As Luzes de Leonor
1754-1758
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Apanham do chão as pedras rasas e repletas do sol da tarde, pedras dóceis que raramente se adaptam à curta fundura das palmas curvas das mãos pequenas, que as atiram de seguida voando baixo na direcção da brilhante cortina de água e por vezes atravessando-a a perderem-se do outro lado, que ambas desconhecem. Mas Leonor sabe inventá-lo: misterioso na sua cintilante transparência, terreno de ondinas e fadas, de feras e feiticeiras; histórias de amazonas, que para lá daquela correnteza de chuva estremecida, de zimbro, se escondem dos olhares ínvios que lhes arrancariam sem dó nem piedade a vigorosa força feminina.
Narrativas extremadas pelo entusiasmo, numa mistura de mitos e de lendas, frente a Maria que olha e escuta a irmã com uma admiração temperada pela desconfiança contida: «A mana inventou isso tudo, julga que não sei? Eu não sou tola!» Mas logo ri, divertida e maliciosa, pedindo mais contos, a empurrar Leonor para urdir outros enredos, novos passos no relato das aventuras que conta, perpassadas por um tom arrepiado de encantamento dúbio, onde se vão imiscuir laivos de um vigor gentil, colorido pela imaginação desvairada, a recriar mistérios a partir do ambíguo cristal da cachoeira.
Cascata que anos depois Leonor recordará no convento de Chelas, com uma saudade distanciada, nebulosa, e que mais tarde ainda invocará em poemas nostálgicos por onde perpassam as matas sombrias, as luzes estriadas, coadas pela ramaria densa e as agulhas escuras dos pinheiros selvagens. Mas, evitando referir as crianças descalças a fitá-las de longe, as esmolas dadas aos pobres todos os sábados ao meio-dia no portão dos fundos do pomar, os odores apodrecidos das humidades recolhidas, dos líquenes, do musgo, do húmus, das urtigas sonsas escondidas na vegetação aturdida dos atalhos.
Por enquanto, porém, elas correm, tontas, uma atrás da outra, a sujarem de terra os sapatinhos de seda com laço de cetim, as bainhas das saias tufadas, a amachucar as rendas onde tudo se pega, as ervas e as folhas velhas, os cardos, os inesperados picos e farpas das plantas tardias. E quando a sede as apanha, curvam-se a beber da água que a cascata ondeia no leito do chão, turvada pela própria luminosidade, desse modo impedindo que as duas se inclinem a tentarem distinguir melhor a face uma da outra: as duas afogueadas pela correria e a chama do estio cortada pelo ar enevoado da serra de Sintra, sem se importarem as meninas com as lâminas tremeluzentes do calor.
Serra onde habitualmente passam com os pais os dias quentes de Agosto na quinta de verão, em busca do fresco das fontes, da friagem das nascentes, do arvoredo escuro aqui e ali clareado pelas flores cor-de-rosa das olaias, pelas rosas-chá das latadas esgarçadas pelos lilases. Pujança colorida das buganvílias, que subitamente surgem à beira dos carreiros escusos das matas sombrias. Logo adiante os loureiros e as tílias fazem a ligação aos jardins da casa, luzeiros inesperados do meio-dia. Estio temperado pelas nuvens baixas, que a certas horas se afastam para deixarem ver, numa imprecisão trémula, o convento da Pena.
Descuidada, Maria prefere as hortênsias de um azul que lhe parece igual ao céu das estampas religiosas, enquanto Leonor gosta mais das faias de ramos descidos até à erva ao de leve molhada, formando uma espécie de campânula de abrigo, onde se recolhe quando lhe apetece ficar sozinha, perdida nos seus sonhos ou nos livros de gravuras de estrelas, planetas e globo celeste, álbuns que desfolha com avidez febril; a lidar com divagações aturdidas que nem ela sabe explicar, e demasiadas vezes lhe trazem de volta um aperto angustiado no peito liso sob o cabeção de cassa bordada do vestido, no qual repousa o fio de ouro com uma cruzinha de marfim incrustada em prata que a avó Leonor de Távora lhe trouxe da Índia.
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Vamos como sempre à missa na igreja do Convento de São Domingos, para o lado do Rossio, as patas dos cavalos derrapando nas descidas das ruas íngremes, em direcção ao Tejo onde o olhar se detém, a tentar distinguir ao longe as naus, os bergantins e as faluas. Mal saímos da carruagem, a minha avó Leonor de Távora, sempre impaciente, começa a puxar-me pelo pulso tentando apressar-me o caminhar miúdo, sapatinho prendendo na calçada enquanto vou arrastando o passo, luva apertada no punho por um minúsculo botão encoberto pela ponta da manga do vestido de tafetá verde-amêndoa. Andar retardado na ida, atrasando-me o que posso distraída com as gaivotas que por instantes parecem planar, soltando a fina lâmina do seu grito. «Gaivotas em terra é sinal de tempestade», diz D. Brites, e fico a imaginar, esquecida de tudo o resto, esse voo misturado de nuvens, como se pudesse soltar a mão dos dedos da minha avó e subir no ar, voando cada vez mais alto.
Minha Mãe que segue atrás, mão dada a Maria, endireita-me a touca de renda e ajeita-me a capa cinzenta escura posta sobre os ombros, descaindo um tudo-nada no começo dos braços. O sol, ao atravessar a fazenda de lã chegada de Inglaterra, molda-se ao meu corpo a emprestar-me um calor bom, cortado mal entro na sombra da nave central da igreja, tão densa que cuido ficar cega. E sem nada ver, tropeço ora num degrau ora num genuflexório, presa já do medo que escondo mas sempre sinto perto das imagens dos santos. A fitarem-me com o seu falso olhar de apaziguamento de madeira, de gesso ou terracota, desvendando-me os pecados e as faltas, para de seguida me colocarem diante do inevitável julgamento, sem perdão possível.
Então, de repente tudo se esvazia, perco a noção da realidade e deixo-me levar pelo pavor absoluto, no centro do qual se encontra a culpa e o sofrimento, representado este pela figura da Nossa Senhora das Dores amparando nas mãos entreabertas em concha o seu coração trespassado de setas, lágrimas nacaradas descendo pela pálida face amarelecida pelos anos.
Fico a olhá-la durante largo tempo mas, desassossegada, deslizo da cadeira forrada de veludo e faço o inesperado: avanço e deslizo sozinha para dentro da escuridade húmida, entrecortada pela luz vacilante dos círios nos pesados candelabros de bronze. O pavor empurra-me para diante, leva-me a tactear à volta enquanto finjo ignorar as pessoas que oram ajoelhadas. Até que chego nauseada de medo ao fundo da nave, onde descubro horrorizada o Senhor dos Passos, mais do dobro do meu tamanho: um joelho em terra e outro levantado, vestes roxas e sujas arrastando-se numa poeira imaginária, cruz a escorregar das costas que curvadas a carregam, tendo na cabeça inclinada a coroa de espinhos cravada na carne sofrida, de onde escorrem gotas de sangue semelhantes a rubis.
Sem conseguir impedir-me, espreito por entre as pálpebras até lhe encontrar o olhar parado, onde descortino a cintilação do aço, numa aterradora ameaça de castigo. Certa de não poder tornar a afastar-me daquele sítio de trevas, onde se vem misturar o odor adocicado a incenso e a flores fanadas, tento aflita suster o grito prestes a soltar-se por entre os lábios entreabertos.
– Leonor! – sussurra minha avó, atraindo-me a si e apertando-me ao peito, ciente do meu susto. E sem nenhumas perguntas regressa comigo à cadeira onde me abriga junto à sua anca, emprestando-me o terço de grandes contas de ouro que vou enrolando e desenrolando, sem saber rezar. Ao fundo da igreja ficaram os homens, chapéus nas mãos cruzadas atrás das costas. Viro-me, ansiando por distinguir entre eles o senhor meu Pai, que logo descubro garboso na sua casaca azul-cobalto, colete branco de abas, camisa de cambraia com punhos de folhos bordados.
– Menina! – torna minha avó Leonor de Távora, desta vez com uma ponta de ralho na voz de cetim. Fingindo uma obediência que não tenho nem uso, volto-me para a frente enquanto penso: «Vou fechar os olhos e já sonho.»
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Punha-se em bicos dos pés para percorrer com os dedos pequenos e finos a risca colorida que a luz do pino da tarde emprestava ao cimo da parede branca, fazendo uma sinuosa estrada de claridade; sol a tentar esgueirar-se por entre as portadas de madeira mal fechadas da janela de sacada, que dava para o sossego tépido de um jardim de rosas-chá e narcisos, de vasos de miosótis simples e violetas. Leonor imaginava tocar o arco-íris, onde via dançar uma poalha luminosa e translúcida, semeada de minúsculos e trémulos pontos rosados e cintilantes, que pareciam fugir para irem extinguir-se nos lugares mais obscuros do quarto.
Vindo das funduras do corredor, trepando pelas escadas e passando pelas frinchas da porta de madeira ferida, chegava-lhe o volátil odor do arroz-doce cerzido pelo cheiro do pudim de leite coalhado coberto de caramelo, que a cozinheira fazia para o lanche. Na boca crescia-lhe, gulosa, uma aguadilha ávida. Voraz também de rosas vermelhas, das quais devorava as pétalas às escondidas. Noutras tardes era o odor espesso do bolo podre que se abeirava da cama da sesta, e que ela num jogo de faz-de-conta fingia substituir pelos melindes e os rebuçados de ovos, lambendo o coral dos lábios.
Sem dar por ruídos nem cheiros, Maria dormia obediente e quieta, de lado e encolhida, as pestanas espessas a sombrearem-lhe a face delicada. De onde estava, Leonor mal distinguia o vulto da irmã, que entretanto atirara para trás a manta fraca, cabeça apoiada no almofadão de linho branco bordado a crivo que os bastos cabelos castanhos, soltos das fitas e dos ganchos de prata, quase tapavam. Entregue aos seus sonhos de anjos e aparições, que sempre evitava contar.
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Sem o confessar a si mesma, Leonor de Lorena prefere o menino, por enquanto manso ao embalá-lo nos braços. As meninas sempre foram mais soltas, mais ávidas e amigas de buscarem o riso fora do seu espaço; tão diversas de si própria quando pequena, como elas são hoje, que por vezes nem as reconhece dos mesmos sangues, de as ter parido e trazido nove meses na barriga.
Mas ela não se permite ter sentimentos e pensamentos indevidos, e desavinda consigo mesma desvia os olhos de Pedro, adormecido, cabeça a descansar-lhe no colo. Consciente de não conseguir afastar de si um inconfessado júbilo por ter gerado finalmente um filho varão, seguidor de nome e títulos de nobreza paterna. Orgulhosa da alegria que sabe ter dado ao marido, para quem pode agora olhar a direito, numa sensação plena de dever cumprido.
E no entanto, João nem parece especialmente satisfeito com o nascimento de Pedro, sem sequer se inibir de mostrar uma clara preferência pela filha mais velha, com quem é muito unido. Na verdade, ele e Leonor partilham alguns gostos e preferências, pois embora ela seja ainda tão pequena, guarda a mesma inclinação pela natureza que o Pai, com quem passa noites a olhar as estrelas.
Desagradada com o rumo dos seus pensamentos, Leonor de Lorena apressa-se a desviá-los e, insatisfeita, inclina-se de novo sobre o filho adormecido, rapazinho tranquilo que a olha por vezes com um longo olhar triste, a apertar-lhe de apreensão o coração materno.
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– Avó!
murmura mais do que chama, numa voz sumida, cabeça deitada no seu regaço, os lábios de madrepérola quase encostados à seda bordada do vestido cor de ferrugem usado nessa noite por Leonor de Távora, renda de Bruxelas subida no pescoço branco e longo, tendo a embrulhar-lhe os ombros um longo xaile de lã translúcida, de uma tonalidade caldeada de malva e alfazema.
Leonor respira o cheiro a rosmaninho que vem do pequeno ramo colocado na salva de prata discretamente colocada na mesa de mogno, ao lado da taça da Companhia das Índias, onde em água de rosas nadam pétalas de camélia e de papoila, que lentamente vão murchando com o calor da lareira acesa. E na concha mínima das mãos a menina aperta o sininho de prata há tanto cobiçado e que a avó lhe dera nessa tarde.
Luta sem êxito contra o sono que contrariada sente chegar, num artifício leve a nublar-lhe já o entendimento, boca ligeiramente entreaberta e mansa no suave respirar, o cabelo desordenado a cair sobre a testa em lassos caracóis cor de mel.
Leonor de Távora, com o pensamento longe e preocupado, enrola-os devagar um por um em torno dos dedos esguios, a alinhá-los com cuidado na cabeça da neta adormecida, numa espécie de afago distraído.
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Com a cabeça da neta aninhada no colo, Leonor de Távora tenta tranquilizar o peito aflito, no apaziguar das mágoas que desde a sua chegada ao porto de Lisboa, já vai para seis anos, não cessam de aumentar, atormentando a sua família.
Só na companhia dos netos e de Francisco de Assis ela consegue acalmar os nervos em alvoroço, num crescente presságio de desgraças e perigos que, ameaçadoramente, cada vez mais se aproximam.
Muito pálida, e com os belos olhos cor de violeta rasos de água, acaricia ensimesmada os cabelos encaracolados da neta que usa o seu nome, e de quem é tão chegada. Julgando adivinhar na menina modos de inquietação e ousadia capazes de a levar mais tarde a passar o seu testemunho.
É nela que Leonor de Távora encontra as próprias raízes.
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Vejo-a quieta e perdida na contemplação do negrume da fundura do céu. Mão pequena estremecendo na minha, dedos que sobem na sua palma e nela se enroscam, gelados da noite fria, enquanto andamos ao acaso e com entusiasmo, tropeçando no escuro, tomando da aragem os odores arrefecidos mas múltiplos, perfumes cristalizados subindo dos maciços de rosmaninho e das rosas portuguesas que suspiram baixo no fim da madrugada.
Leonor vai silenciosa, enquanto lhe explico o que posso e o pouco que sei. Passamos por baixo do arco que separa os jardins da casa e paramos perto das escadas em caracol do mirante, a cuja balaustrada ela mal chega, peito liso que encosta ao gradeamento de ferro muito antigo descendo até ao chão de laje no qual se firma.
Menina de caracóis de ouro toldado empeçando na malha macia do casaco de lã a aconchegar-lhe os ombros delicados, Leonor vira-se de costas para o lago brilhando de prata à luz derramada pela lua, cabeça inclinada para trás enquanto conta no corpo celeste as estrelas fixas, incrustadas como jóias na esfera nocturna; e as estrelas errantes, como é uso dizer-se dos planetas, dos quais vai perguntando cada nome: deste e do outro refulgindo, e ainda daquele mais distante a sumir-se ao longe, cumprindo-se através dos espaços da vertigem, céus no interior uns dos outros, sobrepondo-se, levando-nos a idear uma dimensão impensável. E isso me atrai enquanto indago, a querer chegar à compreensão do novo, levando-me com entusiasmo ao estudo.
Ensinamentos que passo a minha filha, demasiado curiosa e impetuosa para a pouca idade; impaciente mais do que eu, seu Pai, sempre envolvido em eternas dúvidas, enquanto ela confunde a sabedoria com o sonho que a impele a questionar, pergunta após pergunta, em busca de uma resposta que teima em fugir. Mas isso, em vez de lhe diminuir o entusiasmo, só faz aumentar-lhe a sede de saber, que fica sempre aquém do ambicionado.
Por vezes pego-lhe ao colo e sento-a no beiral do telhado, perninhas soltas no vácuo sem medo algum, sentindo como a tenho segura. Ambos admirando a cintilação longínqua de tanta luz, buscando a razão onde o conhecimento se abriga. E se a sinto tremer, enovelando os braços finos que as mangas do vestido mal cobrem, dispo o meu casaco, envolvo-a nele, agasalho-a. Outras noites há em que aponta simplesmente para o alto e pergunta-me o que me escapa ao olhar:
– Como se chama, senhor meu Pai, aquela estrela com asas?
Pó de estrela a fazer-se voo, poalha de luz a fazer-se sinal. E eu, espreitando pelo óculo sem observar o que ela, apenas no reparo a esmo, distingue a olho nu, reinvento o que penso conhecer, tentando adivinhar a partir da sua descrição, confundindo o que ela julga ver com aquilo que inventa. Mas a predilecção da minha filha vai para as estrelas cadentes, precipitando-se na sua vertigem e queda de chama lá no alto. Onde a Estrela Polar nos guia pelos caminhos da terra e do mar, a última da cauda da Ursa Menor afastada da sua floresta de árvores apagadas depois do escurecer.
E Leonor ri encantada com aquela aventura, melhor do que as histórias de fadas, estrelas como espelhos onde o sol se reflecte, garante-se, e ela acreditando em mim aceita, crendo saber eu tudo o que diz respeito aos orbes celestes.
– Como se chama, senhor meu Pai, aquela estrela com asas?
Tento em vão sossegar a sede de instrução da minha filha, sem poder imaginar ser de Saturno que ela fala. Isso só entenderei muitos anos mais tarde, com a ajuda do telescópio de Dollon, encomendado por mim a França para a quinta de Almada. Com ele varrerei de Norte a Sul os caminhos imbricados do céu.
Deste modo a fingir enganar a solidão da velhice.
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Leonor consegue a muito custo que a mãe a deixe ir com D. Brites buscar os doces encomendados ao Convento das Inglesinhas. Batem com a pesada aldraba do grande portão que dá para a Rua de Buenos Aires, distraindo-se a menina, enquanto esperam, a olhar as corvetas, as galeotas e as faluas transportando barris de madeira, a cruzarem as águas encapeladas do Tejo, empurradas pelo vento agreste que trepa as colinas com desembaraço, limpando os ares dos fedores e dos miasmas, para se precipitar de seguida onde as duas se encontram a enrodilhar-lhes as saias, quase levando consigo o chapéu que Leonor sente a ameaçar soltar-se dos pregos de prata e do enredo enriçado dos seus cabelos revoltos.
Mas a mão de D. Brites é mais lesta a tomá-lo pelas fitas que já deslaçam o nó de cetim escorregadio, e com elas volta a dar um laço de borboleta junto ao queixo da criança. Depois, sem mais palavras, faz soar de novo o batente de ferro na madeira velha da porta, da qual a irmã hortelã, depois de ter espreitado pelo postigo, abre as pesadas portadas a chiarem nos gonzos enferrujados, deixando-as entrar: lugar espaçoso onde o pomar e o jardim benignamente se misturam.
Seguem as três pela álea mais estreita, ladeada de arbustos magros, de murta, de madressilva e avenca. Mais adiante ficam os regos das laranjeiras, das pereiras, dos limoeiros, não muito longe dos canteiros das roseiras e dos jacintos, do amaranto púrpura. Em cima do muro baixo que ladeia o mosteiro, onde se vê o portãozinho que dá para o beco das traseiras, estão vasos de amores-perfeitos, de miosótis e de sardinheiras.
A Leonor, que segue cuidando evitar a gravilha para não magoar os pés mal defendidos pelos finos sapatos, chega um persistente cheiro adocicado, numa mistura de suor, de mênstruo e de fruto sovado, que a jovem freira à sua frente solta ao ondular o hábito com o passo ligeiro.
Mal entram na largueza espaçosa da cozinha são apanhadas de chofre pela intensidade de novos aromas entre si entrançados: o do arroz-doce a cozer devagar no leite encorpado, o do empadão de lebre a sair do forno e o do guisado de aves. Odores a contrastarem com a delicadeza da água de rosas a ferver com açúcar, o do manjar branco e dos queijinhos do céu acabados de saírem do fogo.
Enquanto D. Brites está de conversa com as irmãs cozinheiras, Leonor passeia devagar os olhos gulosos ao longo de duas grandes mesas de mármore, uma repleta de sopeiras fumegantes, de terrinas de caldo de galinha gorda, de travessas de arroz de coelho, e a outra só com sobremesas: covilhetes de marmelada, pratinhos de rebuçados de ovos e caramelos, pratos de louça da Índia com cogulos de pão-de-ló e bolo podre, taças de vidro coalhado com leite de sericaia e ovos moles.
De súbito, porém, algo indefinível muda à sua roda, e ela detecta um novo perfume a libertá-la da roda de doces ainda quentes, do cheiro macerado da carne em vinha-d’alhos, do acre das especiarias, da aspereza da erva cidreira. Essência de chuva que a deixa perplexa e a leva a seguir-lhe o rasto, que se tinge primeiro de romã e em seguida de lápis-lazúli. Poalha dourada a levantar-se, esparsa por uma aragem equívoca, espécie de mansa corrente de ar que a faz virar-se e olhar para trás receosa.
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Quando volto a cabeça vejo-a:
nimbada de luz a fitar-me imóvel à entrada da porta.
Vestido de linho de um tom de pérola recolhido, descendo liso e solto ao longo do corpo magro de ossos miúdos; saia cingindo a cintura estreita, mangas compridas que mal deixam a descoberto os pulsos frágeis. Tem olhos amarelos acusando a linhagem de bruxas e feiticeiras, a pele de uma palidez exaltada e os cabelos do recôndito tom do mel acrisolado.
Olhamo-nos devagarinho, como quem cuida do que vai encontrar e, porque ela hesita, acabo por ser eu a dar o primeiro passo. Aproveitando a distracção das freiras que trocam segredos de receitas com a dama de companhia de minha Mãe, deslizo sem ruído pelas lajes da entrada e na tijoleira da copa, perseguindo-a no seu recuo, cada vez mais fora do meu alcance, a tentar apagar-se na sombra de pedra do corredor sombrio. No entanto, a claridade loura que emana sublinha-lhe o vulto esquivo e tímido, que agora se detém, parado e hirto, limitando-se a ver-me aproximar com receio, até ao momento em que também se entrega e corresponde, ambas de diferente altura, mãos a tactear o ar como se fôssemos cegas, mas apenas encandeadas pela aura uma da outra; e quando os nossos dedos se encontram o luzimento é tanto que nos obriga a franzir as pálpebras transparentes.
«Como te chamas?» – consigo perguntar-lhe, temendo vê-la desvanecer na própria ausência. «Lilias Fraser» – responde-me muito baixo, numa voz rouca e entumescida, como se as palavras teimassem em não querer sair-lhe dos lábios descoloridos.
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Detive-me encostada ao umbral da porta da grande cozinha do convento, onde ia buscar o chá de tília pedido por soror Theresa. Andar descuidado o meu, de quem não espera encontrar surpresa em coisa alguma, esgueirando-me das adivinhações e das alucinações por entre os interstícios do medo, tentando reparar apenas naquilo em que seria óbvio reparar. Mas, sem aviso, o improvável surgiu à minha frente na figura de uma menina muito composta, capinha de fazenda cinzenta, mãos escondidas num regalo de arminho, cabelos claros e ondeados debaixo do chapéu enfeitado com penas marfinadas de peito de pomba.
Estupefacta, parei sem perceber se ela seria real ou imaginária, de tal maneira me parecia improvável estar ali, à mistura com as irmãs cozinheiras, com as noviças estouvadas, com as velhas enregeladas agachadas ao pé do fogo. Fascinada, vi-a imóvel junto à mesa dos doces, olhar vidrado de gulodice, a língua rosada e húmida a passear ao de leve ao longo do indeciso contorno dos lábios, enquanto ia tomando o gosto aos odores da encharcada, dos melindes, dos fios de ovos soltos, cheiros que se evolavam, encorpados de açúcar em ponto, das taças de vidro delicado, das tigelinhas de compota.
Senti-me estremecer diante de tamanha volúpia incontida, de tanto vacilo à beira do capricho que estranhei no desconhecimento do suspiro contido, da determinação em aceitar o desejo, do êxtase da entrega; enquanto eu me distancio das pessoas, temendo adivinhar-lhes a morte, a sombra, o seu decomposto interior, a vida de que vejo os limites, o fundo, o lodo, as rachas, na voraz roedura do corpo. Dom maldito que arrasto em silêncio, conhecendo o peso da sua asfixia, da sua secura obsessiva que me afasta dos outros, atardando-me na perda, na falta, na falha; cheiro a ferrugem dos sangues ou a ferro agoirento: das espadas, das armaduras, das viseiras, a recordarem a crueldade de um campo de batalha.
Anseio pelo que é alvo e puro, sem nenhuma memória, condenada eu a adivinhar o futuro. Naquele instante, no entanto, conseguindo iludir o conhecimento do tempo que ainda há-de vir, adiantado pelas alucinações que chegam de madrugada. Mas quando ela me viu recuei, consciente e expectante diante da imagem do meu próprio avesso, entregue já à sua fraqueza dúctil e nela me reconhecendo: meu outro mesmo lado, sol da minha sombra, lua do meu negrume, rosa-do-mato ou flor de açucena. Criança delicada e suspeitosa com quem logo me senti irmanada sem nunca nos termos chegado a tocar, apesar do encontro da ponta dos nossos dedos.
Sem entender porquê retrocedi, cada passo para trás contado e medido sem pressa. Foi então que ela andou até onde eu estava, mãos alongadas na direcção das minhas, estendidas em meu amparo, voz breve a perguntar-me: «Como te chamas?» E eu da minha antiga mudez atirei fora o susto e respondi-lhe de rouquidão na fala entumescida, a atropelar-se na garganta apertada: «Lilias Fraser, e tu?»
Talvez ela tenha hesitado uns segundos, demorando um tudo-nada a resposta: «Leonor de Almeida.» E coisa alguma mais dissemos pois, sem outro motivo aparente que não fosse o destino, nos completávamos. Sabendo eu a partir desse momento tudo o resto, e por isso pude sem medo cumprir a vontade de reparar nos seus olhos de um azul de cinza ardente, onde a encontrei intacta, incontaminada do mal, embora marcada pelo fechamento de janelas, de portas e grades à sua volta, levada que será em breve por acontecimentos tão devastadores e terríveis que a irão marcar para sempre, afastá-la da vida tal como hoje a conhece e entende.
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A bruxa tem os cristais guardados nos bolsos fundos da saia, deles sentindo na carne a brasa gelada e a cintilação cega, que lhe chameja o corpo. Inspira com precaução o ar, toma-lhe o gosto a salitre, fareja-o, nele detectando o enxofre, o húmus contaminado pelo revolvimento que em breve há-de vir das entranhas das terras, das águas sulfurosas e das pedras que ali já fez secar as fontes.
Depois de se ter debatido noites seguidas com os próprios poderes e presságios, delirando com a febre alta que provoca convulsões e lhe repuxa as feições, a bruxa nas suas alucinações viu ruir Lisboa, escutou o urro imenso subido das entranhas da terra, os gritos aterrados das pessoas em fuga pelas ruas em chamas, ouviu os estertores das que ficaram estendidas, esmagadas debaixo do estuque e das lajes, dos mármores dos palácios, dos altares e santos das igrejas, deu conta do pavor daqueles que eram tragados pelas fendas enormes que se abriam no chão a engolir tudo, casas e carros, e também aqueles que tombavam, tropeçando nos escombros.
Sentiu o estômago revoltado pelo intenso cheiro a vulcão recolhido que andava no ar espesso de fumo acre, a fundo lodoso do rio, a chuva envenenada, ao sal ácido das ondas de um mar revoltoso. Procurou em vão defender-se das queimaduras das cinzas que tombavam do alto, como se fossem neve parda, escaldante. E quando finalmente voltou a si, aterrada, reuniu os poucos haveres numa trouxa, guardou dentro dela, também, as cartas de adivinhar futuros, os cristais nos bolsos da saia imunda, embrulhou-se na manta de lã cardada, abandonou a cabana de terra batida e saiu da cidade, entregando-se ao destino que a guiou, ainda cambaleante, pelos caminhos do Campo Pequeno.
Com a boca crestada de sede, solta os emaranhados e enriçados cabelos ruivos, liberta-os do lenço de riscado preto com o qual limpa o suor do rosto afogueado pela inusitada quentura daquele princípio de tarde de 28 de Outubro de 1755, e só nesse momento repara na carruagem que acaba de sair pelo portão encimado pelo brasão dos marqueses de Távora. O carro puxado por dois cavalos brancos de crinas entrançadas vai ainda a passo lento quando se cruza com ela, parada à beira da estrada.
Julgando reconhecer aquele vulto imóvel que parece esperá-la, nimbado em contraluz pelo intenso sol do meio-dia, Leonor de Távora afasta, curiosa, a leve cortina de cetim bordado a ouro, para se debruçar um tudo-nada. Durante esse breve segundo olham-se nos olhos uma da outra, estremecendo ambas com a invasiva e maligna sombra neles adivinhada.
Inclinando-se para trás, a marquesa deixa tombar depressa a cortina e, lívida, recolhe-se na penumbra velada, à espera de encontrar na força e na atenção do marido a coragem que de súbito lhe falta. Mas Francisco de Assis sente-se por demais inquieto e distante para reparar no sobressalto dela, a tranquilizar-se a seu lado à medida que o tempo passa. E quando chegam à casa deles na Rua da Boa-Viagem vão ainda em silêncio, interditos e apreensivos com o despacho do secretário Sebastião José de Carvalho e Melo, a preveni-los de que, sem mais demora, El-Rei quer recebê-los.
Paralisada sob o calor que a abrasa, a bruxa espera que a carruagem passe, quando uma das pequenas janelas inesperadamente se abre e uma mulher se curva para a olhar, deixando-a mergulhar por inadvertência ou espanto até ao fundo violeta dos seus olhos, onde o sangue e a morte se misturam, pois poucos anos a separam já do seu fim horrível. E quando o carro se perde ao longe, encoberto pela poeira levantada, a bruxa foge espavorida, sentindo-se perseguida pelos próprios poderes, que escapam ao seu controlo, a fazê-la adivinhar segredos que deveriam manter-se ignorados até chegar a sua hora.
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Vestidas para irem com os pais à missa cantada das dez horas na igreja de Santa Madalena, as meninas conseguem escapar de casa para o jardim onde tentam passar despercebidas enquanto se apressam nas áleas geométricas, esgueirando-se por entre as faias, a dominarem o riso e a vontade de correr, apesar de se sentirem contrafeitas nos vestidos de cambraia, folhos de tule e renda a travarem-lhes o passo miúdo, toucas bordadas que naquele primeiro de Novembro tanto as amenizam como as fazem suar, pois mais parece estar-se no pino do verão do que no dia de Todos os Santos a caminho do inverno.
Mal a porta, impelida a custo de tão pesada, se fecha sem ruído, logo se libertam das capas, dos livrinhos de missa, dos ramos de alecrim que ficam caídos nos altos degraus da escadaria de mármore que desce até ao pátio ladeado pela torre do relógio, a ala dos serviçais oposta ao lado onde ficam as seges, e logo adiante a casa do frio e as cavalariças.
Sem falarem uma com outra, dissimulando a alegria de se verem soltas, elas hesitam, acabando por ir até à fonte dos anjos de mármore onde mergulham na água fresca as mãos até aos pulsos estreitos, para depois se salpicarem, uma correndo atrás da outra em torno das tílias e dos cedros, já perto do muro demarcador do pomar, que por sua vez separa a mata que ladeia a prisão do Limoeiro, onde àquela hora um condenado espia por entre as grades da janela da cela, fascinado pela luz mosqueada, no centro da qual duas meninas brincam à apanhada no jardim da quinta dos condes de Assumar, perseguindo-se e correndo na lisura das pedras dos carreiros contornados pelo buxo aparado rente, paralelo ao desenho geométrico dos canteiros de goivos e de cravos-da-índia, dos lírios e das açucenas de um branco açucarado de nuvem.
Mas quando, entre assomos de riso, estão prestes a esconder-se na sombra da latada de rosas púrpura, chega-lhes um revolvido e surdo clamor subido das entranhas da terra, ao mesmo tempo que o chão lhes foge debaixo dos pés, desequilibrando-as.
Assustadas, franzem as pálpebras a verem a luz translúcida e límpida da manhã tremeluzir, dançar frente aos seus olhos claros, paralisadas num demorado espasmo de medo, para de imediato se agarrarem uma à outra apavoradas ante as convulsões da terra e o intenso bramido que se levanta à mistura com o desabalado tocar de sinos, com os gritos, imprecações e preces, gemidos dilacerados e súplicas, chamamentos em pânico a subirem de tom à sua volta, acabando por se juntar num único fragor desmedido, que trepa já pelas abaladas colinas de Lisboa, onde se sucedem as ruínas. De mais longe chega já o brado que sai de entre os escombros, por onde uma imensa onda galgará mais tarde, maremoto a arrebanhar os restos do pouco que ainda restar.
Sempre que a terra parece imobilizar-se, as duas correm esperançadas, sem cuidar de evitar as rachas abertas no solo de onde brota uma lama fervente, imunda e fétida. Logo, porém, os abalos regressam, a derrubar, a acabar com o que ficara suspenso, e no seu descuido elas tombam, erguem-se, magoam-se. Reparando nos soluços emudecidos de Maria, Leonor toma-a pelos ombros frágeis a empurrá-la, a puxá-la em direcção a casa que julga antever à sua frente percorrida por um intenso arrepio, que a leva a tremer de alto a baixo parecendo contorcer-se e arquear-se, mas então é o mirante do lado norte da quinta que de súbito desaba numa espécie de suspiro reprimido, enquanto nas grossas paredes das várias fachadas do edifício serpenteiam veios que logo se tornam frinchas enegrecidas, num grande fragor de alvenaria a fender-se, a esboroar-se.
Na tentativa de escapar aos blocos de pedra, às traves que estalam e caem, às telhas que na queda se desfazem a seus pés, elas desviam-se e recuam aturdidas, afastam-se o melhor que podem tolhidas por um terror visceral, a fingirem ignorar a vertigem e a náusea que as acomete, cambaleando entre o pátio e os jardins que se encheram com a família, os criados, com os vizinhos, todos aqueles que ali procuram refúgio vindos de maiores perigos, do inferno em que as ruas da cidade se tornaram.
De mãos dadas, encolhidas uma na outra, Maria e Leonor não conseguem evitar os picos dos cardos, os cacos dos vidros, lutam para conseguir respirar o ar pesado e grosso; param um pouco a tentarem engolir a saliva encorpada e áspera com travo a salitre e amargor. Sabor do ar entretecido pelas nuvens de fumo, de cinza e poeira a fazê-las chorar à medida que avançam, pernas e braços lacerados. Passo incerto na teima de se firmar naquela espécie de ondulação obscura, vestidos esfarrapados pelos espinhos de roseiras improváveis. A magoarem-se nas árvores arrancadas pelas raízes que ficam como farpas viradas para o alto, a ferirem-se nas ferrarias espalhadas a esmo, a arranharem-se nas silvas que parecem brotar de súbito por entre as fendas que o solo abre, escaldando debaixo dos pés.
Caracóis desfeitos e colados às faces humedecidas pelo suor, pelo ranho e pelas lágrimas que correm sem que dêem por isso, as meninas tentam agarrar-se onde podem, em risco de serem derrubadas por quem corre enlouquecido a tropeçar, a vacilar, a oscilar antes de cair de joelhos, mãos postas numa súplica muda ao Altíssimo.
«Vamos morrer», soluça Maria num fio de queixa inaudível que leva Leonor, num derradeiro esforço, a tentar distinguir por entre o caos que as rodeia um meio de as pôr no trilho de casa. E é mais por instinto do que por discernimento que se defende e à irmã dos cavalos fugidos, a correrem às cegas relinchando, espezinhando tudo à sua passagem, por entre o negrume que se abatera sobre a manhã ainda há pouco transparente e radiosa.
Escuridade feita de rolos de pó a desprenderem-se da caliça, do estuque, do entulho e também dos fumos dos incêndios ateados pelas velas acesas que, sacudidas dos candelabros e palmatórias, tombam das mesas dos quartos interiores e das bibliotecas, dos oratórios e dos altares, a rolarem pelos soalhos de madeira velha e vulnerável de igrejas, capelas e conventos. Pelos tapetes persas e de Arraiolos dos palácios, flamejando com gosto os cortinados de veludo por onde trepam, lambendo as franjas douradas, os panos de arrás, no devorar dos quadros e das tapeçarias.
Chamas num rastejar silvante, um pouco por todo o lado, com preferência pelos cetins, as sedas puras e as rendas de bilros, os livros e os damascos de revestir as paredes, demorando-se em seguida nas imagens antigas dos santos de devoção, e por fim nos móveis: multiplicando-se nos toucadores, nas escrivaninhas, nas camas, nas cómodas de ébano, nos contadores com embutidos, encarniçando-se com afinco no estilhaçar dos espelhos, das louças e dos vidros.
Aterrada, Leonor empurra a irmã para trás no instante preciso em que a terra se imobiliza mais uma vez, curtos segundos em que as duas se sentem colhidas pela cintura, braços fortes a erguê-las à altura do peito do pai, a apertá-las num abraço de susto, quase sem darem conta da voz trémula da mãe, numa mescla de reza entoada, ladainha e palavras de premonição, num imbricado de português e latim: litania que o ruído sombrio das asas e dos gritos estridentes das gaivotas aflitas quase apaga.
Antes de se levantarem as rajadas de vento forte que ajudarão a incendiar Lisboa, o ar imobiliza-se numa espécie de odor turvo e pestilento, cheiro acre a enxofre e a lodo estagnado do rio, a que se mistura o gosto salgado do mar, a acidez apodrecida do suor do medo, mas igualmente do vómito, das fezes e da urina.
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De manhã Maria gosta de ficar na cama, entorpecida, amodorrada na quentura dos sonhos, magrinha e sumida no ninho dos cobertores e dos lençóis de linho fino com renda na dobra larga, que ela puxa a esconder-se, antecipando-se à ama que todos os dias abre as janelas, portadas de madeira para trás a deixar entrar o ar fresco do começo da manhã. Leonor, pelo contrário, ergue-se de madrugada pelo gosto de acordar no silêncio da casa à escuta do sono dos outros, mais livre para inventar, poder fazer o que mais lhe apetece.
Levanta-se pois de manso, pés miúdos e brancos debruçados de um dos lados do leito, enquanto se espreguiça alteando o corpo franzino escondido pela camisa de cambraia bordada a ponto de cruz na gola de abotoadura, cabelo frisado, caracóis de mel caídos em desalinho nos ombros miúdos. E quando finalmente ganha coragem para enfrentar a escuridez, desliza para o soalho de lustro puxado, embrulha-se arrepiada no xaile esquecido na véspera pela mãe quando lhes fora dar a boa-noite, silhueta delgada a curvar-se à luz bruxuleante da pequena lamparina do oratório: pavio amarelado a vogar aceso e devagar no cimo do azeite, diante da imagem do Menino Jesus vestido de pano branco, faixa debruada a ouro, dois dedos da mão direita soerguidos, enquanto com a esquerda aponta o próprio coração, como quem impõe a pureza no sítio onde se demora o negrume. Mas Leonor não pode ainda entender esses gestos de anseio e eternidade, instruída apenas na beleza loura e pura do Menino, que imagina estar a abençoá-la.
É nessa tremeluzente chama do oratório de talha que acende a vela da palmatória da sua mesa-de-cabeceira, e em seguida, dominando a custo a vontade de largar numa corrida tumultuada pelo corredor cheio de sombras ameaçadoras que parecem persegui-la, segue pé ante pé e de olhos franzidos. Por cada porta que se mantém fechada suspira de alívio, a caminho do gabinete escolhido nesse ano para sua sala de estudo, onde entretanto aprendera a ler sozinha. E quando lá chega pousa no chão a palmatória, estica ambos os braços finos até conseguir agarrar o puxador de louça.
Ao entrar olha em torno, desconfiada, a perscrutar os possíveis perigos, sobretudo onde a fraca chama do círio não alcança. Mas aquele é o lugar certo para ela começar o dia que desponta, revendo desde o princípio as gravuras do livro que a custo largara ao fim da tarde da véspera. Assim, tremendo com o frio da madrugada, dirigiu-se afoita à escrivaninha que a avó Leonor de Távora lhe deu no Natal e a mãe quisera encostar à parede grande, do lado direito da janela, diante da qual crescem a perder de vista as magnólias, os cedros e as tílias. Mais tarde o sol cairá nas suas copas, soltando os odores dolentes e doces a temperarem as essências ásperas, ácidas, a fazer piscar os seus olhos toldados pelas longas pestanas. Leonor prefere a fulva tonalidade da glicínia, que contamina o fundo do jardim com um rubor intenso, trepando pelo muro alto, quase a chegar ao ferro do portão que abre para a mata.
Senta-se na cadeira alta e abeira-se do tampo da escrivaninha onde na véspera cuidara de dissimular o livro, debaixo de papéis e cadernos que tirara da mesa da biblioteca. Antes de o abrir afaga-lhe a capa castanha de pele macia. Lá dentro encontram-se os mapas celestes, tal como lhos mostrara o pai, debruçado sobre eles tardes inteiras na procura de respostas para as dúvidas de ambos.
Folheia uma após outra as páginas preciosas, detendo-se nas gravuras que conhece de cor, na esperança de descobrir nelas um pormenor diferente, na esfera armilar ou no astrolábio de que tanto gosta de repetir o nome, no desenho onde se vê o sol ao centro com planetas girando à sua volta. No cimo de muitos dos desenhos estão figuras de anjos num curto voo parado, dando a ver a toda a largura dos seus braços abertos faixas com frases escritas em latim. Em baixo, pensativa, encontra-se a deusa da sabedoria, com a lira, os livros, enquanto marca equívoca da passagem dos séculos.
Quando se aproxima devagar do fim do álbum, dá-se conta de que a madrugada fizera esmorecer a luz cada vez mais fraca da vela, não sabendo há quanto tempo a distracção a impede de ouvir os ruídos da casa que desperta: os sons abafados vindos do sótão onde fica a ala dos criados, a água que corre do jarro para uma bacia de louça, um objecto caindo no desamparo do chão, o chiar áspero de gonzos a amordaçar o cochicho das vozes à mistura com os frouxos de riso mal contidos pela palma das mãos gretadas, logo seguido de um demorado arrastar de pés descalços, pesados de sono. Escuta depois o estalar dos degraus que levam à cozinha, de onde não tardará a subir o cheiro acre do café amargo, do leite fervido e das natas, das papas de aveia e da aletria, do pão escuro aquecido em cima das brasas tiradas do borralho das cinzas.
Apercebendo-se de como começa a ficar tarde, Leonor fecha a contragosto A Revolução Dos Orbes Celestes de Nicolau Copérnico, escorrega da cadeira, agarra o xaile e embrulha-se nele. Apaga em seguida o que resta do coto da vela, agarra no castiçal com a mão miúda e, silenciosa, corre de volta ao quarto onde Maria ainda dorme, enrolada nas mantas, cabeça debaixo da almofada de penas.
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Desde sempre as mulheres da família dos Távora foram dadas a pressentimentos, a anjos e a cintilações, a negrumes e visões, a premonições, a adivinhamentos e sonhos; dom maligno que, ao longo dos anos tendo trato com as profecias, vêem sem rebuço entretecer a realidade em que vivem com o lado sombrio do seu mundo interior: o quotidiano que habitam, o futuro que intuem, adivinham, antecipando caladas mais as desgraças e os desgostos do que os aprazimentos e as alegrias.
A verdade, aceite por quem as rodeia e de certo modo as teme, é terem conhecimento das raízes de tudo o que nasce e brota das tempestades a montante do nada, daquilo que acontece antes de ter acontecido, evitando todavia passar essa premonição aos outros, neles não desejando acrescentar o receio e a angústia que eternamente cai sobre quem prevê a queda, a morte, a vertigem. Franja de espuma nocturna, obstinada na tentativa de invadir a mente e o coração dos que pressagiam os estigmas da alma, os espinhos do cardo, as silvas da torpeza, o ocaso que a febre levanta nos abismos do peito, as garras do mal gerado por Satanás na sua ronda em torno das mortes e dos partos, no uso de manhas e artes, feitiços e artifícios; insidiosa tentativa de nos convocar, de nos rodear, de nos fascinar, até nos afastar por completo da brancura e da maior pureza, dos caminhos do bem.
Eu, Mariana Bernarda de Lorena, condessa de Atouguia e filha dos marqueses de Távora, jamais soube separar a visitação dos arcanjos da aparição dos negrumes, nem destrinçar a plenitude onde reside o adormentado gosto do mel, do êxtase onde explode o acre sabor a fel e a salitre, salobre e amaro. Travo que guardo na boca desde o terramoto, numa premonição de desgraça vil que de mim não se afasta em momento algum, a tornar pesados e sem remédio os lentos dias arrastados das matinas às completas, de sol a sol rastejando a demorar-se pelos hortos, pelos vinhedos, pelos cemitérios, de rojo pelas sombrias matas onde vigiam as víboras.
Pressentimentos de enredos maléficos que ultimamente não cessam um único segundo, apesar de eu tentar com empenhamento aliviar-me com missas e orações, rezas e terços, leitura de livros místicos, cabeceando de sono madrugada adentro, na vã tentativa de defender os meus e a mim própria naquilo que posso, e nesse sentido usando promessas e velas acesas às santas mais poderosas, exercícios de S. Ignácio, mandrágoras e incenso, água benta e Rosa Divina, esmolas e castigos do corpo, cilícios atados nas carnes macias da cintura. Pobre tentativa de silenciar as vozes que de noite me falam baixo ao ouvido. «Mariana Bernarda!» – chamam-me. E eu sobressalto-me, enquanto elas continuam: «Aproximam-se tempos sem misericórdia, desprovidos de compaixão e temperança: patíbulo e morte, grilhões de degredo, ferros de tortura e prisões fétidas, passarão por ti e encontram-se contidos nos destinos dos teus mais chegados!» Sem forças vou cosendo o choro escondido de quem me rodeia, e diante da senhora minha mãe não consigo deixar de mil vezes indagar agoniada: «Encontra-se Vossa Excelência de boa saúde?» E ela, desconfiando da mesma interrogação repetida infinito, olha-me no precipício dos olhos e, dando conta da minha aflição, contrapõe a sua igual resposta em forma de pergunta: «Qual é o desgosto oculto ou o segredo recolhido que a minha filha tanto guarda?» E eu tento rir, a contragosto, evitando a resposta sustentada pela mais deslavada mentira, e para não a atormentar, em disfarce de invenção medíocre, digo-lhe, sonsa: «Ora, Vossa Excelência tem coisas…», apressando-me a discorrer de seguida sobre mesquinharias da Corte ou da justa apreensão dos jesuítas pelo manifesto ódio do ministro de Estado de El-Rei pela Companhia de Jesus, à conta do qual Sebastião José afastou o padre Malagrida, confessor da minha família. Agravando em muito o desassossego da alma, coração apertado pelos malfadados prenúncios que me assediam, ligando a um sonho de há semanas atrás onde vi o trágico fim dos dias de meu marido, pais e irmãos.
Pavores que pressinto na correnteza de terrores sentidos «tão continuamente que me parece delírio, chegando a levantar-me vezes sem conta da cadeira em que estou assentada, na minha casa, para ir ao oratório dar este recado ao Senhor Crucificado, que nele se encontra: Senhor! Salvação do Conde de Atouguia, seja como for! E isto me acontece vendo este tão moço e com boa saúde; ao menos não tendo nele cousa em que temesse perigo». A tentar não me lembrar continuamente dos profetas da desgraça que neste ano de 1758 pululam em Lisboa, escanzelados, esfarrapados, sujos, olhar iluminado pela alucinação e o desvario, impelidos pelo gosto da crueldade em falas de perdição e loucura.
Na sua sombra escondem-se as serpentes e agem as nigromantes, as benzedeiras e as bruxas, arrastando estas as bainhas desfeitas das saias pela imundície das ruas. Nos sacos e nos alforges carregam as pedras medradas no veneno, escondem as cartas de adivinhação, as bolas de cristal polidas pelo afago dos dedos no adestrar de espelho e na abordagem dos mundos exauridos do além, no contacto lívido com os espíritos. De onde partem – diz-se – os mais desalmados vaticínios, que logo circulam por ruas e becos e colinas, até mesmo por entre as ruínas deixadas pelo terramoto, onde prosperam o negrume brilhante da beladona e os agrestes frios do inverno, ventos de gume em riste entristecendo e assustando a cidade atascada de lama e mau olhado, inundada por medos e pavores desde o tremor de terra. «Superstições colhidas na ignorância» –, comenta com austeridade minha mãe D. Leonor de Távora, quando lhe relato com pinceladas de obscuridade as imagens cruéis, violentas e desgraçadas. De igual modo se referiu ontem a elas a condessa de Óbidos, gracejando acerca da última predição escutada, fingindo eu esquivar-me de levar a sério a sua narração, mas a perder-me já na cerração que logo me obscureceu a alma.
Vaticínios anunciados por esquálidos profetas da desgraça, de cima de improvisados púlpitos, pedregulhos mais altos encontrados nos monturos que juncam as ruas cruzadas em torno do pouco que agora resta do Terreiro do Paço: «Sangue de mártires, de fidalgos e senhoras» vão correr em breve para os lados de Belém, num Janeiro de eclipse, de ventanias e tempestades, a encharcarem as madeiras verdes do cadafalso e as terras, as areias junto do rio, mais tarde manchadas pelas lágrimas e o vermelho dos sangues.
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Vi sair meu marido escoltado pela tropa quando o vieram buscar ao fim da madrugada, estávamos ainda recolhidos. Eu às voltas na cama sem descansar, peito oprimido por uma aflição para a qual não encontrava motivo, cuidando em não incomodar João que a meu lado dormia mergulhado no sono pesado do sossego, embalado pela tranquilidade que até àquele momento fazia todo o sentido. Mas o grande ruído vindo do pátio, junto ao portão da entrada e debaixo da nossa janela, acordou-o, sobressaltado, e sem nada entendermos tomados por pressentimentos sombrios. E logo ele me empurrou com brusquidão dos seus braços, ordenando num tom de voz ríspido, que até àquele instante não lhe conhecia:
– Vai ver das crianças e não as largues.
Assustada, passei à casa de fora, para de seguida ir correndo a tropeçar na camisa comprida, touca com entremeios de renda e folho estreito a escorregar ao longo dos meus cabelos, que já tombavam soltos e desordenados pelas costas. Afastando-me apesar de preferir ficar, temendo sem saber porquê que viessem buscar João, e à conta desse temor lhe obedeci, enquanto escutava o tropel das botas dos soldados subindo a escadaria de mármore à sua procura, sala após sala, até o acharem a vestir-se, a fim de poder enfrentar de modo decente o que pudesse vir a acontecer-nos.
Sem saber o que fazer, tirava Pedro da pequena cama, bracejando ensonado, quando senti Leonor a puxar-me pela manga convocando-me para a sua lividez de cal, os olhos azulados cheios de perguntas, enquanto Maria, descalça e tremendo de medo, se agarrava à minha cintura. Entreguei Pedro à ama assim como as meninas, e estava de volta ao corredor com intenção de regressar ao quarto de onde nunca devia ter saído quando o desembargador Eusébio Tavares, que nesse dia 13 de Setembro de 1758 iria deter igualmente meus irmãos e o marquês de Atouguia meu cunhado, aparecendo ao meu lado a embargar-me o passo, sem palavras mostrou-me a ordem real que o autorizava a prender meu marido, assinada pela Rainha D. Mariana Vitória, que governava enquanto El-Rei D. José se curava das feridas resultantes do atentado até à data mantido secreto e cometido na noite de três de Setembro contra a sua pessoa. Segundo o desembargador, a Rainha ordenava-me, tal como aconteceria com a condessa de Atouguia, minha irmã Mariana Bernarda, a ficar detida na própria casa.
Não tendo coragem na altura para objectar fosse o que fosse, limitei-me a indagar num fio de voz: «Para onde vão levar o senhor marquês de Alorna, meu marido?» Ao que o desembargador respondeu com uma mentira e de olhos no chão: «Para o Pátio dos Bichos na Quinta do Meio, senhora marquesa, onde já se encontram outros membros da vossa família.»
Recuei assustada, mas ao ver João rodeado e manietado pela guarda armada lancei-me num soluço ferido, e afastando os surpreendidos soldados agarrei-me a ele, anelando-me no ninho do seu peito, braços em laço apertado em redor do seu pescoço, sem nenhuma noção do pudor que me devia, outra coisa não sentindo senão aquele desespero inteiro que aos borbotões me transbordava do rasgão aberto no cerne da vida.
– Peço-te calma, meu amor! Peço-te calma! – ouvi-o gritar, afastado de mim à força. E dobrada sobre o corrimão fiquei a vê-lo descer a escada até sair a porta lá em baixo, voltando-se antes a despedir-se, com um demorado olhar triste mas infinitamente frio, onde se recolhia o brilho acerado do gume de uma ardente faca.
Enquanto isto, escondida atrás de mim, Leonor observava o Pai a ser levado aos empurrões cobardes; foi ela que me impediu de cair, arrastando-me primeiro para a casa de fora e em seguida amparando-me até ao quarto onde me deitou na cama gelada. Só bastante mais tarde me dei conta de ela ter agido não como uma menina de oito anos, mas como uma mulher. Lembro-me do seu semblante extremamente pálido e de como tremia ao afastar-me os cabelos da testa encharcada pelo suor frio, ao secar-me na face as lágrimas constantes, ao compor-me no peito o decote esgarçado da camisa rasgada.
Na verdade, pouco guardo dos dias e dos meses que se seguiram, estendida na minha cama gelada de mulher solitária a quem abruptamente lhe fora arrancado sem qualquer motivo o homem amado. De seguida, como se não chegasse, num rasto de negrume vieram todas as outras terríveis desgraças a que julguei esquivar-me pelo lado do meu nada, embora continuando viva. E ao despertar das minhas perdições e torpores, estava a cumprir num convento não sei que pena, dentro de uma clausura que não era minha; num tempo do qual pretendi a todo o custo anular os sinais, os anseios, as pegadas, as vertigens.
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