As Luzes de Leonor
Memória
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Por vezes sinto ter sido em vão tudo o que fiz, esforçando-me por conhecer a felicidade, pois fosse o que fosse por mim determinado logo o destino se encarregava de me gorar os sonhos, armadilhando-me os caminhos, a embaraçar-me os passos.
Com uma ironia cruel prendia-me o andar caso pretendesse afastar-me, atava-me as asas se desejava voar, amordaçando-me para inutilizar-me o grito, algemando-me os pulsos sempre que empreendia a fuga da minha prisão; e ainda hoje tento galgar os desenganos, fingindo não reparar no facto de a vida me haver traído,
frustrando-me as ambições.
Um raio de sol ganha a bainha da minha saia e começa a subir devagar, reluzindo em direcção aos meus joelhos, enquanto vou permitindo que as recordações me tragam de volta o passado, consciente do meu miserável presente, abafando sob o calor da tarde, enquanto tomo o gosto do perfume da buganvília que cresce debaixo da janela da sala de estudo onde escrevo e leio, a repetir-me sem sobressalto nos próprios hábitos.
Eu, desde sempre uma mulher tumultuada,
hoje a teimar apenas na vigilância que me impus: atenta a tudo e desconfiando de todos. A perder-me no tempo irremediável da velhice, alimentando-me da memória que me assiste. Mesmo os desencantados anos vividos na Áustria, prisioneira da gravidez e de três partos.
A sentir-me uma mulher traída pelo próprio corpo, por entre os vómitos, as náuseas e as tonturas. Querendo enganar os meses intermináveis, ia pintando e escrevendo; durante os intervalos das vertigens e das agonias tocava Bach, Purcell e Vivaldi.
Fazia poesia
tentando entreter as horas arrastadas; e mal me sentia menos incomodada frequentava os concertos e a ópera, a querer guardar em mim Haendel, Gluck, Haydn e finalmente Mozart. Com eles renascia e renovava-me.
Onde estava, porém, a glória prometida a mim própria?
A urgente liberdade e a grandeza das Luzes antevistas em Chelas?
Ao fitar-me no espelho não me reconhecia, perguntando-me desencantada: «Quem será esta que, em vez de mim, vejo a reflectir-se onde deveria estar a minha imagem?»
– Amo-te! – tinha vontade de gritar, sem sequer saber a quem me dirigia, os nervos a irritarem-me o corpo deformado e a alma volátil, tal como neste momento me queixo do nada onde me apercebo mergulhada, num tempo cada vez mais impreciso e dormente,
embora doendo.
Revoltada com tudo o que a velhice me obriga a perder, muito embora continue a reconhecer em mim o arrebatamento intacto de quando era rapariga,
nesta pressa assanhada, neste excesso, nesta atitude dissimulada e manhosa de me fingir desinteressada do futuro, para melhor trabalhar tendo em vista a posteridade. Ambição de querer chegar mais longe, neste bravio gosto pela vida onde pretendo permanecer através da minha poesia e das minhas palavras escritas.
Da minha obra.
Desejo demasiado exaltado – dizem – para uma mulher.
Sobretudo se para uma mulher da minha idade.
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