As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 219 de 289

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As Luzes de Leonor

Diário

– Ai, senhora condessa, que eu ainda me lembro dos tempos do terramoto, desgraças que me contaram de Lisboa, Deus Nosso Senhor nos livre!

Mas Leonor recorda antes o Ebro, a tentar deter-lhe os passos com o seu caudal transbordante.

Rios que a perseguem ou que ela persegue desde menina.

A insónia chega e fica, fincando-se por trás dos seus olhos pensativos, olhar velado numa maciez de seda, tentando perceber onde se bifurcará o destino que lhe coube e passará a tornar-se em sorte que ela mesma construirá.

Com a testa encostada aos vidros da janela, Leonor fica ouvindo a chuva a cair no interior das trevas que a noite semeia, até de madrugada.

 

†

DIÁRIO

 

Tão pouco contentamento me dá a vida que levo, que me desalento por dentro da fadiga, com preguiça de lutar por aquilo que pretendo:

o conhecimento,

a política,

a poesia.

De França deixaram de me chegar notícias, nada mais sabendo de Théroigne depois de ter sido internada em Salpêtrière. Nem de Germaine de Staël, nem de Sophie de Condorcet, nem de Filinto Elísio. Apenas Delille continua a escrever-me. Saturada deste abandono, deste achamento entorpecedor em que me encontro, começo a pensar em viver em Lisboa.

No entanto, mantenho-me perturbadoramente imóvel.

Alimentando-me apenas da memória do mundo.

Almeirim, 30 de Janeiro de 1795

†

Se há noites em que a simples hipótese de deixar Almeirim a aflige, mal nasce o dia a ideia de partir empolga-a.

Levando-a por fim ao acto da viagem.

A enredá-la com os seus múltiplos afazeres, entusiasmando-a com a azáfama, com a excitação das meninas mais velhas, restolhando segredos uma com a outra, e a sonsa placidez de Luiza e de Henriqueta que, amuadas com a decisão da mãe, acabam por ir chorar enroscadas no colo de Thérèse. E Josefa, que desconfiada por vê-las de partida se benze dividida entre o alívio e o desgosto, queima incenso pelos corredores e salas, ervas colhidas durante a alva nas funduras das matas.

– Saia o sujo e o ímpio! O mau olhado e o Demo! Arrede Deus as almas do Inferno! – vai rezando baixo, enquanto faz as malas de levar as roupas do corpo, depois os baús dos mantéis e as arcas das louças e dos vidros, saquinhos de pano cru cosido com ponto dobrado onde escondera incenso e rosmaninho, mas também feitiços de pequenos ossos e asas desmembradas de passarinhos, com o intuito de impedir os bruxedos, quebrantos e outras desgraças que, segundo ela, podiam vir a desabar nas vidas de todas.

Os livros guarda-os Leonor com as próprias mãos e cuidados, uns sobre os outros, folhas e capas alisadas, alinhados em grandes caixotes, contados e marcados com números, temerosa como sempre que lhes possa acontecer o mesmo que à sua biblioteca desaparecida quando da ida para o Porto, recém-casada. Por certo desviada por quem a achava ser por demais apegada à leitura e à escrita.

Ao vê-los arrumados no carro, Leonor, continuando suspeitosa, manda no último instante levar para o seu lado na carruagem a caixa de lata onde fechara a cadeado os cadernos, o tinteiro, o areeiro e as penas, junto com poemas e outros escritos. Mesmo assim, nervosa, pousa-lhe a mão direita em cima.

Aqueles são dias de mudança e de nervos à flor da pele. Onde não se vislumbra ainda nenhum indício da aventura, da paixão, do tumulto, para os quais inexoravelmente

a encaminha o destino.

†

As meninas cheiram a lagartixas, a ervas cediças, a folhas caídas, a musgo, a húmus. Vestidos de cassa e rendas, peitilho de bordado inglês sujos de terra.

Quando as criadas vêm misturar o seu chamamento aos gritos de Thérèse e de Josefa, fazendo uma espécie de trança estridente a subir nos ares por entre o calor que começa a estilhaçar a manhã, as crianças fogem mais depressa pelos caminhos de gravetos, aguilhões e cardos, a esconderem-se por trás das árvores altas do bosque, muito para além da casa. Só parando quando se julgam suficientemente longe para não serem encontradas:

Frederica, grande demais para aquela aventura mas solidária com as mais novas, de respiração opressa, aquieta-se sentada à sombra fresca de um cedro. Encostada à aspereza do tronco, dá-se conta das pernas arranhadas pelas sarças, que as saias por ela erguidas deixam ainda mais vulneráveis.

Luiza, emudecida pelo susto, encolhe-se à sua beira, a pequenina mão direita sobre os lábios que aflora com a ponta da língua seca pelo vento, que enquanto corria julgara ter entrado todo às golfadas pela sua boca mínima. E cheia de medo fica imóvel, a olhar fixamente o lacrau ameaçador que passa vagaroso junto aos seus pés doridos.

Henriqueta, deitada de costas na folhagem ressequida, escuta o canto das cigarras e dá-se conta do voo planado de um açor no céu azul-da-prússia.

– Meninas! Meninas! – continuam a chamá-las.

– A senhora vossa mãe está-vos esperando! – acrescenta Thérèse com o seu inconfundível acento francês. Mas elas somem-se na sombra, firmes na recusa de entrarem nas carruagens e abandonarem Almeirim de regresso a Lisboa, onde irão passar dias intermináveis trancadas em casa.

Sentadas na própria preguiça.

– Henriqueta, Luiza, Frederica apareçam já! – interrompe inesperadamente a voz comedida da mãe.

As crianças reconhecem-na e estremecem, sabendo que por trás daquela aparente moderação se encontra a zanga desabrida; e instintivamente retrocedem mais ainda para dentro da mata, silenciando a respiração. A sentirem na pele a rudeza da urze, a dureza das pedras e o intenso perfume da malva-rosa, da qual vão arrancando, nervosas, as flores rosadas e brancas, esmagando-as ou dobrando-as pelas curtas e vulneráveis hastes.

Meninas magras e trigueiras, um pouco tristes.

Olhos suspeitosos mas acesos, ainda selvagens embora já perto de passarem a ser de entrega aos hábitos e aos costumes: às regras que dobram e submetem as mulheres, acabando estas por ceder às ordens, aos ditames, aceitando a submissão. Como está a acontecer com Juliana, que se recusara a participar na fuga, preferindo o manso e reconfortante calor da cama onde sonha com Lisboa de que tanto gosta.

Impávida, Henriqueta cospe nos dedos uma saliva encorpada e viscosa e começa a limpar os arranhões, sangue a ressumar na pele esfolada que as meias descidas e as saias erguidas expõem; entretida a olhar os tornozelos que lhe ardem por os ter roçado nas urtigas-queimadeiras.

Luiza, porém, cheia de fome e de sede, caracóis desfeitos, canudos desfrisados, os laços do cabelo e do vestido perdidos na corrida, os joelhos feridos das quedas, a pele da face vermelha e inchada da urticária, sentindo cada vez mais medo, começa num choro desabalado e silencioso de que se envergonha, sem no entanto conseguir escondê-lo das irmãs que a encaram com desprezo, rostinhos peganhentos luzindo de suor escurecido pelo pó, lambuzados dos bagos dos arbustos e do sumo das amoras selvagens que todas comeram.

– Medricas! Medricas! –, entoam em tom de ameaça.