As Luzes de Leonor
Diário
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Volto a agarrar-me ao pensamento de Voltaire,
arrimo-me às suas palavras, às suas ideias, num avanço feito de recuos e de conivências. No que respeita a Rousseau, sou dominada pela vontade de comprovar, na realidade, as suas propostas.
Aliás, as palavras e os ensinamentos de ambos parecem-me cada vez mais fortes, mesmo quando me deixo levar pelas dúvidas, por medos e receios, sem coragem nem ousadia para continuar em frente. Temo e tremo na hora que passa, pois o clamor das ruas e das assembleias cresce, sobe de intensidade, como se pegasse fogo, levando-me a associar Paris à Roma incendiada por Nero…
Ponho num dos pratos da balança os ideais da liberdade, dos princípios que me movem, e no outro prato as minhas origens e os ensinamentos aprendidos na infância. A filosofia e a ideologia exigem de mim uma coerência que por vezes me pesa, sempre que o berço me embala com maior insistência, trazendo-me à memória um Portugal distante e parado no tempo.
Embora por vezes me sinta deslocada entre os revolucionários e as amazonas da revolução – como lhes chama Théroigne – continuo a não querer partir.
Paris, Verão de 1789
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Maria Antonieta recolhe-se no seu medo, desse modo parecendo tranquila.
Dispensa as aias.
A Corte está reduzida a quase nada. O Palácio tem vindo a esvaziar-se numa lenta sangria, até não restarem mais coches, mais carruagens, mais cavalos.
Ela própria ordenara a Gabrielle de Polignac que partisse enquanto era tempo pois, conhecida como sua favorita, o povo odiava-a com especial acinte. Implorara-lhe que fugisse, embora ao fazê-lo o coração se despedaçasse, e agora sofra a sua falta sobre todas as outras.
Mal Gabrielle se fora, com os enormes olhos claros marejados de lágrimas, os longos cabelos castanhos em desordem, o corpo macio debaixo do fato de disfarce, refugia-se na companhia agreste do desgosto, das perdas, do desamparo; e a partir desse momento limita-se a esperar que o tempo passe.
«É na desgraça que melhor sentimos o que somos» – escreve numa última carta a Marcy-Argenteau, a pena prestes a escapar-lhe dos dedos trémulos e perfumados. Mas achando-se por demais desvalida, desprotegida da sorte e infinitamente só, num derradeiro esforço acrescenta no seu diário uma última frase em jeito de promessa a si mesma:
«Seja qual for a desgraça que me persegue, posso ceder às circunstâncias, mas jamais consentirei em nada que seja indigno de mim.»
Erguendo a face lívida, Maria Antonieta detém o olhar toldado em Louis Charles, o filho que lhe resta. Debruça-se, pega nele e sobe-o ao peito sobressaltado, apertando-o nos braços nervosos.
A noite acabará por descer tempestuosa. Há muito já que trouxeram os candelabros acesos, e a duquesa de Tourzel viera bucar o Delfim para o ir deitar. Sobressaltada, a Soberana escuta a vergasta da chuva nas vidraças das janelas fechadas, cobertas pelos pesados cortinados de damasco. Acabando por se esquecer das horas, olhar absorto na lareira entretanto apagada, sem entender o motivo porque a França a odeia de uma forma tão feroz. Lá fora, nas ruas apinhadas, nos pátios, diante dos imponentes portões, as mulheres chegadas de Paris, indiferentes à borrasca, aproximam-se devagar, unindo as ancas umas com as outras, como se formassem um aro apertado em torno da Rainha.
Pela última vez hesitam.
Têm fome e sentem muito frio.
Serão elas a ir adiante do povo que, na escuridade e sem pressa, começa a cercar o Palácio de Versailles.
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Têm as mãos enregeladas quando às quatro da manhã forçam as portas do Palácio de Versailles. Depois da noite passada em branco ao relento, encharcados pela chuva e o granizo da tempestade desgovernada, deixam de bom grado que a ira os invada diante do afrontoso luxo aquecido e dourado com que deparam; zangados também consigo próprios, ao verem-se miseráveis, maltrapilhos e porcos, multiplicados pelos enormes espelhos de ouro e cristal que cobrem as paredes; e quando dois jovens guardas pretendem barrar-lhes o caminho, degolam-nos sem remorsos.
Algumas das mulheres que trabalham na cozinha real haviam-lhes passado a planta do palácio: as salas, os salões e os quartos alinhados ao longo de corredores infindáveis, formando um círculo fechado na ala onde ficam os aposentos da Rainha.
Os homens, excitados com a expectativa de a encontrarem, e com o cheiro ao sangue que lhes suja as mãos, falam alto e berram grosserias, os passos pesados ecoando no soalho já enlameado. Embora ainda acanhados, pouco à vontade, sem saberem lidar com todo aquele fausto e magnificência que por enquanto não se atrevem a destruir.
Ouve-se um deles gritar:
– Queremos o coração da rainha!
Logo seguido pelas vozes fortes das mulheres a exigirem
«a cabeça da cabra estrangeira, da porca austríaca!»
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A Rainha de França acorda sobressaltada com o fio dobado da raiva das mulheres, o zunido aflito das camareiras e o choro tímido de madame Thibaut, sua dama de honor, a implorar-lhe que se levante a tempo de ser vestida. E escutando o grande clamor das vozes dos homens a tentarem arrombar a porta, estremunhada levanta-se de um salto e deixa-se arranjar à pressa, para depois fugir pela escada disfarçada atrás de um cortinado de veludo espesso que a leva até à passagem secreta que liga os seus aposentos aos do marido.
As saias erguidas pelos dedos pouco firmes do medo, sobem nas pernas delgadas e mal cobertas pelas meias de seda, que escorregam das ligas de cetim e pérolas, pés descalços voando nos tapetes espessos até ao quarto do Rei que, atordoado, a recebe nos braços, sentindo-lhe junto ao seu o corpo fremente.
Sem fala, Maria Antonieta apoia-se na fragilidade do seu ombro, os cabelos louros espalhados em desordem, quando os seus perseguidores, frustrados, entram de rompante nos aposentos reais a gritarem de raiva e empunhando com ódio as espadas dos guardas que haviam matado, facas e paus e ancinhos. Mas, mal vêem a Rainha, que apesar do rosto lívido os olha de frente, direita e altiva, param, subitamente emudecidos. De novo humildes e respeitosos, recuam diante dos Reis, que pela primeira vez vêem de tão perto.
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Cinge o filho ao coração.
Apesar de muito pálida aparenta estar serena, mal se apoiando a uma das colunas harmoniosas da varanda de um dos salões do palácio, onde alguns dos fidalgos e o Rei aguardam em silêncio. Evita olhar para baixo, na direcção do povo irado e amontoado no pátio, que quando ela assoma com o Delfim nos braços de imediato se aquieta.
As mulheres calam-se, atordoadas com os próprios gritos, e num gélido silêncio fitam a Rainha detestada, e pela primeira vez hesitam, pois de alguma maneira encontram-se reflectidas na sua imagem abraçada ao filho. Talvez porque esse simples gesto materno de súbito a banaliza.
A humaniza.
Tornando a Rainha de França quase igual a elas. Deixam-se enternecer, por momentos esquecem-se de quanto a odeiam, baixam os braços, abrem as mãos que empunham as bandeiras e as forquilhas. Estremecem ao vê-la aflorar com os lábios pálidos a testa do menino.
A Soberana treme de frio, os ombros mal cobertos por uma leve echarpe dourada, franja emaranhada de pequenas pérolas. A chuva miúda encharca-lhe os cabelos, cola-os à face descorada, boca crispada pela humilhação a que é submetida. Sem o exotismo dos penteados, das cabeleira postiças ou das tintas que habitualmente lhe pintam a cara, parece natural e feminina.
Fardado a rigor, La Fayette sai pela porta entreaberta que dá acesso ao terraço onde Maria Antonieta se encontra, e a passo lento aproxima-se dela segurando o chapéu preto onde ressalta uma pluma vermelha. De cabeça descoberta avança, escutando o silêncio imenso que abruptamente se cava em torno de ambos.
Muito devagar Maria Antonieta vira-se e fita-o, admirada mas reconhecida; já diante dela, La Fayette curva-se, demonstrando respeito, e quando a Rainha solta do corpo do filho uma das mãos e lha estende, ele toma-a na sua e beija-lhe os dedos afuselados.
Sentindo deles o ruivo odor a rosas e a febre recolhida.
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Mais tarde as mulheres chegam para vir buscar o Rei e levá-lo para Paris, decididas a não sair de Versailles sem ele. Embora estejam famintas e tenham passado a noite em branco debaixo da chuva grossa empurrada pelas cordas do vento, continuam a bradar com o mesmo ímpeto, numa mescla de determinação e zanga, onde se vão misturar algumas lágrimas que tentam disfarçar, envergonhadas, os cabelos desgrenhados a escaparem debaixo dos lenços, enquanto vão gritando:
– O Rei para Paris!
E os homens, mesmo os da guarda real, fazem eco do berro que, no entusiasmo, logo parece tornar-se aberto e generoso.
– Viva o Rei! Viva o Rei!
Há quem tente acender fogueiras que o temporal logo apaga. Mirabeau olha em torno, sem parecer ter entendimento da dimensão do muito que ali se joga; ao longe pode ver-se Robespierre a acicatar os ânimos exaltados. Mas o olhar de Leonor, que dá conta de toda a cena de uma das janelas da casa dos Necker, fixa-se em La Fayette quando este sai do palácio guardando a soberana, que segue o marido pelo meio do povo a gritar:
– Não queremos a austríaca!
– Não queremos a cabra estrangeira!
Rejeitada, Maria Antonieta endireita-se como se a tivessem esbofeteado. Mesmo assim entra na sua carruagem, que logo parte a caminho de Paris.
Atrás dos coches reais segue a multidão a pé, enterrando-se na lama até aos tornozelos; há ainda aqueles que a custo conseguiram uma carroça, um burro, um fiacre desmantelado.
Ao longe ouvem-se tiros de espingarda e os guardas reais, atentos, cuidam de conter e afastar dos Reis o mais possível o povo raivoso e esfomeado. Sereno, La Fayette comanda a escolta dos monarcas montado no seu cavalo branco, acompanhando a carruagem do lado em que vai sentada a Rainha, a dissimular-se o melhor possível na penumbra aveludada do carro que avança a passo, aqui e ali impedido de seguir. O Rei sente-se temeroso: receia sobretudo as mulheres que, estendendo os dedos encardidos, se afoitam demasiado a tentarem forçar as janelas, abrir as portinholas lacadas, com as armas reais gravadas a ouro.
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Adorada Lília
senhora do meu coração
Será que ainda existo para ti, minha querida amiga, depois de me teres deixado para trás sem palavras de consolo e de ternura? Ou a parte que me cabe do teu coração já foi roubada, levada por essa aventura enlouquecida a que desafortunadamente te entregaste, deixando todos nós aflitos, e a teu marido e filhos abandonados?
O que te prende aí, minha Leonor, a correres por gosto perigos desnecessários, ou mesmo a tomares parte, quem sabe, do desnorte desse desgraçado povo a cavar a própria sepultura! Afinal, eu nem sei porque me admiro, se desde o início sempre te vi fascinada e de bom grado a enredares-te nas perigosas palavras de Rousseau, de Voltaire e Diderot, na teima de seguires-lhes o rasto apesar de eu te haver prevenido contra tão perniciosas leituras.
Não será portanto agora que me escutarás. Mesmo assim rogo-te que cuides melhor dos teus actos, pois aqui já começaram a chegar rumores a teu respeito, e a tua família e eu tememos por ti, minha Leonor. O teu marido responde às cartas que lhe mando, ora com queixas ora desculpando-te, parecendo-me por demais desnorteado, sem saber o que fazer consigo mesmo e com as crianças.
A ti, pelo contrário, com a sede de aventura que te conheço, calculo-te encantada, participando nessa insurreição, cada dia mais cativada pelos perigosos poetas e filósofos da liberdade. Liberdade essa ameaçadora da vida dos outros…
Diz-se por aqui que os Reis de França já estão presos. Será isso verdade? Custa-me a acreditar que tu, minha incomparável, possas assistir a tamanha atrocidade sem te indignares e tomares pelo menos o partido da infeliz Rainha Maria Antonieta. Não há ninguém capaz de lhe valer?
Desta tua amiga só posso dizer-te da aflição dos meus afectos sobressaltados pelo susto em que me pões, da ternura contaminada pela ansiedade, do rigor abrandado pelo desfalecimento a que me leva a falta de tuas notícias. Pelo menos promete que irás escutar os meus argumentos, repensar as tuas posições, reconsiderares os teus actos e os teus sentimentos, e volta para nós, Lília adorável!
Amada «dos tristes olhos de
Tirse»
Lisboa, Agosto de 1789
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Não é medo mas entusiasmo o que Necker descortina nos olhos de anil cintilantes, marcados pelo vinco roxo das olheiras fundas, da bela condessa portuguesa amiga da sua filha Germaine, quando ela o foi procurar no Ministério das Finanças.
Olhar impertinente a demorar-se em tudo, sem cuidar de disfarçar a curiosidade e o especial interesse que lhe despertam os papéis espalhados na grande secretária de mogno escuro. Vinda para conseguir dele um salvo-conduto, a fim de poder chegar a Marselha onde a esperam o marido e os filhos.
Traz com ela o cheiro a pólvora da rua, no vestido de tafetá carmim, odor atenuado pela essência de nardo que habitualmente usa, e também pelo travo a nevoeiro com que Paris nesse dia amanhecera. Na desenvoltura dos seus gestos adivinha-lhe Necker a expectativa e também a coragem.
Germaine, e mesmo Suzanne de quem conhece a sensatez, admiram-na, amam-lhe os versos; mas ele que sempre recuara diante das mulheres cuja beleza esconde ambição e inteligência brilhante, avalia-a cismado, também por nunca ter confiado nos poetas, eternos fugitivos da realidade, escapando a todo e qualquer controlo através das asas da utopia e das palavras do sonho. A revolução parece entusiasmá-los, embora a fraqueza prenda muitos deles em casa.
– O senhor meu pai vai desculpar-me, mas discordo de Vossa Excelência. Conheço poetas que se têm juntado ao povo na rua! – indignara-se Germaine, diante desta sua teoria. Deixando-lhe no peito de pai um amargoso rasto de medo, no que diz respeito às suas ideias e tomadas de posição, que só por si poderão vir a colocar a vida dela em risco.
Quem melhor do que ele para conhecer o perigo do que se está a passar em França? Quem melhor do que ele para sentir o abismo a cavar-se debaixo dos pés de todos? – Mediador, convicto da necessidade de pactos, tenta encontrar pontas que atem, ajustem proximidades, acordos provavelmente impossíveis entre o povo sublevado e o Rei.
Necker consegue a custo forçar um esgar de aprazimento fugidio, e cansado da tensão em que vive os dias sobressaltados e as noites passadas em claro, acaba por perguntar:
– Em que poderei ter a honra de servir Vossa Excelência, senhora condessa de Oeynhausen?
Leonor, que embora contrariada se sente na obrigação de regressar a Marselha, pressionada pelo desnorte das cartas de Carlos Augusto, mas desejando ardentemente ficar em Paris, mantém-se em silêncio. Na verdade inconsolável, detesta a ideia de trocar a presente vida pela anterior, e quando finalmente fala, é para dificultar a sua partida indesejada, sublinhando as ameaças e os perigos que todos os dias ela inventa maiores, recriando os obstáculos que sempre acrescenta:
– Dizem-me haver estradas cortadas, atalhos vigiados, caminhos proibidos… Não poderá o senhor ministro munir-me de um salvo-conduto que me garanta a viagem?
Suspeitando ser mau preceito demovê-la de partir, mas não estando nas suas mãos o poder de salvá-la dos perigos de um trajecto até Marselha por estradas guardadas pelo povo armado, que desse modo tenta deter os fidalgos fugitivos, Necker abana a cabeça onde a cabeleira discreta é ajustada atrás por um estreito laço preto de cetim, e responde com ironia amarga:
– Um salvo-conduto para a senhora condessa, arranjo com facilidade. Mas garantir a Vossa Excelência a chegada sã e salva a Marselha, isso não garanto. Neste momento, aliás, eu já não garanto nada, senhora condessa, absolutamente nada! Apesar de continuar ministro, de certa maneira retiraram-me de novo o poder. Afinal, já não me afastou o próprio Rei?
– Vossa Excelência regressou por decisão dos Estados Gerais! – responde-lhe, chocada, Leonor.
Como forma de contestar aquilo que ela diz, sem se comprometer e a sublinhar ao mesmo tempo a própria inoperância diante dos acontecimentos, Necker abre os braços num gesto largo de impotência, semicerrando os lábios finos por onde raramente perpassa a sombra de um sorriso.
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Será Germaine a conseguir-lhe um salvo-conduto, sob segredo absoluto. Mesmo assim, Leonor continua a adiar a partida para Marselha. Vai até ao atelier de Vigée-Lebrun, ao salão dos Condorcet, e janta com Germaine na Embaixada da Suécia e em casa de Suzanne Necker. Regressa às reuniões, canta e recita poesia nas assembleias onde já é conhecida, faz versos, escuta com atenção tanto o povo gritar na rua como aquilo que se diz nos aposentos privados da Rainha quando a visita nas Tulherias.
Descobre as sociedades do pensamento, onde discute filosofia, teologia, e os clubes que frequenta com Théroigne de Méricourt, dedos entrançados, a tecerem comentários e rindo baixo ao ouvido uma da outra.
Volta a ter demoradas conversas com Olympe de Gouges que lhe lê com entusiasmo alguns dos seus manifestos sobre a discriminação, a violência que pesa sobre a vida das mulheres, «esse sexo demasiado fraco e há demasiado tempo oprimido, prestes a sacudir o jugo de uma escravatura vergonhosa»; e lhe mostra o começo da sua «Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã». Aprende a admirar-lhe a persistência corajosa, a determinação teimosa, diante da animosidade, da grosseria irónica com que é tratada.
Mas é quando conhece Etta Lubina que compreende a importância do sonho na vida das mulheres e de como elas se superam a fim de o alcançar, de como conseguem ir longe na sua edificação. E o sonho dela é a criação de uma sociedade patriótica feminina em cada freguesia de Paris, a que chamará «Amies de la Vérité»… Esquecem-se das horas a discutir até ao amanhecer, na sua encantadora casa na Rue Favart; e antes de partir vai vê-la subir à tribuna do Cercle Social, donde exorta as francesas a imitarem a virtude das damas romanas…
A última semana passa-a sobretudo junto de Théroigne, em dias de intranquilidade e noites de envolvimento, passeia durante horas pelos cais do Sena seguindo as águas tranquilas, atravessa as suas pontes abismadas no crepúsculo, deixa-se maravilhar com a beleza melancólica e translúcida da atmosfera esfumada junto de Notre Dame.
Devagar, despede-se.
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No parco resguardo do Palácio das Tulherias para onde os reis foram levados a contragosto pela multidão irada, Leonor desce até ao jardim para onde dá o apartamento da Rainha, e caminha ensimesmada pelas áleas geométricas às quais o descuido deixou que se misturassem algumas pequenas flores e arbustos débeis. Mais além, por entre os poucos áceres, ulmeiros e abetos que Le Nôtre se permitira esquecer, crescem os crisântemos a estriarem-se de brancura na lividez das begónias, por sua vez a esvaírem-se no sussurro carnal das rosas trepadeiras, ultimamente votadas ao abandono.
Pensa com melancolia em Filinto Elísio, que se estivesse em França escolheria sem nenhuma dúvida o lado da revolução; Leonor entende isso sem inquietude: ele saberia ser o filtro entre as partes contrárias.
Discernindo.
Separando o podre do são, a inocência da perversidade, a virtude do mal. Então, talvez as situações e os sentimentos dela se tornassem mais rigorosos e claros, no empenho da escolha de uma rebeldia que agora lhe parece anulada pela acção e as palavras dos revolucionários, que travam um combate feroz com o poder real e com a fidalguia tão ociosa quanto inútil.
Enquanto ela continua a esgueirar-se amedrontada e cobarde, a fim de não se ver obrigada a tomar uma posição clara. Testemunha apenas. Apesar de, por vezes, também participante, levada pela coerência com as próprias ideias e posições, o que não a impede de, simultaneamente, se sentir traidora diante do próprio nascimento e das suas raízes. Leonor, que imaginara ter já optado por acertar o passo com o das suas novas amigas, lado a lado no mesmo caminhar com Théroigne, Olympe de Gouges, Etta Lubina, Germaine de Staël, subitamente oscila, desequilibra-se e pensa ir quebrar-se no chão hostil das suas dúvidas.
Feita de cristal ou de vidro.
Desconsolada, isola-se, refugia-se na solidão dos cais do Sena, no anonimato das assembleias e dos círculos revolucionários, na sombra furtada aos salões dos Condorcet, de Suzanne Necker, de Marie Anne Vigée-Lebrun, escurecimentos onde Leonor tenta anular-se no Paço agora sem brilho, ao longo do vazio gelado dos pátios inóspitos, das passagens e das escadarias onde as correntes de ar se cruzam e apunhalam, dos pavilhões, dos gabinetes, das salas ermas.
Alheia-se, tendo a mesma atitude de Maria Antonieta ao tentar esgueirar-se por idênticas estreitezas, nos seus labirintos, sem encontrar uma saída para a sua situação sem remédio. Mas enquanto no fundo do coração aflito a Rainha tem a certeza de que acabará por ser morta, Leonor limita-se a retornar, cheia de remorsos, às suas próprias origens.
E acaba por deixar Paris a caminho de Marselha.
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Ao contrário do que acontecera meses antes na viagem para Paris, no regresso a Marselha fazem-na parar várias vezes nas barragens entretanto levantadas ao longo das estradas, junto das quais há soldados, mas sobretudo homens de tricórnio e pés descalços, mãos rudes e vozes ásperas.
Leonor reconhece-os pelo brilho do olhar teimoso e febril, detecta-lhes o azedume da desconfiança enquanto lhe revistam as malas e a carruagem de onde saíra empurrada, embora lhes tenha mostrado o passaporte e o salvo-conduto. Menos preocupada em ser impedida de seguir caminho do que em refugiar-se da chuva gelada que a tem acompanhado durante toda a viagem, tranças de água atiradas pelo vento desabrido, a passarem pelas frinchas das janelas e das portinholas, fazendo-a tiritar debaixo da manta de pele de marta onde se embrulha.
Quando o carro se atola na lama, e ela tem de descer transida, abriga-se encolhida sob as esparsas ramadas das árvores, enquanto o cocheiro tenta libertar as rodas presas do carro. Nas bermas dos atalhos que por vezes tomam, definham-se as roseiras bravas que o inverno rigoroso arranca da terra pelas raízes finas. Vê-as assim de rojo, quebradas, decepadas, a apodrecerem já, e desvia o olhar com o coração sobressaltado, apunhalado, lacerada pela recordação e a saudade, a falta lancinante de Théroigne, nunca sabendo quando a chuva na sua face se confunde com as lágrimas.
Mais adiante, na curva da estrada que o nevoeiro cobre, está outra barragem, por trás da qual o povo espera os fidalgos em fuga.
– Temos fome, mas sobeja-nos a teimosia e a raiva! – ouve dizer a uma das mulheres que pousam os varapaus, os piques e as gadanhas para a revistarem, rosto fechado de mau agoiro. E enquanto em silêncio elas passam as mãos grossas e calejadas pelo interior das suas saias, do corpete e da capa, roçando-lhe, indiferentes, as ancas e as coxas, repara nas crianças apoucadas à roda, olhando. Especialmente as rapariguinhas, que Leonor não consegue comparar com as filhas, tamanha é a diferença dos destinos, bem visível na magreza dos corpos, na pobreza dos trajos, na fundura da dureza, na amargura da boca, no enredamento dos olhos.
Do outro lado da berlinda os soldados e os homens armados tentam entender, suspeitosos, os dizeres dos papéis que ela lhes entregara, e quando finalmente lhos devolvem e lhe permitem partir Leonor sabe que o mesmo ritual poderá repetir-se na próxima curva da estrada.
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Mano do meu coração
Acabo de tornar a Marselha vinda de Paris, onde cheguei na altura da missa do Espírito Santo e da procissão imponente na véspera da abertura dos Estados Gerais, a que assisti ao lado de Germaine de Staël. Foram dias de tensão e emoção enormes, que embora muitas vezes me tenham chegado a intimidar também muito me entusiasmaram.
Fui testemunha, mano Pedro, dos primeiros meses da revolução. Agora em Marselha onde estou começa-se a ouvir falar em sangue, sinal de que a intolerância está a vencer o ideal, que é belo e justo, ainda me fazendo sonhar, a despertar-me a vontade de provar a diferença, de conhecer a verdadeira liberdade e a igualdade que se desenham, quem sabe se até, um dia, entre as mulheres e os homens.
Encontrei a determinação onde antes estivera a fraqueza, e o gesto irado motivado sempre pela maior miséria e injustiça.
Seja como for, mano, sobretudo por aqui já nada é seguro, apesar de continuarem a multiplicar-se as tentativas de conciliação, pois há quem ainda acredite ser possível encontrar consensos onde em princípio só existe a contradição e o desencontro. A esperança de haver entendimentos é pouca, pois demasiado é o desejo de luta e de luto.
Neste momento, «os acontecimentos não têm misericórdia».
O povo está armado e na rua, as brumas adensam-se. A intuição dita-me a necessidade de partir depressa, de regressar a Portugal com Carlos Augusto e as crianças.
No entanto…
Algo de muito forte continua a prender-me a França.
Mana
L.
Marselha, 1789
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Claire Lacombe sabe quem é Leonor de Almeida, condessa de Oeynhausen. Habituara-se a vê-la na Assembleia de Marselha, acompanhada por poetas, e no teatro quando vai com o marido vê-la representar. Conhecera-a antes quando, regressada de Paris e a pedido de Olympe de Gouges, ela a fora procurar para lhe entregar uma carta.
– Porquê pessoalmente? – quisera saber na altura Claire, ao que a condessa portuguesa lhe respondera com um vago sorriso amargo:
– Porque a revolução me ensinou a desconfiar dos que me rodeiam. E mais do que tudo nesta vida, temo os déspotas, os traidores, os sicários, e igualmente os olhares e ouvidos indiscretos.
Esse ódio aos déspotas e aos traidores, comum às duas, fez nascer entre ambas um elo cúmplice de simpatia e conivência. Mais tarde, Claire dará por ela nas sociedades e na Assembleia, com os seus amigos idealistas. E no final das sessões, embora já radical e passionária, Claire passou a juntar-se-lhes, interessada nas suas palavras eloquentes, nas suas dicussões, embora lhes conteste as posições políticas conservadoras.
No entanto, é a condessa de Oeynhausen que lhe desperta a maior curiosidade, devido à estranheza que nela tem vindo a descobrir: condessa portuguesa que, apesar da contensão, se ligou às amazonas, como a brilhante Théroigne de Méricourt.
No bilhete enviado por Olympe de Gouges é-lhe proposto ir para Paris ajudar a construir o Clube das Mulheres Revolucionárias. Teria de trocar Marselha pela capital e o teatro pela revolução. Mas também lhe é dito ser da maior importância manter-se um permanente contacto com Leonor de Almeida.
Claire Lacombe será esse contacto.
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Os filhos dormem na ala norte, perto dos quartos das amas. Leonor volta a desoras, exausta e esquecida de tudo. Carlos Augusto, apesar de também chegar tarde, depois de o casino fechar, queixa-se da sua demora, mas ela nem o escuta, a atenção presa nas ruas e nas assembleias onde os acontecimentos se precipitam e decidem.