As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 70 de 289

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As Luzes de Leonor

Monólogo de D. João de Almeida

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Partiu em alvoroço com pressa de se afastar, sem erguer sequer os olhos para mim ou me pedir a bênção, desleixando o amor respeitoso que me é devido; de novo precipitando os acontecimentos, sem o menor sentido de compostura. E desse modo negando outra vez com acinte a face inocente e o carácter recto e obediente que de Chelas, em tempos de cartas e prometimentos, me fez crer serem os seus. Muito interessada agora na insubmissão e no desacato, e pouco em princípios, em regras.

Sem comedimento de nenhuma espécie.

Assisto com impotente zanga e não menor desgosto ao apego que Leonor põe na vontade de partir para longe, nunca escondendo a ambição – que numa mulher sempre desnatura o coração – de subir, quanto a mim, demasiado alto, perseguindo um deslumbramento impossível. Tomada pelo seu espírito desvairado, chegou ao ponto de ignorar a cláusula que a prende a Portugal, inserida por mim no contrato de casamento assinado por ela e pelo que é hoje seu marido. Tendo como finalidade prendê-la ao cumprimento dos seus deveres e afastá-la dos perigos desviantes e subversivos do mundo.

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Quando chegam ao Porto, mesmo antes de serem instalados os móveis nos lugares por ela escolhidos, Leonor dá pela falta dos caixotes dos livros. Começa por pensar estarem entre o amontoado de mobílias, de louças, de pratas e vidros expedidos de Lisboa, mas ao fim do dia não pode continuar a iludir o seu desaparecimento. Recusando-se ainda a aceitar o facto, volta a vasculhar a casa de alto a baixo, indo e vindo lenta e pesada, curvando-se e endireitando-se quanto lhe permite a gravidez.

Abre o resto das malas, desata os últimos pacotes, espreita para dentro dos cestos, das cestas, dos baús, das arcas. E por fim, em desespero, procura-os sem lógica nas prateleiras dos armários que viajaram trancados, mas também nos fundos gavetões empilhados em cima uns dos outros. E ainda duvidando, a adiar a verdade, pergunta a Carlos Augusto, que a segue tentando inutilmente ajudá-la:

– Fui roubada?

Incrédula, regressa ao princípio, torna a revistar os malões, as caixas de madeira, os arcazes já despejados e guardados no sótão. Desarrazoada, esquadrinha as papeleiras de alçado encostadas às paredes, puxa para fora as pequenas gavetas das mesas-de-cabeceira, revela os segredos dos contadores de laca. Numa histeria cega, escancara as portas de vidrilhos dos aparadores da sala de jantar, e passa as mãos trémulas pelas suas prateleiras vazias de onde parte um odor espesso a sândalo que lhe provoca náuseas.

Por fim, não lhe restando nenhum outro sítio onde tentar encontrar os livros, manda vir à sua presença os carregadores que os deveriam ter transportado, interroga-os, mas eles não sabem ou não podem responder às suas atropeladas perguntas, olhando-a contritos e admirados com tamanha aflição. Acaba por mandá-los embora, perplexa, pressentindo a presença das dúvidas insidiosas que começam a rondá-la.

Teria sido o pai a dar ordem de descaminho aos livros, crendo serem os culpados por aquilo a que chama a desobediência e rebeldia dela? Ou talvez o marido, a quem por certo também pouco ou nada agrada o que ela leu ou lê agora?

Fita-o desconfiada, a tentar descortinar a verdade no seu olhar fugidio, esforçando-se por lhe decifrar a expressão do rosto, por interpretar o franzir dos lábios mordidos pelos dentes, as mãos nervosas e suadas escondidas atrás das costas; sintomas de um nervosismo que pode dever-se tanto à má consciência como a um natural cansaço.

Inconformada, Leonor teima em descobrir uma razão plausível para o misterioso sumiço da sua biblioteca. E o vazio nela criado por aquela falta é tamanho e tão cruel que, atingida pelo cobarde golpe, baqueia, sente perder os sentidos: pernas moles e lentamente vergadas, corpo sem peso já resvalando e sustido a tempo por Carlos Augusto,