As Luzes de Leonor
Raízes
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Quando a camareira-mor D. Ana de Lorena conduz à minha presença os marqueses de Távora acabados de chegar da Índia, fito-os com dureza e um silêncio de aço, sem que na minha expressão fechada haja o menor sinal de temperança. Demorando o meu olhar particularmente na fundura dos olhos mosqueados de violeta de D. Leonor, a querer fazer-lhe sentir o gelo de que o meu coração necessita para aliviar a dor da ferida aberta pelo escandaloso comportamento da sua cunhada e nora D. Teresa, marquesa nova de Távora, com El-Rei meu marido. Apesar de não acreditar que algum deles saiba a nora que têm, chegados da Índia na ignorância ainda da ignomínia, da desonra por ela lançadas sobre toda a sua família.
Para que não se me veja a tremura das mãos, descanso-as no regaço do vestido de brocado bordado a safiras vermelhas, sentindo a abrir-se em leque no meu corpo o arrepiamento que sempre me provocam as pedras preciosas sanguíneas – as granadas, os rubis, o jaspe de sangue quente, os topázios-cereja, o coral e as turmalinas rubras –, todas elas incrustadas em diademas, pingentes, colares ou anéis e pulseiras que hoje uso com o propósito de me apresentar aos marqueses de Távora paramentada com a ostentação própria da Rainha de Portugal.
Distanciando-me eu de mim o necessário para que nada transpareça da minha infelicidade de mulher mal-amada.
– Permita-me Vossa Alteza que vos preste a minha mais sincera homenagem! – diz com voz firme D. Leonor, ao inclinar-se à minha frente, tentando apagar do rosto a expressão crispada devida à ostensiva hostilidade com que a recebo e ao marido, que se mostra igualmente surpreendido.
É então que dou conta de um vulto a tentar disfarçar-se no ondeado do veludo da pesada cortina usada como reforço da porta da câmara onde estávamos. Nessa sombra julgo reconhecer o secretário de Estado e inquieto-me, sem saber há quanto tempo se encontrará ali a espiar-nos, a memorizar cada uma das palavras pronunciadas, a tentar adivinhar-nos os pensamentos, a medir as nossas ansiedades e agastamentos. Enquanto – pressinto-o – vai arquitectando um plano que, com conivência do Rei, começa a delinear: espécie de mapa feito de negrumes raiados pelos traços encarnados do muito sangue que em breve será derramado.
Um pressentimento terrível faz-me vibrar de espanto.
Como se uma ponta de aço me trespassasse o peito, em busca do pouco que resta do meu coração esfacelado.
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