As Luzes de Leonor
Caderno
Inconformadas, como sempre.
Ambiciosas, determinadas e raramente amáveis.
Imprudentes e fortuitamente ternas.
Ao mesmo tempo fortes e vulneráveis.
No entanto, jamais Leonor esteve tão perto de abandonar tudo do muito que a aprisiona ao passado: destinos, ramos e lianas, raízes e caules, princípios e família ou mesmo a pátria.
Nunca se encontrara tão perto de mudar a sua vida.
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CADERNO
Voltei a debruçar-me sobre os escritos de Voltaire, tornei a ler Du Contrat social de Jean-Jacques Rosseau. Sem se conhecerem estas obras jamais se entenderá a realidade que hoje se vive em França.
Em contrapartida, Olympe de Gouges perguntou-me ontem ao sairmos juntas da Assembleia Nacional, enquanto caminhávamos por Paris, se eu conhecia o Pequeno Oratório de Santa Clara… E vendo-me sem voz de admirada que fiquei, perguntou-me, rindo:
– Julgavas que eu só lia obras revolucionárias?
E acabou por me confessar o seu gosto escondido pelos poemas de Teresa de Ávila, lidos num pequeno volume herdado de sua mãe. Os filósofos e os poetas partilham muitas vezes os mesmos trilhos… Sobretudo, porque podem ter respostas que condenam ou salvam.
Germaine de Staël deu-me a ler versos de um jovem poeta alemão de nome Hölderlin; são dele estes versos fascinantes:
Próximo e difícil de apanhar é Deus.
Mas, onde ele está, o perigo cresce aí.
O que salva também.
Paris, 1789
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Assiste com interesse, sem disfarce, nos balcões ou nas galerias, às sessões da Assembleia Nacional. No início deixava-se acompanhar por Aimée de Coigny ou por Germaine de Staël, mas logo começara a preferir ir sozinha, coração a desandar-lhe no peito e olhar de assombro. Curiosa e ávida, debruça-se ora das balaustradas, ora dos terraços, ora mesmo do cimo das escadarias, dedos a brincarem nos corrimãos de madeira ou de mármore.
Agora vai quase sempre com Théroigne, a segurar-lhe na mão enquanto esta aguarda subir à tribuna; se por acaso encontra a princesa de Hénin, que frequenta a Assembleia e os clubes das mulheres revolucionárias na companhia da sobrinha, esquiva-se às suas conversas desinteressantes, encantada com o desaforo das palavras tornadas lume das cidadãs anónimas que ela gosta de ver excederem-se, exaltarem-se, ultrapassarem-se na pressa de encontrarem uma linguagem própria, a fim de expressarem o que lhes vai na alma e no querer, na vontade indómita.
Muitas delas em luta para que as mulheres sejam consideradas cidadãs com direitos plenos, como viria a escutar da boca de Olympe de Gouges: «Com o mesmo direito ao trabalho, à liberdade, e a serem felizes.» Anseios desde sempre frustrados.
O que Leonor tem escutado e visto, fá-la rever ideias e pensamentos, mentalidades, conceitos e preceitos nos quais fora educada. Tendo o seu relacionamento com Théroigne de Méricourt levado a que ela encare a vida de uma maneira mais aberta, mais abrangente. Uma nova dimensão que a ultrapassa, a atemoriza, mas também a atrai, como se estivesse em posição de desafio e até de conflito consigo mesma.
Tão depressa cedendo aos seus renovados anseios, como recuando alarmada diante do abismo que isso cavaria a seus pés. Tenta portanto afastar-se, cheia de dúvidas, para logo regressar ansiosa e a morrer de saudades do sobressalto, do clima incendiado, consciente de as horas serem demasiado breves, tanto nos salões como nas ruas amotinadas, nos clubes e nas assembleias.
Sobretudo quando Pauline Léon se senta a seu lado, cabelo ruivo e solto iluminado por uma gardénia lívida, falando com ousadia ao seu ouvido. Comentários sem freio ou receio, suscitados pelos discursos mais agressivos e ferozmente críticos, ou em relação àqueles mais pobres e longos, sem uma réstea de criatividade.
Na verdade, quando as mulheres sobem à tribuna, superam todos os oradores, e Leonor freme de entusiamo, aplicada na escuta das suas denúncias e reivindicações, muitas vezes cobertas pelo barulho que se eleva da sala, pois raramente os discursos delas são escutados pelos revolucionários. Palavras cobertas pelas vozes masculinas na discussão e na troca de ideias, isto quando não se levantam e saem, desrespeitando o que elas estão a dizer.
Leonor e Pauline nunca desistem de escutá-las, queixos apoiados no côncavo das palmas das mãos, cotovelos nas balaustradas de madeira escura e lascada, a arrepelar o tecido fino das mangas dos vestidos ou das longas franjas dos xailes.
Quando é a vez de Olympe de Gouges, Leonor presta atenção redobrada às suas palavras desabridas e espontâneas, marcadas pela chama da autenticidade: com paixão, ela exige para as mulheres os mesmos direitos e deveres dos homens. Sendo evidente ao longo do seu discurso o uso da claridade poética, a matizar e a desalinhar o excesso naquilo que ela grita.
Ganhando voo com as suas asas de águia.
No Círculo Social, Leonor escuta também, com uma atenção redobrada, Etta Lubina Johanna Aelders a discorrer sobre a necessidade da influência das mulheres num governo livre. Discurso que só anos mais tarde será publicado
e Germaine de Staël lhe enviará para Lisboa.
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La Fayette sente uma pontada no coração ao pousar de novo os olhos em Leonor. Lembra-se de a ter avistado em Versailles vestida de vermelho, debruçada na varanda de mármore da casa dos Necker, na companhia de Germaine de Staël, na véspera da abertura dos Estados Gerais. Semanas depois pareceu-lhe vê-la na Corte, a falar em surdina com a Rainha Maria Antonieta. Então disseram-lhe tratar-se de uma condessa portuguesa e fixara o seu nome.
Desta vez, demora-se a reparar na estranheza dos seus imensos olhos acesos com o fogo do entusiasmo, mas simultaneamente toldados por uma espécie de tristeza perturbadora, a deixar-lhe na íris um leve rasto de pequenos pontos dourados na sua delicadeza azulada, em contraste com o vestido esmeralda, que lhe deixa a descoberto o longo pescoço e o início dos seios altos, xaile cor de mosto traçado nos ombros suaves.
Os caracóis mal presos descaem-lhe sobre a nuca com a maciez escorregadia do cetim, e o rosto calmo, sonhador, distingue-a das outras damas presentes pela beleza tranquila, pela singeleza, na recusa de tintas e sinais postiços que só lhe toldariam a pureza da pele alva.
Apoiando os braços nus na balaustrada de madeira do balcão, ela escuta atenta as veementes palavras de Olympe de Gouges, a discusar na tribuna: «Vamos mostrar aos cidadãos que as mulheres também têm direitos! Sendo um deles, o de poderem fazer ouvir a sua vontade, a sua palavra libertária!»
A La Fayette, Leonor parece-lhe deslocada naquele ambiente, apesar do calor dos seus aplausos a cada uma das intervenções das revolucionárias; esquecido de tudo o mais, examina-lhe os gestos, as expressões da face. No final, demora-se na Sala da Assembleia, cercando-a com disfarce.
Tenta em vão ignorar o acerado olhar de Pauline Léon, que não desiste de lhe mover uma perseguição feroz, denunciando «a chama de dupla lâmina do seu carácter», para melhor o acusar de trair tanto os ideais como as promessas feitas. E, ao agredi-lo, leva-o a ficar ainda mais confuso consigo mesmo, dividido entre o rei e o povo, a tentar negociar alianças sempre falhadas, virando-se para todos os lados sem encontrar outros indícios que não sejam de descontrolo do processo revolucionário, a caminho de uma violência abismada.
«Juro que utilizarei todos os meios possíveis para o desmascarar! Juro ter por ele um ódio absoluto! Juro jamais o afastar da minha memória!» – grita, apontando-o, Pauline Léon, e na Sala da Assembleia cava-se um silêncio súbito, durante o qual todos fitam com curiosidade La Fayette, muito alto e esguio na sua farda, segurando o chapéu com a ponta dos dedos a fazê-lo dançar, pluma rubra chamejando à luz fraca e trémula das velas. Imperturbável, simula não ter escutado nenhuma das ameaças que lhe são dirigidas, continuando a tentar captar a atenção de Leonor, com o seu límpido olhar de pervinca, que esta colhe de fugida, para logo o trocar pelo de Théroigne de Méricourt que segue a seu lado.
Desinteressadas, dirigem-se as duas para a saída.
La Fayette vê-as passar indiferentes, sem qualquer expressão no rosto pálido, e só quando as perde de vista se volta a fim de encarar aquela que o desafia.
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– Porque não nos recitas esta noite os teus versos? – pergunta Théroigne a Leonor. Querendo convencê-la, estende docemente as mãos longas, secas e morenas até ao seu braço macio, que a meia-manga do vestido de seda deixa a descoberto, voz enrouquecida de muito argumentar para fazer valer os direitos das mulheres nas tribunas dos clubes e da Assembleia Nacional, em defesa dos seus princípios, batendo-se pela igualdade com grande desassossego.
No pulso fino de Théroigne desliza uma pulseira de safiras que empenhará alguns dias depois, a fim de continuar a viver independente, sem sofrer influências e pressões de ninguém, guardando no entanto o palacete Grenoble da Rue Louloy, em cujo salão Leonor acaba por declamar alguns dos seus poemas escritos em Paris, não sem que antes indague com ironia:
– Mas neste salão não são apenas recitados versos franceses, republicanos e revolucionários?
– Pois hoje serão lidos belos poemas portugueses! – responde-lhe Théroigne, extravagante e apaixonada como sempre, cabelos escuros em cascata pelas costas, calças negras e justas nas ancas de rapaz, blusa de cetim branco e mangas tufadas nos punhos com rendas de Valenciennes. Os olhos são de um azul-intenso no rosto frágil, em contraste com o corpo magro mas vigoroso.
De amazona,
como todos lhe chamam, mesmo quando de túnica grega, nas galerias da Assembleia, aplaude os arrebatados discursos femininos.
Leonor olha-a conturbada, e mais uma vez cede aos seus desejos, sempre surpresa com aquela amizade que nelas vibra e as abala, as perturba.
Prisioneiras da razão e das Luzes que ambas defendem.
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No isolamento do seu atelier, Élisabeth Vigée-Lebrun, a retratista oficial da Rainha Maria Antonieta, continua a pintá-la, tentando, quem sabe, capturar-lhe a alma ao transpô-la para a tela, e assim mantê-la a salvo dos tumultos, das ameaças, da violência crescente.
A França está a incendiar-se – pensa a pintora, consciente dos seus devaneios, enquanto usando a memória tenta recriar a Soberana, querendo chegar à presente debilidade daquele rosto longo, do qual há muito julga conhecer a cor e os tons e os traços: o azul-pavão dos olhos rasgados, os matizes níveos e rosados das pétalas da rosa fechada que ela agora lhe coloca entre os dedos afuselados, pele do mesmo tom das pétalas da sua face anteriormente de menina. Desta vez, porém, sem necessidade de lhe disfarçar a exuberância dos seios, nem dos braços e dos ombros, até há pouco tempo demasiado roliços.
O pincel segue no recente rasto do bistre das olheiras fundas, do aflito olhar raiado de sangue, da pele macilenta marcada por finíssimas rugas a sulcarem-lhe os cantos dos lábios e dos olhos tristes, nos quais reparara quando da sua última ida a Versailles.
Élisabeth Vigée-Lebrun, porém, depressa verifica não ser esse o rosto a que pretende chegar, e sim ao anterior, àquele outro durante anos oficialmente retratado por si. Será este, o pintado na véspera, que mostrará à condessa de Oyenhausen quando ela a visitar a meio da tarde do dia seguinte:
O da jovem Rainha estrangeira, bela e inconsequente, que na verdade já não existe.
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Robespierre desvia-se para a deixar passar, na companhia da Princesa de Lamballe, dando-lhes acesso a uma das tribunas da Assembleia Nacional.
Mas Leonor recua.
Evita-o.
Tenta afastar-se da avidez do seu olhar turquesa, que ele mal permite pousar nos olhos dela, de uma ardência febril.
Tamanha é a crueldade adivinhada por si na secura dos lábios apertados e severos, que dentro do seu peito o coração se alarma.
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No salão de Sophie de Condorcet,
Leonor, sem dar por isso, transforma-se por vezes em Alcipe; sentindo como nunca a falta de Filinto Elísio que se demora na Holanda a convite do embaixador de Portugal, António de Araújo, mas empolga-se na discussão das ideias e das liberdades, defendendo o que entende ser possível confessar, mesmo correndo o risco de poder ser expulsa daquela assembleia de gente liberal e revolucionária.
Théroigne convencera-a a declamar os versos escritos na véspera. Aplaudem-na. E Romme, seguido de Pétion de Villeneuve, assim como o severo e áspero abade de Sieyés, pedem-lhe que os repita, mas ela evita quanto pode aventurar-se na sorte, temendo reconhecer em si mesma os malefícios do excesso de que Paris transborda.
Ao contrário da holandesa Etta Lubina Johanna que, com facilidade, confessa o seu encantamento diante da turbulência e da violência crescente:
– Esta vertigem, este permanente excesso arrebata-me e convoca-me, dá-me uma enorme vontade de viver!
Então o marquês de Condorcet, com alguma ironia, cita Pascal: «A nossa natureza é o movimento; o repouso completo é a morte.»
Na verdade a morte ronda-os, a roçar as suas abismais vestes de negrume por toda a França.
Faz-se um penoso silêncio.
Leonor estremece.
E tentando fugir aos maus pressentimentos que a razão recusa, levanta-se com uma certa timidez no gesto simples, para recitar sem embustes um poema de Petrarca. Recaindo a discussão em seguida sobre as paixões funestas, a elas contrapondo Germaine de Staël a ideia dos amores sinceros e simples, o que faz lembrar a Sophie de Condorcet dois versos de Dante:
– Amor, que ao coração gentil e rápido se prende Amor, que a nenhum amado amar perdoa.
Mas já da rua sobe até eles um clamor de multidão exaltada, que como por artes mágicas os faz emudecer.
– Por acaso estaremos a sentir-nos culpados de futilidade ao falar de cultura, ao recitarmos poesia? – pergunta Théroigne, com um leve sorriso de sarcasmo.
– Nem todos, assim espero! – apressa-se a responder Leonor, corando. E acrescenta, como se falasse consigo própria:
A poesia é a própria essência do sublime.
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– Manon!
É o tom entusiástico do chamamento que lhe desperta a curiosidade. Naquele fim de tarde de verão há muita gente a passear nas ruas de Paris, sobretudo mulheres, conversando umas com as outras, atentas e veementes, ágeis ou indolentes.
Distraída, Leonor por pouco não esbarra no homem que chamara Madame Roland, chegada de Besançon. E ia recomeçar a andar, quando a seu lado escuta o restolhar de uma saia de tafetá amarelo-canário, no qual o sol põe veios de ouro, acentuando as pequenas nervuras que descem em correnteza até rasar uns pés pequenos e perfeitos, cinto de fita a marcar a cavada curva da cintura.
Por breves segundos deixa-se ficar encostada à parede branca da embaixada da Suíça, atenta à mulher morena e delgada, de olhar agreste, que contrariada atende ao chamamento de um homem de aspecto rude e cabelo crespo, mas que afinal, cortês, lhe beija ao de leve os dedos enluvados.
– «Madame Roland é habitualmente uma mulher severa» – comenta Sophie de Condorcet. Ela e Leonor acompanham-se com frequência, unidas na vontade de se afastarem do ambiente mórbido dos salões asfixiantes de Versailles, onde se sufoca de calor e de uma imensa inquietação, que ninguém já tenta esconder, janelas fechadas e portas guardadas noite e dia por soldados armados.
É também contra esse universo claustrofóbico, de reis alienados numa Corte de privilegiados decadentes, que Madame Roland se insurge com especial dureza, em artigos enviados dos arredores de Paris onde vive com o marido, para serem publicados nos jornais revolucionários – recorda-se Leonor, lembrando-se ainda de quanto ouvira elogiar a sua inteligência e a sua cultura. E fora por saber da sua veneração por Rousseau, num entusiasmo idêntico ao seu, que parara na rua a fitá-la, mais do que seria delicado, antes de retomar o seu passeio com a condessa de Condorcet.