As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 133 de 289

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As Luzes de Leonor

Diário

Pareceu-lhes ser este o modo mais fácil de convencer D. Maria da urgente necessidade de um deles ser enviado a Florença avaliar a presumível futura noiva do Príncipe D. João, que se mantém indiferente aos ensombramentos que se vão adensando em torno do seu casamento, distraído com as reais caçadas na Tapada de Mafra onde por sua vontade passaria os dias, desafeiçoado da Corte. Ao Príncipe da Beira é-lhe indiferente a noiva escolhida, desde que possa continuar a levar a vida o mais afastado possível das obrigações do Estado, que em boa verdade nem lhe dizem respeito.

D. Diogo de Noronha, que dos participantes nas reuniões é sempre o mais desinteressado, mantendo-se num silêncio muito perto da sobranceria desdenhosa a deixar claro que a sua presença se deve unicamente à vontade e ordem do marquês de Angeja seu Pai, naquela tarde, pelo contrário, apresenta um inusitado empenho na maquinação do expediente com vista a abalar a confiança depositada pela Rainha no conde de Oeynhausen.

 

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DIÁRIO

 

Como seria de esperar, Carlos Augusto prefere o talento moderado de Salieri, enquanto eu me deslumbro com o génio exaltante de Mozart, que defendo nos salões de Viena onde as pessoas se dividem entre os dois.

A severidade institucionalizada do primeiro choca com o excesso explosivo do segundo.

Mozart compõe com o júbilo de quem se compraz consigo mesmo em sensualidade e riso, enquanto Salieri usa o poder que lhe confere ser compositor da Corte, para intrigar – dizem – junto do Imperador contra aqueles que lhe ameaçam o lugar.

No salão de Maria Wilhelmine de Thun prefere-se Mozart, mas no de Metastásio, pouco antes da sua morte, defendia-se Salieri, de quem sempre o poeta fora amigo e protector, ajudando-o a chegar a director da Ópera.

Tendo como princípio o hábito de dizer aquilo que penso e sinto, não tento esconder ou iludir a minha preferência por Mozart. O falso comedimento não é o meu forte, e sempre detestei intrigas e invejas.

A mediocridade enfastia-me.

Prefiro a ousadia, o travo do desafio, o esplendor criativo.

Viena, 24 de Janeiro de 1793

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Arguto, Aires de Sá e Melo fita D. Diogo com curiosidade, sem conseguir adivinhar o que poderá motivar aquele seu inesperado entusiasmo.

O também secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra está longe de imaginar que o filho do marquês de Angeja não consegue tirar do pensamento o rosto docemente melancólico da Infanta Mariana Vitória Josefa: tez morena de veludo, olhar de ensombramento entornado e dolente. Dom Diogo sente ainda na mão a tepidez dos seus dedos afuselados, durante a enleada despedida de ambos à porta da Sala da Música do Palácio de Queluz, no final do concerto da véspera.

A partir desse instante, passara a considerar-se o primeiro interessado no conluio que poderá pôr cobro às negociações do casamento do arquiduque Maximiliano Francisco, irmão mais novo do Imperador D. José II, com a Princesa portuguesa.

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Depois de ter lido com atenção a carta enviada a Leonor pelo duque de Lafões, o conde de Oeynhausen não pode mais ignorar a intriga ardilosa preparada contra ele na Corte portuguesa. Mas, por uma questão de honra, é-lhe impossível interromper as negociações entabuladas há anos com o Imperador.

Pesa-lhe na consciência o facto de ter voltado a sentar-se às mesas de jogo e as aventuras amorosas entretanto arranjadas; mas jamais o ter descurado as funções nas quais fora empossado, nem a falta de empenhamento em conseguir aquilo de que a Rainha D. Maria o incumbira: a aliança do Reino de Portugal com a Casa da Áustria.

Apesar de ser sobretudo um militar e de se sentir deslocado no papel de embaixador, Carlos Augusto sabe que, com os parcos meios disponibilizados, ninguém conseguiria fazer mais nem melhor do que ele. Mas também sabe que em Portugal sempre será visto como um estrangeiro de quem se desconfia, apesar de ter abjurado a sua fé e casado com a filha mais velha do marquês de Alorna, sogro que nunca levantará um dedo para o defender.

Sentado no seu gabinete, Carlos Augusto maldiz a hora em que aceitara o cargo de embaixador em Viena.

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Maria pára junto dos cravos-da-índia, livro apertado ao peito.

A saia do seu vestido de tafetá azul-hortense, subitamente enfunada pela aragem agreste do inverno, vai prender-se um pouco mais adiante num dos aguçados espinhos do roseiral fulvo; estreita álea que em seguida toma, depois de desprender com cuidado absorto a orla do fato. Cabelo negro e farto solto em torno do rosto lívido, que em parte oculta, como se mesmo nos momentos em que se encontra sozinha pretendesse esconder a mácula, as marcas da violência de novo sofrida; fúria por parte de quem, sem piedade, tira prazer de a maltratar, em vez de a amar e defender como diante do altar se comprometera.

Com os dedos onde a aliança dança na magreza da mão pálida, limpa as lágrimas que não se cansam de correr, e tenta tomar gosto do cheiro a madressilva do caramanchão debaixo do qual o pequeno banco de azulejos onde se senta é uma mancha fluida àquela hora da tarde.

Quisera esquecer o presente demasiado árduo para a fraqueza do seu corpo cada vez mais débil, tolhida pela própria delicadeza diante do tempo que se limita a ver passar, implacável, enquanto vai ficando para trás, já sem esperança de um dia poder vir a conhecer a felicidade, tão almejada por si e por Leonor, precoces prisioneiras no convento de Chelas do qual ironicamente hoje sente falta.

Maria suspira de infelicidade,

resignada porém à parte da vida que lhe coube. No seu colo está pousado e entreaberto o volume da lírica de Camões, do qual o vento áspero se encarrega de ir desfolhando as páginas de onde desliza a carta enviada pela irmã, que tal como as anteriores irá reler até sabê-la de cor.

Para si Viena não passa de uma miragem.

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Leonor sai da tina envolta numa ligeira neblina de nardo e rosas; deixa-se envolver pela toalha com que Thérèse a cobre, entorpecida ainda pela morbidez da água quente nublada de sais onde estivera mergulhada.

Fita-se no grande espelho, tão esguia e alta assim despida, reflexo toldado pelo vapor, ligeira neblina que lhe ensombra a imagem desfalecida na luz ambarina; olhar que em seguida se detém com comprazimento nos delicados frascos das essências, na transparência da camisinha de cambraia tombada ao acaso na cadeira de vestir, onde se assemelha a uma orquídea de estufa.

Depois de ter dispensado Thérèse, começa a vestir-se: as culotes brancas com bainha aberta, as meias de seda a deslizarem ao longo das pernas num arrepio dormente. Entontecida, pára hesitante, nua, a tiritar de frio, apesar do calor das chamas crepitando, que sobem pela delicada madeira de tília a encher de minúsculas estrelas a lareira de mármore.

Sentada e despida,

Leonor une os joelhos a tomarem o brilho dos ramos em brasa. Um lume delicado trepa e cresce, abrindo-se em leque frágil, para de seguida se desmoronar em cinza.

†

Carmen, duquesa de Alba, conhece Leonor em casa de Anna Maria, condessa de Zuchy, durante um almoço oferecido a Mozart, de quem é aluna entusiasta.

A silhueta esguia e o olhar de anil assombrado da portuguesa atraem-na desde o instante em que a viu pela primeira vez num dos bailes do Palácio de Schönbrunn: seios pequenos e recatados no decote do vestido de seda púrpura, braços pálidos, com um toque de morbidez nos pulsos estreitos onde rolam soltas as escravas de ouro.

Culta, peremptória e ousada nas ideias e opiniões, Leonor de Almeida teima no entanto em guardar de si uma distância altiva na qual se resguarda. Esquiva e fugidia, o seu sorriso enigmático de profetisa encanta-a, enquanto a expressão sonhadora do seu rosto longo, onde a boca é uma pequena serpente ardilosa, a convoca sem remissão.

Disseram-lhe que faz poesia.

E é pelo caminho dos versos que elas se aproximam e se tornam amigas.

†

Leonor deleita-se com a vida,

um vaso de petúnias à cabeceira da escrita.

Para ela não existe nada mais eterno que os versos: desvanecem, esvaem-se, para retornarem de seguida;

florescem e acalmam-na.

A melancolia acontece-lhe.

†

Poeta da minha alma

Viena irrita-me o coração e atormenta-me a criatividade. Sinto-me só e talvez por isso vos lembro tanto, que chega a ser um tormento imaginar-vos longe e indiferente; apesar do olhar brilhante que pousastes em mim naquele princípio de noite no salão de Madame Necker. Ignorastes-me, então, a vingardes uma falta que não é minha, como bem sabeis. É nos poemas que vos recordo, de Portugal trouxe alguns comigo, escondidos entre as páginas de livros e cadernos.

Neste momento, Filinto, de vós ignoro quase tudo. Com voz velada, indagastes-me um dia, na grade do convento de Chelas: «O que é a lembrança de um corpo que não se teve?» Passados que foram tantos anos de mudança em nossas vidas, creio poder acrescentar a estas vossas palavras de perturbação as minhas, hoje desgarradas: «O que é a lembrança de um corpo que nem sequer se viu, e apenas ao de leve se afagou em disfarce, sentindo o galope do coração disparado no peito?»

Fico cogitando sem saber, se acaso tivesse tido a ousadia de vos responder deste modo, que gelo se teria quebrado entre nós? Que fogo vagaroso se teria ateado até se transformar num incêndio? Desfeita a esperança, o curso do desamor segue, exangue, roendo a carne até ao próprio nervo, a tornar-se em fervor e tempestade. Dela colho a aridez amarga na minha boca, fazendo lembrar o gosto assustador de um veneno sem antídoto.

Quem sabe, afinal, de que tecido são feitos os amantes? Ovídio, que tanto falou de amor, suspeitou ser maior a paixão sempre que alimentada pelo fogo da distância.

Mas não são os meus receios feitos da matéria desse dilema. Medo tenho da avidez que em mim por vezes se precipita, vinda não sei de onde. Escuso-me a entender esta ânsia, este revoltoso desacato que sempre clama por mais Luz. Afinal, aqui estou gelada à minha própria beira, conhecedora de quanto mereço outra sorte.

Sonhei, confesso, com um voo mais alto.