As Luzes de Leonor
Certidão
perdida
Mando pela nossa Tirce estas poucas palavras desalinhadas e devastadas pela tua ausência.
Como me fazes falta!
Desde a tua partida de Portugal tudo para mim perdeu fulgor, e nem sequer a grade voltou a fazer sentido. Envolta em neblina, a minha vida limita-se a passar, morrendo de saudade e melancolia; a regar com as minhas lágrimas as rosas vermelhas plantadas por ti em torno do claustro.
Os nós do meu coração ninguém os desata.
Minha garça.
Beijo as tuas alegrias
Sou-te fiel para sempre
Gonçala
Convento de Chelas, 1 de Novembro 1780
†
CERTIDÃO
Dois dias depois da recepção de Freire de Andrade na Ordem de Cristo, Carlos Augusto apressa-se a enviar para a Corte portuguesa, pelo correio da embaixada em Viena, uma certidão escrita pelo seu próprio punho. Cuidando em que o documento seja seco, preciso, oficioso, mas que também sublinhe, sem deixar margem para nenhuma dúvida, o cumprimento sem falha de toda a cerimónia, na impressionante Catedral de Santo Estevão:
«Pedro Maria José Carlos Augusto d’Oeynhausen Conde do Santo Império Romano, do Conselho de Sua Majestade Fidelíssima, Brigadeiro de seus exércitos, e seu Ministro Plenipotenciário à corte de Viena, Cavaleiro Professo da Ordem de Cristo, e Comendador da mesma ordem.
Certifico que segundo as ordens e poderes de Sua Majestade a Rainha Nossa Senhora, eu armei cavaleiro da Ordem de Cristo a Fr. Gomes Freire Pereira de Andrade e Castro, assistindo ao dito acto os Excelentíssimos Senhores Condes Filippe de Sinzendorf, e Joze Conde de Colloredo, Comendadores da Ordem de Malta e cavaleiros professos da mesma Ordem. O qual acto se fez na Igreja Catedral de Santo Estevão em Viena a 31 de Outubro 1780 com todas as solenidades costumadas, e conforme ao Cerimonial e Estatutos desta Ordem, que Sua Majestade para este efeito foi servida mandar remeter-me. Em fé de que eu escrevi de minha mão a presente Certidão, que selei com o selo de minhas Armas.»
Viena d’Áustria a 3 de Novembro de 1780
E antes de pegar no sinete de prata, Carlos Augusto deixa tombar no papel holandês uma grossa e lenta lágrima de lacre.
†
Meu querido Pai
e senhor do meu coração
Quantas cartas já escrevi a Vossa Excelência desde a minha partida de Portugal? Como resposta obtive apenas o vosso ressentimento embrulhado num prolongado silêncio que me quebra a alma em mil estilhaços, enchendo-me da maior tristeza.
Deverei ver nisto sinal da vossa obstinação ou da minha inépcia para vos enternecer o coração endurecido, mesmo quando apelo com sinceridade aos mais ternos sentimentos de meu Pai? Aguardo com desmedida ansiedade pelo dia em que serei de novo olhada por vós como uma filha infinitamente amada, e só essa esperança me vai emprestando algum alento. Confio ainda em que as Luzes e o espírito de justiça acabem por vos abrandar as exigências tão rigorosas e ásperas a meu respeito. Merecerei eu da vossa parte procedimento de tamanha dureza? Mais brando é felizmente o coração da senhora minha Mãe, que me vai escrevendo a dar notícias de Vossas Excelências e da minha filha.