As Luzes de Leonor
Diário
Fiquei maravilhada com a pintura de Caravaggio.
Fascina-me o seu traço ousado, o negrume da autenticidade, a sensibilidade sombria imbuída de uma extrema audácia.
A jogar com uma estranha e assustadora morbidez raivosa, usando sem temor aquilo que em mim mais receio: o excesso.
Ao contrário dele, a paixão enfraquece-me.
A razão contém-me e por isso liberta-me.
Apesar do constante descontentamento em que me afundo.
Tal como Caravaggio,
nada me satisfaz, nem basta. Perturbo-me tanto com aquilo que exorbita, como com o vazio absoluto que sobre nós se abata.
Mannheim, 3 de Agosto de 1780
†
Ao chegar a Frankfurt no dia 6 de Agosto, Leonor afasta a cortina da janela da berlinda e colhe com o olhar aceso a luz avermelhada do sol que se põe.
Encandeada, vê por entre brumas uma jovem mulher com um largo avental de riscas escuras, transportando um cesto de lenha à cabeça, atravessar-se à frente dos cavalos que se empinam. O cocheiro trava e ela sente-se projectada para a morna penumbra do carro. Cansada, encosta a cabeça no ombro do marido, sem saber há quantas horas percorrem as estradas poeirentas.
Tiveram de se desviar do plano inicialmente traçado para a viagem entre Portugal e Viena de Áustria, pois Leonor teimara em conhecer a Frankfurt da sua fantasia, lugar de coroações de imperadores e de encontros de poetas.
Há muito que deseja passar os dedos pela rugosa pedra das suas mansões góticas. Sobretudo quer andar por onde já caminhou Goethe.
Alimentando o impossível sonho de conhecê-lo.
Ao chegar à cidade do Meno Leonor sente-se incrédula, como se a realidade teimasse em copiar-lhe a imaginação. Abre muito os olhos, sem querer perder nada desse momento mágico.
Percebendo o seu entusiasmo Carlos Augusto ri-se, beija-lhe a pele macia do pescoço, sentindo nos lábios o gosto doce do seu perfume cálido. Em seguida deixa a boca deslizar até à sua nuca, onde a raiz do cabelo se humedece com o suor da viagem.
Mas Leonor enerva-se, e num grito brusco manda parar o carro e sai ao encontro de tudo. Sendo o tudo, para ela, a descoberta do novo que já a cerca.
Desafiando-a.
Fingindo não ouvir o chamamento do marido, desce uma escada íngreme de pedra sombria. Deixando-se embriagar pela própria excitação, segue depressa,
a caminho do desconhecido.
†
«Senhora minha Mãe da minha alma
Chego a Frankfurt em boa saúde, mas como faço trinta e tantas léguas por dia estou cansada, e só escrevo para dar notícias minhas a Vossa Excelência. Demorei um dia em Mannheim, onde vi em Pintura tudo quanto pode imaginar-se de perfeito», desejando poder mostrá-la a meu Pai ou dar-lhe dois painéis que o encantariam. Vinha com fome de coisas sábias e quis conhecer o Observatório do Eleitor, onde passei uma tarde sumamente divertida porque o seu director, que é um dos maiores «savants» deste século, insistiu em nos receber pessoalmente. Fizemos uma imensidade de observações curiosas com um instrumento moderno designado por «quarto de círculo mural», inventado por um inglês chamado Bird. Durou quase até à noite a nossa conferência, e aprendi mais nesta visita do que em muitos meses de estudo. O director do Observatório também me pareceu ter gostado da nossa sociedade, pois fez-me vários cumprimentos polidos sobre as minhas aplicações.