As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 167 de 289

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As Luzes de Leonor

Diário

Maria Luísa de Bourbón apercebe-se do alheamento em que Leonor caíra, tomada pelo arrebatamento da sonata de inspiração espanhola, e por sua vez deixa-se levar, as duas a perderem-se pelos meandros da beleza, tomadas pela breve sensualidade da música que as envolve e lava das grosserias do mundo.

 

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DIÁRIO

 

Parti para o Escorial hoje logo de manhã. A Infanta Mariana Vitória Josefa precisara durante a noite dos meus serviços para a acompanhar e seguir-lhe o parto, mas eu tinha a carruagem a arranjar e não consegui alugar nenhuma outra.

A Princesa teve uma filha a quem foi dado o nome de Maria Isabel. Menina muito bela, mas quanto a mim erradamente cuidada à nascença. Hoje o Infante Gabriel levou-me primeiro até junto do leito onde a nossa Infanta continua de resguardo, e em seguida até aos aposentos dos pequenos Príncipes, onde vi muita cousa que me desagradou.

«O Infante D. Pedro está coberto de tinha das crianças, e seguramente que nada fazem para refrescá-lo sem consequência; eu dava-lhe “des yeux d’écrevisse” e alguma bebida adoçante. O médico é um parvo e o parteiro um fazedor de transtornos sem nenhum discernimento.»

Fiquei cheia de pena da menina recém-nascida: entre os lábios de pétala havia um pouco de sangue misturado com a saliva.

Madrid, 6 de Novembro de 1787

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Depois de uma breve agonia, a pequena Infanta nascida há pouco morre praticamente no colo de Leonor que, impotente, lamenta não ter podido fazer nada para a salvar.

Madame Castelfuerte, aia da princesa morta, inconformada com a tragédia que ela e a condessa portuguesa acabam de presenciar, e que terão de comunicar aos Infantes de Espanha, insiste com Leonor para examinar a criança, que continua enfaixada como no dia do seu nascimento, pois só ao parteiro é permitido libertá-la das largas tiras de pano branco que oprimem o corpinho frágil, pouco a pouco a arrefecer-lhes nos braços.

Mas julgando perceber os motivos da aflição e as desconfianças da aia, Leonor, com a sua ajuda, começa cuidadosamente a alargar e deslocar as faixas, de modo a poder ver o que se mantém cruelmente escondido, e que ela com ansiedade e expectativa destapa, mal retendo um grito de surpresa ao aperceber-se de que o «fazedor de anjos», ao enfaixá-la à nascença, havia estropiado a menina.

«Os ossos que formam o peito estavam partidos, e o osso do meio encontrava-se voltado para o ombro, que também estava deslocado.» E não podendo mais, horrorizada, Leonor acaba por exclamar, num tom de voz embargado:

Deus da minha alma!

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Mano do meu coração

Pedro, estou em Madrid, tendo sido recebida na Corte por Sua Majestade Católica, a quem prestei as minhas sinceras homenagens, assim como aos Príncipes das Astúrias, ao Infante Gabriel e sobretudo à nossa Infanta Mariana Vitória Josefa.

Conto partir em breve a caminho de Lisboa, na esperança de que nenhuma outra perigosa aventura me aconteça nesta minha acidentada viagem. Para mais apunhala-me o coração a morte de Maria e também por isso volto a Portugal a procurar consolo nos braços de nossos pais, tentando preencher o vazio aberto no meu peito; para tal não têm ajudado também as saudades que sinto de todos, especialmente da minha filha Leonor Benedita que já nem conheço.

Arrasto comigo, instigante, uma dúvida no que diz respeito ao bom acolhimento que nosso Pai me queira ou não dispensar. Quererá ele na verdade que eu volte? As cartas que me tem enviado estão todas elas eivadas de críticas e dúvidas, de suspeitas e ressentimentos, cujo verdadeiro significado me escapa. Vê tu, mano, se vais arranjando as cousas de modo a fortalecer os laços que nos hão-de unir uns aos outros.

Infelizmente o tempo de poder ficar em Portugal não será tanto quanto eu queria; inquieta-me ter deixado Carlos Augusto em Avignon a cuidar de duas crianças tão pequenas, e as saudades que tenho deles todos os dias me matam.

Mana

L.

Madrid, Novembro de 1787

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Nota-se no seu olhar uma inquietude imensa.

A noite mal dormida na hospedaria de Elvas, marcara-lhe com olheiras fundas a face pálida. Os anos passaram por ela com brandura, mas aflige-me ver a minha irmã desanimada e triste, amarrotada e suja das poeiras das estradas.

Ao ver-me à porta do seu quarto logo de manhã cedo, olha-me espantada, sem saber que a espero há semanas, tão preocupado ando com as notícias que me chegavam da sua viagem; e quando finalmente nos abraçamos, sinto apertado ao meu o seu corpo nervoso tremendo de alívio e de alegria.

– Vem mana, vamos para Almada! – digo-lhe ao ouvido, enquanto continuo a apertá-la com o laço do meu abraço, mas logo a sinto crispar-se com a habitual rebeldia, interpretando a minha proposta como uma ordem sobre a sua vontade. Certamente por isso afasta-se, mão em frente a repelir-me o braço que ainda lhe envolve a cintura. E já solta de mim tenta pôr alguma ordem nos cabelos emaranhados a escaparem da touca de dormir, fitinhas de cetim desatadas, e como o négligé deixa antever a sua pele branca, embrulha-se num xaile que tira de cima de uma cadeira.

– Sai Pedro, para eu me arranjar, que sem o meu banho não passo! – E perante a minha hesitação, acrescenta já agreste:

– Sobra-me tempo para chegar a Almada, agora que Maria não estará à minha espera.

Mas de súbito meiga, abraça-me, parecendo querer emendar o tom desabrido. Pergunto a mim próprio se a angústia que Leonor sente por ir ver nosso Pai será mais intensa e forte do que o desejo de abraçar a filha, deixada sumida entre os lençóis e as rendas do berço ao partir para a Áustria.

– Despacha-te Leonor! Não tentes adiar o inevitável. Isso nem condiz com os teus modos de frontalidade – digo-lhe, impaciente.

E saio sem demorar de novo os meus olhos nos dela.

†

Impressionada com Pedro de Alorna, Angélique vai prestando atenção às conversas da condessa de Oeynhausen com o irmão, enquanto enche a tina colocada a um canto do quarto, nela despejando, alternadamente, a água quente e a fria dos jarros de porcelana branca alinhados junto à parede.

Preparar o banho é uma tarefa que lhe dá gosto, mesmo nos pobres albergues e estalagens das estradas: óleos odorosos a rosas e a madressilva em flor, para misturar com a espuma que consegue raspando o sabão de cheiro delicado, a amaciar-lhe as mãos. Numa cadeira estende as toalhas de felpa aquecidas diante da lareira acesa e a longa fita que serve para prender no alto da cabeça os cabelos espessos e longos da sua patroa. Na mesa de toillete põe os cremes de camélia e de nardo. Mais atrás ficam os frascos das essências e dos perfumes.

Naquela manhã, porém, Angélique está distraída a tentar entender uma língua que não é a sua, intrigada com a chegada daquele jovem militar fardado e singularmente belo, olhar ensimesmado de quem se resguarda em vão de um destino funesto. Apesar da aparente melancolia descobre-lhe uma ferocidade interior que reconhece por já a ter visto no olhar da condessa de Oeynhausen.

O abraço fraterno confirmara-lhe serem eles irmãos, e olha-os com disfarce, cuidando em parecer atenta ao diário ritual dos gestos e dos pequenos ruídos. No entanto escuta e mede e pesa a entoação diversa das palavras estrangeiras, levando-a quase a entender do que os dois falam. Ambos rodeados por auras diversas, embora semelhantes pelo seu avesso na desmesura das vidas que lhes caberá em sorte, façam o que fizerem para as irem adiando ou contrariando.

Angélique empalidece diante da imensa tragédia que pressente poder tornar-se a vida do jovem conde; já a da irmã, mais obstinada, irá cumprir-se,

num futuro aventuroso e acidentado.

†

Olha com curiosidade para a cunhada que ela não conhece, e a vem receber na Aldeia Galega em companhia do primo Bernardo José Maria da Silveira, que não vê há anos.

Leonor contava ir directamente para Lisboa, mas fica a saber que o Pai lhe enviara dois escaleres e um grande yacht, onde está à sua espera Leonor Benedita.

Sem pinga de sangue, embarca.

Olhar absorto.

Ladeada por Frederica e Juliana, expectantes.

Quando o barco em que seguem encosta ao yacht, Leonor vê alguém pousar perto de si uma menina trigueira e magrinha que não conhece mas deduz ser a sua filha. Inclina-se, ergue-a e aperta-a ao coração, a bater descompassado.

Coração desabalado que a criança não escuta no peito da mãe, deixando-se apenas abraçar, como uma boneca, olhos presos nas irmãs imóveis nos seus fatinhos de cetins, fitas e laços, como nem a prima usa, e acha-as ridículas. Mas quando finalmente pisa o fundo do escaler, voltando a sentir o estremecer oculto das águas do Tejo debaixo dos pés, sorri para Juliana e para Frederica, que logo se aproximam e a beijam, dirigindo-se-lhe numa língua que ela ainda não conseguira ou quisera aprender. E sem as interromper,

olha com desafecto para aquelas duas estranhas.

†

O Pai espera-a em Almada, ao fim da escadaria da casa.

Vê-o apressar o passo para abraçá-la, enquanto em surdina lhe ressuma aos lábios gelados um ruído estranho que em tudo se assemelha a um gemido, desmentido pelo olhar duro, embora humedecido pelas lágrimas, com que a fita.

Diante de tantos sinais contraditórios Leonor desata os braços do seu pescoço e faz descer da carruagem as filhas que se intimidam diante do avô que nunca viram; e pela primeira vez desde manhã cedo, quando a foram tirar da cama para ir ao encontro daquela mãe estrangeira, que continua a prender-lhe os dedos com a mão fria, Leonor Benedita rejubila. Estando no seu território, despega-se de Leonor e atira-se para os braços de D. João, que parece repeli-la e trocá-la pelas irmãs cabisbaixas.

Deslocadas.

Num acto de ousadia que ela sabe ir ser entendido como de alegria e de boa vontade, entrepõe-se entre o avô e as meninas arredias e puxa-as a correr para a casa ao fundo, botinas fortes e passo ágil de quem está habituada às pedras soltas que resvalam debaixo dos pés e os magoam. Conhecedora do terreno áspero, torrões de terra seca que se esboroam enchendo os sapatos de cetim das irmãs de gravilha e dos espinhos que o vento do inverno arranca das rosas trepadeiras da latada. O roseiral prende e rasga-lhes as saias dos vestidos macios, quando passam restolhando, levadas pela pressa de Leonor Benedita que as desequilibra e puxa escadas acima, porta empurrada de roldão, até pararem dentro de uma sala enorme e sombria,

diante da avó sentada na sua cadeira de paralítica.

†

Com a mão anquilosada sobre o meu ombro, a avó empurra-me com firmeza para ela, que me fita junto à porta do escritório, onde gosto de passar os dias a tentar ler os livros abertos ao acaso, a tomar o gosto do cheiro a papel seco. Reparo satisfeita no seu olhar aflito, enquanto permaneço calma, mais curiosa do que interessada em conhecê-la.

Minha Mãe, desconhecida a quem não saio na perfeição da beleza, feições correctas em contraste com os meus traços irregulares, mel onde serei o cardo, ela céu suave e eu terreiro árduo. Tudo me afastando da sua beira, a fugir quanto posso da estreitura dos braços estendidos com que depois me rodeia apertando-me ao peito, a nausear-me com o seu perfume a nardo e a mirto, enquanto tento sem êxito arredar o meu olhar castanho do seu azul-cinza.

Uma estranha.

Ar de estrangeira galante, arrebatada, não se assemelhando a ninguém da família ou pessoa desta casa onde desde sempre vivo descansada e da qual conheço até os ninhos dos pássaros nos beirais do telhado, os lugares de sossego e de sombra, os sítios de agasalho e quentura e cada um dos desvãos secretos.

– Minha Leonor, minha filha, meu tesouro! – sussurra-me ao ouvido, mas eu nem lhe respondo, temerosa de seus arroubos aos quais não me acostumo, mais habituada a passar rente aos desertos dos afectos do que às carícias do corpo, pois os dedos de minha avó seguram melhor os terços do que conhecem os modos do afago.

Finalmente consigo desprender-me daquela que afirma ser minha Mãe, desdizendo-a eu com a indiferença do trato, pois a minha verdadeira Mãe é a das cartas, aquela que me escrevia e a quem eu, a partir do capricho da letra, imaginava e respondia com a alma. Não porque a quisesse, pois não a queria para nada, sobretudo se de rompante chegada de França, que só de vê-la me farto, muito hirta vestida de cambraia, atraindo-me a si e a afagar-me os cabelos lisos e espigados.

Com a minha frieza tento desmanchar-lhe as maneiras, os requebros maternos, na esperança de que me largue. Mas ela enfrenta a minha hostilidade com um sorriso de linho, os dentes brancos e pequenos fazendo nos lábios uma fieira de pérolas polidas com a ponta da língua. Eu recuo, a querer feri-la com o gesto agreste do meu corpo desajeitado feito de ossos largos, feiura maior a comparar com o seu viço. Isso turva-me o pensamento e irrita-me os nervos, fazendo-me tropeçar quando fujo pelas escadas subidas a correr.

– Isto é só no começo… Com a passagem dos dias ela há-de habituar-se –, ouço dizer minha avó a desculpar-me, embaraçada mas contente ou vingada, não sei, e sem me voltar continuo em alvoroço a querer esconder-me no fundo do sótão, onde ninguém me acha ou sequer me procura.

Galgo já os últimos degraus velhos de madeira lascada estalando debaixo dos pés, que evitam as gretas e as falhas, os nós salientes e as roeduras dos bichos. Levo os olhos cegos de raiva por ter mostrado a quem não queria a ferida aberta do flanco liso, tão abalada que tremo e gemo e suo na ardência da febre, sabendo lidar melhor com o desprendimento do coração do que com a turvação da ternura, súbita onda de carinho que me apanhou desprevenida.

De respiração suspensa encolho-me no sítio onde no sótão o tecto é mais baixo e inclinado, os ombros curvados, os soluços sem tino, não entendendo a razão do choro incontido. Dobro mais as pernas sem medo de amarrotar as saias ou o bibe, e encosto a cara molhada nos joelhos, acabando por resvalar na poeira do soalho que cheira a folhas secas, a insectos mortos, a humidades de chuva ressentida.