As Luzes de Leonor
Caderno
Resiste ainda apegada às coisas e às pessoas que ficam para trás, enquanto vinda de longe surge uma voz que a chama, encantando-a, melodiosa e irresistível; tornando-se esse canto de sereia insistente e intenso,
numa envolvente harmonia.
Então, mais do que correr ela já voa, vencendo-se a si própria, ultrapassando-se. Rendendo-se à própria morte.
«Eu vou, eu vou…»
Foram as suas últimas palavras.
Dia 29 de Novembro de 1780, ao despontar da alva em Viena, por entre nuvens escuras e cerradas.
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No dia 2 de Dezembro o Rei de França manda chamar aos seus aposentos o abade de Vermond e pela primeira vez em dez anos dirige-lhe a palavra, ao encarregá-lo de informar oficialmente a Rainha Maria Antonieta da morte de sua Mãe, a Imperatriz da Áustria.
Embora genuinamente se sobressalte e entristeça com a notícia, o abade não pode deixar de dar conta do incontrolável tremor das pequenas mãos cheias de anéis de Luís XVI, assim como do seu olhar assustado de quem tenta descortinar vultos traiçoeiros, que julga adivinhar escondidos nos recantos de muitas sombras do Palácio de Versailles.
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CADERNO
Durante mais uma insónia, contra a qual nada pôde o láudano e a beladona, copio para este caderno o início da última carta de Teresa, datada de 1 de Dezembro de 1780:
«Passo a minha vida entre a tristeza, que nasce da condição de dependente, e o gosto de ter uma alma livre habituada a meditar. Se a saúde me dá forças, o meu lápis e os meus livros me servem de companhia; se não posso valer-me deste socorro, então o meu discurso faz-se meu algoz.»
Partilho destes pensamentos e insatisfações; vejo a minha própria melancolia representada nestas palavras, lucidamente desiludidas. Por vezes a vida parece gostar de se divertir com os nossos sentimentos.
Viena, 20 de Dezembro de 1780
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Ao perceber estar de novo grávida
rebela-se,
sem entender como pode fugir-lhe tanto o controlo do corpo que sempre a trai, pois o que ela quer é sentir-se livre, dona da própria vida que a espera na construção da posteridade com a qual sonha. Longe dos mucos, dos sangues, dos cheiros nauseabundos das águas escusas, paradas e pardacentas dos partos que a assustam.
Ainda se lembra dos infindáveis meses de náuseas e vertigens a definharem-na e a enfraquecerem-na, do sono incontrolável enquanto a barriga ia crescendo e a afastava do Mundo.
Agora que a Áustria lhe abre de par em par as portas da sua Corte faustosa, ofertando-lhe uma dimensão da cultura que ela idealizara, passa tardes inteiras vomitando para requintadas bacias de porcelana pintadas à mão, oferecidas por Madame de Metternich a quem, depois de Maria Wilhelmine, ela prefere a todas as outras, assim como ao seu salão literário onde entretanto ganhara um lugar especial.
Em estado de grande ansiedade deixa-se consumir fechada na penumbra dos quartos, revolvida nos seus males, envolta em odores de alfazema e rosmaninho que manda queimar para iludir o cheiro acre dos vómitos, dos suores, do próprio desespero.
Quando à noite vê partir Carlos Augusto para as recepções, as assembleias, os bailes e concertos, tenta não sucumbir diante das armadilhas montadas na vida das mulheres. Inconformada, de bom grado trocaria pela liberdade e pelo desassossego
os seus tristes e miseráveis desejos de grávida.
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