As Luzes de Leonor
Angelus
Como esperava, Leonor revolta-se, ergue-se de um salto e, voltando-se para o conde de Oeynhausen, ordena agreste:
– Tu não assinas isto!
E quando o irmão e a mãe tentam acalmá-la, ela acrescenta com a sua voz mais dura:
– Vou falar com a Rainha. É bom que o senhor meu pai saiba disso.
†
ANGELUS
És esquiva, indócil,
quase dúctil.
Olhar sempre perdido, corpo alado de uma beleza mágica.
Apesar de saber-te noiva fito-te insistente e fascinado, encontrando-te insatisfeitos os olhos ressentidos, em tons de violeta e de azul ávido; que sem poderem encontrar os meus se perdem longe em devaneios e desvarios cansados, procurando na espuma das ondas e no frio o momentâneo alívio do fogo necessário.
E desse modo ausente, ficas debruçada nos próprios pensamentos, talvez compondo versos que em ti cintilam e a mim sobressaltam, me envolvem e prendem e revolvem, enquanto busco a causa desta falta, fenda e ferida e fosso que entre nós desde o teu início o tempo cava.
Tentando encontrar motivos na fundura dos teus mistérios.
Desmancha-te o vento a ondulação bravia dos cabelos que, tirado o chapéu, já escapam e esvoaçam soltos, enquanto passeando à beira-mar conheces, Sibila, as marés lunares, prevês as tempestades, adivinhas as bonanças, semblante alheado e absorto, a deixares impaciente os dedos longos rodarem em torno do cabo da sombrinha.
À beira da vertigem.
Porque te é a escuridez assim daninha?
Recebendo com tamanho prazer o sol no rosto, que por um brevíssimo segundo pareces cegar de céu e gosto.
Momento exacto em que te descubro, caminhando na minha direcção ainda ao longe, sabendo-me para ti ser invisível, mas padecendo eu por não poder ser outro.
E tu minha única a poderes ser minha?
Na senda do desejo assim agreste e dúplice.
Se tanto me perturbas e confundes no estontear de um susto muito breve, teimando com afinco em quereres a liberdade;
debruçada e febril no poço da secura.
Quem disse que a tristeza te era leve?
Que o saber em ti era doçura?
Crescida no entender, mas demasiado ousada para quem, tomada pelo mundo há pouco tempo, se entrega à revolta em vez de ser prudente, pondo na pressa que tens a inquietude em tudo.
Sôfrega.
Voraz e açorada.
Desse modo lês e escreves, imaginas, desdobrando em ti o sentimento, como quem dos outros se descura e fere, lima as grades, até encontrar as horas da rasura.
Obstinada e dura.
Exibes o saber, de ti fazendo culto, levando-te o destemido coração que ocultas a olvidar preceitos e entraves, sem nunca te deter o abrasado gelo mais perfeito.
É com esse jeito de garça que, sem cuidares fazê-lo, tu me evitas. E eu suspeito que ao correres por dentro da distância que entre nós, quem sabe, não existe, há a memória de uma outra infância.
És esquiva, indócil e indúctil.
Sentada na areia, sobes sem pejo a ponta do vestido a deixares o tornozelo despontar estreito, e em seguida a perna no hesitar dormido da saia de seda amodorrada e mal erguida. E só então, no gesto em que te enleias, com vagares de nardo tiras os sapatos e mais devagar ainda desces as meias. A dares a ver os pés de leite e neve
e à transparência as sinuosas veias.
†
Na véspera de se casarem Carlos Augusto dá-lhe um pequeno bouquet de amores-perfeitos, beijando-lhe às escondidas os ombros que o vestido descobre, evitando no entanto olhar-lhe os seios despidos pelo decote fundo.
Leonor estremece estonteada quando ele lhe colhe delicadamente a língua; tentando adivinhar o que do seu corpo ainda não sabe, e ouvindo-se gemer em surdina, quando mais tarde ele se abeira dela e com a ponta dos dedos lhe separa e entreabre as mãos entrelaçadas em busca da maciez das suas palmas.
Rubor subido às faces em chama, enquanto os olhos se desviam, como se quisessem evitar-lhe a imagem: tão alto e louro, garboso na farda, que se permite afagar-lhe as ancas estreitas e os quadris muito magros.
Sem conseguir iludir o desejo, a vontade de apertar contra si o seu corpo, com uma voracidade tão perturbadora que a faz ficar assustada consigo mesma. Já de madrugada, depois de fechada a porta do quarto, despe-se e deita-se nua de bruços no agasalho da cama, levando os dedos hesitantes aos bicos dos seios.
Anelante.
Coração revolto.
A questionar, sem o saber, o ambíguo significado da inocência.
†
O vestido de noiva encontra-se estendido ao longo do canapé preguiceiro de nogueira talhada e comprido assento de palhinha. A cauda debruada a ouro e rubis roça o tapete de Arraiolos que cobre quase todo o chão do quarto. Sobressaltada, olha a cintilação do fato e aproxima-se descalça, cabelo ondulado solto a tapar-lhe os ombros que a camisa de dormir deixa nus, a tentar ultrapassar, perturbada, a última noite de solteira, afastada dos versos que o desassossego fez suspender a meio, longe da cama solitária e fria.
Debruça-se sobre o vestido do tom entorpecido da ferrugem, bordado a fio de prata, desenho a cheio de pequeníssimas asas que irão voar sobre o seu corpo. Decote trespassado à frente e ao longo das costas por uma finíssima fieira de pérolas nacaradas descendo até à cintura, que contornam para irem entornar-se em seguida na saia direita sobre as ancas, um tudo-nada franzida atrás, estrela de onde parte a longuíssima cauda. Mangas de balão junto dos ombros altos, que se vão ajustando até aos pulsos por estreitas pregas finamente ponteadas.
Precipitadamente Leonor ergue a cabeça e afasta-se, como se toda aquela beleza extravasada a tivesse assustado, com um aguilhão de presságio ruim a avisá-la da impossibilidade do destino por ela sonhado? Ela que sempre combatera a superstição, acreditando ser fruto da maior ignorância, envergonha-se do que sente, tentando encontrar explicação para a tensão dos nervos perturbados. Está bem ciente daquilo que deseja para si, e recuar não recua sejam quais forem as dificuldades cismadas.
Apaga as velas e torna a deitar-se encolhida na cama fria, a fitar o borralho ainda aceso na lareira. E apesar do sabor a medo que lhe seca a saliva, com um imenso vazio mesclado de ansiedade, começa a sentir que a alva tarda.
†
Acaba por se deitar já tarde e dormir sobressaltada.
Mesmo assim levanta-se mal desponta a alvorada por trás do arvoredo que cerca a casa na quinta de Almeirim. Desce até à cozinha em busca de café, que encontra morno numa cafeteira em cima do borralho aceso, onde põe as achas de lenha seca que descobre ao lado esquerdo encostadas à lareira, cercada de azulejos azuis e brancos com motivos de caça. No resto das paredes caiadas estão penduradas as panelas, os tachos, as frigideiras de cobre.
Ao fundo, as mesas de mármore grosso lascado e o fogão de lenha em ferro negro. Leonor aperta mais o robe e, tremendo de frio, aproxima-se a querer sentir o calor das chamas que começam a trepar em espiral. Deita o café numa caneca e senta-se na pedra tépida frente ao fogo que já crepita. Antes, porém, sopra as velas do castiçal de prata com o qual iluminara os corredores, as escadas, a copa onde não chega a luz daquela incipiente madrugada amordaçada pela noite.
Escuta a chuva agreste, que se não parar nas próximas horas estragará a festa do seu casamento com Carlos Augusto, que tantas penas e tamanhos desgostos arrastara. Encosta a cara à doçura escorregadia do cetim da camisa que lhe cobre os joelhos e sorri para si mesma, simultaneamente perturbada e vitoriosa, apesar de a insónia poder indiciar o contrário.
Na casa adormecida, escuta ao longe o ruído dos criados que se levantam, como se fosse um dia igual aos outros, mas ainda sozinha passa mentalmente em revista o que ajudara a alindar: as salas decoradas na véspera mergulhadas num manso perfume de flores diversas, dispostas em jarras de vidro e nos jarrões da China, misturando os seus odores de cravos, rosas e crisântemos, mais intensos que os dos jacintos e os das petúnias, matizados com o toque de delicadeza da essência dos lírios e das túlipas, que por sua vez se submetem ao cheiro febril dos gladíolos, a contrastar com o aroma inexistente das orquídeas, mergulhadas em taças baixas, tal como os amores-perfeitos e as violetas,
a estremecerem sempre que o arrepio do vento, esgueirando-se pelas frinchas das portadas, consegue vencer os pesados cortinados de veludo e voa para dentro de casa.
As mesas postas parecem alongar-se sob as toalhas de linho bordado, com entremeios de renda larga, passadas com o ferro muito quente. Sobre elas, os copos de cristal alinham-se na sua pureza transparente diante dos pratos, das molheiras e das terrinas da Companhia das Índias. Nos trinchantes encontram-se os longos garfos ao lado das facas de gume afiado e nos aparadores, sobre os naperons estreitos de bainha aberta, enfileiram-se os pesados talheres de prata, à espera de ocuparem os seus lugares ladeando os pratos. Dentro dos armários de portas envidraçadas estão os jarros brilhando, ainda sem vinho e sem água.
Nas salas mais pequenas, onde serão servidas as sobremesas, as mesas foram postas com a baixela de prata cinzelada, e os cálices pequenos de licor junto às taças de champanhe. Em cima dos bufetes de carvalho escurecido e entalhado irão ficar, ao longo das suas prateleiras, os doces vindos de Lisboa; quase todos feitos pelas cuidadosas e habilidosas mãos das freiras, e que ela mesma encomendara. Primeiro, o manjar branco de Chelas de que tem saudades, e em seguida – permitindo-se levar pela sua gulodice habitualmente controlada –, numa amálgama e num atropelo: os rebuçados de ovos das madres Flamengas, os queijinhos-do-céu das irmãs da Esperança, o arroz-doce das Albertas, o caramelo das Mónicas, os bolos folhados das freiras de Carnide. O leite-creme, os ovos-moles e outros tantos mais, esquecida do que escolhera, entregando o resto da boda à direcção da mãe, enquanto o pai, que se alheara ostensivamente de tudo, cenho franzido e maus modos, deixara a Pedro a escolha dos vinhos.
E amodorrada que continua junto da lareira,
Leonor escuta como que em sonhos os passos arrastados de D. Brites Fernandes, a antiga dama de companhia de sua avó Leonor de Távora, que aparecera para ajudar na festa do seu casamento, numa espécie de embalo derradeiro,
braços menos robustos do que antigamente, quando a erguiam para a apertar ao coração então descansado.
†
A madrugada rasga o negrume nocturno e parece querer firmar-se na ventania e na chuva que fustigam as sacadas e as portas das varandas, ensopando a terra lá fora onde já se formam grandes charcos.
Seca as lágrimas que, sem dar por isso, lhe marejam a face e sorri perante o espanto de D. Brites Fernandes por vê-la ali sentada frente à lareira acesa, mãos a roçarem o fogo perto do qual se amolenta ainda. Deixa que ela lhe afague a cabeça, a alisar-lhe os cabelos encaracolados rolando pelas costas no seu tom de mel profundo, pondo ambas a pressa de lado por saberem ser a última vez que se encontram.
Leonor de Távora ronda por perto: esquiva, ríspida, grácil, ágil, pressionando nervosamente as memórias que as duas acalentam.
Quando as criadas chegam, as mais velhas menos lestas que as mais novas, meneando estas as ancas ainda tépidas da quentura dos lençóis, e as cozinheiras ruidosas, de riso alto, já elas se separaram, e Leonor vai fugindo, galgando a dois e dois os degraus da escada. Lá em cima, na penumbra esfiapada do quarto, estendido sobre o canapé preguiceiro, espera-a o vestido de noiva cor de ferrugem, bordado a diamantes, rubis e pérolas raras.
†
Sobre a terra alagada pela chuva que continuara a cair toda a manhã construíram uma espécie de passadeira com traves de madeira que parecem unidas, e que levam da entrada da casa até à estreita porta da ermida por onde os convidados entram agitados, a quererem abrigar-se do vento que arrasta consigo a água como um chicote. Chuva pesada e fria que sentem ser de golpe e gelo a encharcar os braços e os colos nus das mulheres, apenas envoltas em longas echarpes a tapar os decotes onde o ouro e as pedras preciosas brilham.
Carlos Augusto viera demasiado cedo.
Leonor chegará tarde.
Ele fica esperando por ela ao lado do altar, mãos atrás das costas amparadas uma na outra, como que a susterem os braços compridos; a farda sublinha-lhe as ancas estreitas, a lisura do ventre, a magreza do peito. Olhar de um azul diluído, fixo na imagem de Nossa Senhora da Conceição – manto anil burilado a ouro até ao regaço, pálpebras descidas numa mansa tristeza – rodeada por anjos de talha dourada voando desde o cimo até aos seus pés, com coroas de folhas e flores entretecidas.
Carlos Augusto, desatento, compara o louro dos cabelos deles com o dos seus, sobressalto a descompassar-lhe o coração, não escondendo de si próprio quanto o sobressalta e espicaça enlaçar a sua vida com a da filha mais velha do marquês de Alorna. Reconhece ser um homem da temperança mais que do volteio, melhor da terra que do fogo. A chama alta sabe vir de Leonor, junto da qual sempre se incendeia, e isso fascina-o.
Quere-a e teme-a, num único anseio.
A beleza perfeita da cantata de Bach, escolhida por ela para ser tocada na cerimónia do casamento, tira-o do seu anseio deixando-o de novo calmo, levado já pelas vozes dos cantores a encherem a capela, toda iluminada por dezenas de velas colocadas entre as flores níveas que parecem nascer, brotar de todos os lados, o cheiro do sebo disfarçado pelo odor adocicado das plantas.
Carlos Augusto de Oeynhausen inquieta-se à medida que os minutos passam.
Na sacristia húmida, sobre a grande mesa de madeira velha está aberto o livro que os noivos e os padrinhos irão assinar; e junto dela o padre Maine, já paramentado, espera pacientemente para celebrar o casamento que sabe não ser do agrado dos pais da noiva, sobretudo do marquês de Alorna que se recusara a mandar tratar dos banhos ou mesmo a firmar a licença, e não irá levar a filha até ao altar.
Espreita pela frincha da porta pesada rangendo nos gonzos enferrujados, de onde consegue ver o conde de Oeynhausen perto do altar, muito alto e hirto na sua farda de gala. Logo na primeira fila, numa cadeira de braços forrada de cetim púrpura, senta-se o enviado de Suas Majestades D. Maria e D. Pedro, ambos padrinhos de D. Leonor de Almeida. Mais atrás, nos bancos corridos de lustro puxado, encontra-se a família da noiva, alguns dos seus convidados, e amigos do noivo, que tentam secar com os lenços as cabeleiras e os ombros. Destacadas e ainda vazias estão as cadeiras de genuflexório com assentos de veludo, a serem ocupadas pelos donos da casa.
A de D. João de Almeida permanecerá vazia.
O padre Maine fecha os olhos para melhor escutar a música que tão bem lhe faz à alma. Num andar vagaroso torna a sentar-se no cadeirão de madeira de cedro, ao lado do arcaz de pau-santo que ocupa uma das paredes caiadas da pequena sacristia.
†
As portas pesadas da capela estão abertas para trás.
Com um ramo de açucenas molhadas pela chuva bem apertado entre os dedos nervosos das mãos enluvadas, Leonor entra pelo braço do irmão, sentindo-lhe a amenidade jovial através do tecido da casaca de fazenda macia.
À sua frente só descortina vultos, mas mal entra na penumbra distingue Carlos Augusto junto do altar, direito como uma haste, olhos semicerrados, boca trémula de expectativa. A espada, que parece deter o luar no brilho da sua bainha, desce-lhe ao longo de uma das pernas altas.
Sentindo embora o chão deslizar debaixo dos pés encharcados, Leonor continua devagar pela nave estreita, enquanto a cantata de Bach a envolve, rendilhada e translúcida, diáfana e simultaneamente vibrante, num hino à eternidade que ela acha ser-lhe devida, pois de tanto sonhar com a glória, de tanto desejar a imortalidade, por vezes julga estar a sangrar por dentro.
De súbito pára, parecendo hesitar, um movimento estremecido a formar-se já ao longo do corpo: ombros tensos, quadris inteiriçados, pescoço de cisne, busto e braços ligeiramente para trás, como quem vai começar a voar, pernas num fugaz simulacro da fuga que a custo suspende.
†
Carlos Augusto apercebe-se da chegada de Leonor pelo silêncio que se faz à sua volta. Mesmo a música parece diminuir de intensidade, deixando passar por momentos o ruído da tempestade a fustigar a porta, que depois de a noiva entrar fora encostada.
Ergue depressa a cabeça na vontade de vê-la, a colher-lhe o olhar que se esquiva. E repara como caminha devagar, medindo os passos, corpo delgado no equilíbrio de quem baila, até chegar a seu lado.
Mas antes pára, mais parecendo um pássaro a debater-se, para logo continuar amparada ao braço do irmão.
Estende-lhe a sua mão de noivo, enluvada de branco, a tremer um pouco, que ela aceita e onde se firma sem convicção e sem peso: mais o gesto do que o acto.
Ajoelhados nos genuflexórios forrados de veludo grená, ficam em sossego diante do pequeno altar. Cada um deles atento ao bater do próprio coração e à respiração um do outro.
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Maria vê-a dar um incerto passo em frente, indo fincar os dedos no parapeito de pedra húmida da janela debruçada sobre o parque, e ficar a olhar a chuva a cair com força empurrada pela raiva do vento, abanando os ramos despidos das árvores que ladeiam o jardim, alagando os canteiros e o buxo aparado rente.
Ao fundo da sala, um quarteto de músicos toca Haydn, compositor que Leonor escolhera pela sua imensa e serena perfeição,
de notas e sons lapidados em torno da harmonia.
Depois da cerimónia breve e simples na capela construída do lado de fora da casa, unindo-se e separando-se ambas num mesmo traçado interno, há a boda, a festa, numa alegria um pouco turvada pela ausência do pai.
Olha-a de costas, no seu belo e estranho vestido cor de ferrugem, ouro, diamantes, rubis e pérolas nacaradas, e acha-o demasiado delicado para os rigores de Fevereiro, embora as chamas altas e fulgentes das lareiras acesas em todas as salas subam vigorosas e diligentes pelos toros grossos e em torno dos odorosos ramos de tília.
Ao aperceber-se do seu pescoço, colo e ombros a descoberto, Maria arrepia-se, e ao mesmo tempo apercebe-se estar Leonor a tiritar de frio encostada aos cortinados de veludo que de certo modo impedem os convidados de a verem em lágrimas.
Sem entender qual possa ser o motivo do súbito descontrolo da irmã, imprevisível como sempre, Maria não hesita mais e aproxima-se devagar do sítio onde ela se esconde e, sem palavras desnecessárias, abraça-a de encontro a si já ao abrigo dos cortinados pesados.
Em silêncio as duas.
E quando Pedro as descobre, admirado, Leonor desenreda-se do afago da irmã, roda sobre si própria, sacudindo impaciente os cabelos que lhe cobrem a face.
Depois, segura e firme, ergue as saias, desse modo desviando a comprida cauda do vestido que, enquanto ela se afasta sorrindo, arrulha em torno dos seus passos.
†
A camisa de dormir está estendida aos pés da cama, bainha delicada a roçar o tapete. Beleza ensimesmada à luz das velas na sua brancura de túnica de vestal, a atestar a pureza, o corpo intocado, a rosa intacta da vagina jamais entreaberta. Subida e fechada da cintura ao pescoço, com pequenos botões redondos de madrepérola rosada, nas suas casas abertas no peitilho bordado a ponto de cruz.
Dispensada a presença da mãe, de Maria e de Teresa, de quem não quisera outra ajuda senão a do desapertar-lhe o espartilho hirto, atilhos cruzados nas costas e ferrados sobre a carne, sufocando-a, magoando-a, impedindo-a de respirar. Este é o único instante que Leonor tem para estar só naquele dia.
Deixa tombar a terceira saia de sombra no tapete árabe, do qual sente a macia rugosidade sob os pés cobertos só com as meias de seda – a primeira e a segunda ficaram enrodilhadas lá atrás, perto da cadeira onde, depois de despido, tombara igualmente o vestido de noiva, ainda tépido do calor da sua pele. O frio do inverno rigoroso magoa-lhe o corpo quase nu, que deveria tapar e que em vez disso expõe. E ao pegar na camisa de noite, descobre-lhe uma racha aberta abaixo da barriga: buraco cuidadosamente costurado e que a mãe evitara mencionar.
Envergonhada, deixa-a deslizar pelo corpo trémulo, braços erguidos para ela descer coleando, indo em seguida alisá-la nas ancas. E a fresta mal encoberta pelo linho levemente franzido, lá está no lugar certo: bem perto do sítio onde se unem as pernas, formando um triângulo invertido. Leonor volta-se e corre para o quarto de vestir onde entra na pressa de se ver no espelho alto que a reflecte por inteiro, o rubor a tingir-lhe a face, a raiva impotente a acender-lhe o olhar.
É então isso que se espera dela – pensa. Obediência ao uso daquela racha caseada a seda, para cumprir uma obrigação que tem de ser vergonhosa e árida, enquanto se tranca e resguarda para sempre do prazer.
Tanto fechando a mente como o resto do corpo.
Sentindo-se vazia, oca, senta-se no tamborete forrado de damasco sanguíneo frente ao toucador, no tampo do qual está a jarra verde que Teresa lhe dera quando ela e a irmã saíram do convento de Chelas. Mas logo Leonor se levanta num repente zangado, despe a camisa que atira para longe, e isso parece acalmá-la. Inclina-se na banqueta para tirar as ligas, em seguida as meias, e erguendo de novo os braços despe a curta camisinha que ainda resta, a cobrir-lhe os seios. Depois nada mais há que a tape, que a esconda, que a disfarce.
Sem olhar para o espelho, toma da mesa de toilette um frasco de cristal que desenrolha, e na palma da outra mão deixa cair três gotas de essência de nardo para perfumar os seios de mamilos largos. E só então sopra as velas uma por uma, e regressa ao quarto onde Carlos Augusto, acabado de entrar,
a olha maravilhado.
†
A mão de Carlos Augusto, ao afagar devagar os seios pequenos e níveos de Leonor, fazem sobressaltar novamente nela o corpo despido e insatisfeito.
Os lençóis de linho e rendas de Bruxelas amarrotados têm manchas de sangue de um vermelho-vivo, onde ele torna a deitá-la ao comprido a receber o cheiro da sua nudez.
Manso odor torpe de flor decepada.
Tombadas do véu de noiva ou do vestido enrodilhado e largado à pressa na véspera à noite no chão do quarto,
as gardénias brancas
fenecem com vagares de inocência perdida.
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