As Luzes de Leonor
Memória
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Foram tempos de grande empenho e entusiasmo diante da mudança prestes a dar-se na minha vida. Sempre gostei do sabor da luta, do travo ácido do desassossego, matizado pelo néctar da diferença. Esperanças, escolhos, tormentas e maravilhamentos.
Juntamente com a paixão de que andava tomada.
Mas também antecipando medos, rugidos e tempestades.
Lembro-me bem da força das convicções que me levavam a teimar com os ministros, encarregados de desdizerem tudo o que na véspera o Regente me afirmara e prometera. A desmentirem as demonstrações de confiança e de apoio que sua Alteza Real – julgava eu – com empenho se dignara beneficiar-me.
Surpreendo-me hoje com a minha credulidade ou com a minha inocência – como Pedro lhe chamava – que me fazia acreditar na absoluta integridade dos príncipes e dos reis, no cumprimento da palavra dada. Desse tempo recordo com angústia os sentimentos que me moviam, numa equívoca mistura de exaltação e de desassossego, uma ligeira neblina por vezes a turvar-me a vista. Resultado do nervosismo e da permanente excitação em que vivia, enovelada por um turbilhão de emoções contraditórias. Mas senhora de uma vontade que me empurrava para diante, imprudente, quase deitando a perder o reencontro com Henri Forestier, minha imensa paixão clandestina.
Todos os dias, então, corria riscos.
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