela primeira vez apercebe-se da solidão sem remédio,

onde a vivacidade da Monarca se deixa estiolar.

†

O conde de Mercy d’Argenteau senta-se à secretária de mogno polido e começa a escrever aquela que será a última carta à Imperatriz Maria Teresa, de quem durante os últimos dez anos fora o olhar perspicaz e o ouvido atento na Corte francesa, junto da sua filha mais nova, a Rainha Maria Antonieta.

Está consciente da impossibilidade, mesmo se através do correio diplomático, de fazer chegar a Hofburg, antes de a Imperatriz morrer, as suas derradeiras palavras de lealdade e dedicação. As únicas que lhe é permitido usar em relação à Soberana, cuidando de manter silenciosos os ardentes sentimentos sublimados em rigoroso segredo no seu coração atormentado. E o embaixador estremece com o frio do pressentimento ruim.

O imenso peso do desgosto a golpear-lhe o peito.

Inconformado, porém, destapa o tinteiro de prata, sentindo escapar dele o cheiro da tinta lilás com o seu travo adstringente e arruivado, onde mergulha a pena segura entre os dedos gelados.

E em seguida começa por escrever no alto da página:

Sagrada Majestade

†

Há dias que ali está de mãos subidas ao peito, olhos fechados, recostada às altas almofadas de linho branco e rendas largas que lhe marcam a face muito pálida, como se todo o sangue houvesse fugido do seu corpo, no qual apenas resta a transparência do espírito.

O médico debruça-se sobre o leito imperial do Palácio de Hofburg, a verificar se a Imperatriz respira. Há quem a julgue morta e se afaste benzendo-se e rezando baixo, a encomendar-lhe a alma. Mas logo ela entreabre os olhos a procurar entender o que lhe está sucedendo, e quando encontra o filho à sua beira agarra-lhe os dedos, sem força já para os apertar nos seus. É a ele que transmitirá tudo, pois mesmo o que não era seu ela reconstruíra com empenhamento e gosto: a começar pelo Império, de que cuidou melhor do que das próprias filhas, com quem foi sobretudo severa e dura, a empurrá-las demasiado cedo do seu regaço – desde sempre mais Imperatriz do que Mãe. Mulher de «carácter resoluto e varonil», como a descrevem.

À medida que as horas passam vai deixando de perceber o que à sua roda acontece: a azáfama silenciosa, os panos húmidos e torcidos que lhe põem na testa, as sangrias, os líquidos entornados a custo nos lábios gretados e secos. Não sentindo já os braços lancetados na busca de melhores veias, o amargor dos remédios, o odor macerado dos unguentos à base de mandrágora ou de raízes de árvores.

Apercebe-se no entanto da chuva, antes de perder o ouvido. Admirada, busca com os olhos a luz das velas que, ao pé da cama, estão a ser apagadas a mando dos físicos, a respeitarem-lhe a lentidão com que se desprende de si própria.

Desse modo encontra-se Maria Teresa mergulhada na sombra, de onde mal distingue a cada vez mais longínqua face do filho que julga acenar-lhe, enquanto uma levíssima mão se acerca dela, pousando no seu ombro, a empurrá-la ao de leve.