As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 227 de 289

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As Luzes de Leonor

Diário

«Eis uma mulher perigosa!» – pensa com desconfiança, sem deixar de dar conta da sua elegância e donaire. E Pina Manique estremece quando em seguida se apercebe da chegada de Freire de Andrade e, momentos depois, do conde de Pombeiro, que antes de desaparecerem pela grande porta meio encostada da Academia dialogam com animação.

O Intendente tenta inutilmente ler-lhes nos lábios o que dizem, imaginando estar diante de uma maquinação da Maçonaria importada do estrangeiro e que pelos vistos encontra em Portugal o maior eco, o que poderá levar o país ao mesmo terror que continua a assolar a França. E misturando no seu delírio jacobinos com girondinos no mesmo plano diabólico, Pina Manique entende caber a ele desmascará-los e prendê-los, antes que maiores desgraças aconteçam.

 

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DIÁRIO

 

Era inevitável! Pina Manique acaba por descobrir que, com o conhecimento do duque de Lafões, o abade Correia da Serra esconde Boussonet na Academia Real das Ciências. Consta mesmo ter já mandado passar as ordens de prisão contra ambos.

Vai ser preciso fazê-los sair de Portugal antes disso.

Para quando a liberdade de pensamento?

Lisboa, Dezembro de 1795

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O abade Correia da Serra olha em torno do seu gabinete com antecipada saudade. Demora o olhar nas estantes cobertas de livros, nas gravuras de Domingos António de Sequeira, no quadro pintado por Fuschini e ofertado por este há menos de um ano.

Na parede forrada a papel listrado a ouro, já perto da grande secretária de mogno, está pendurado o retrato do duque de Lafões, querido amigo que se vê obrigado a deixar. Acima de tudo lamenta ter de abandonar o seu convívio e o sonho que os dois continuam a alimentar: a Academia Real das Ciências imaginada como pedra de fulgor e do conhecimento, seguindo a claridade das Luzes. Construída com o esforço de quem acredita naquilo que em Portugal continua a parecer uma tarefa impossível: um pensamento e uma cultura próprias, modernas, a fazerem-se visíveis.

«Filosofices» – sabe ter comentado no início Pina Manique, com desprezo mas sem deixar de estar alerta no comando dos seus sicários refeces, «moscas» esvoaçando em torno da própria ignorância. A inventar sombras onde sobra a claridade, mandando-o seguir, abrindo-lhe a correspondência, retendo-lhe os livros que chegavam de França, interrogando-o a respeito de relações que o Intendente da Polícia está convicto ele ter com a Maçonaria e com os perigosos revolucionários franceses que, segundo Manique, ameaçam a independência do Reino.

Fingindo aconselhar-lhe prudência, conjectura ir encontrar na Academia o desacato ou, pior do que isso, a traição à Rainha doente, num Portugal que o indeciso Príncipe D. João dificilmente conseguirá governar. Mas com a súbita chegada clandestina de Boussonet que, com a conivência do duque de Lafões, acabara por esconder nas instalações da Academia, tudo se precipitou a encaminhá-los para um inevitável ponto de ruptura: o mandado de captura contra ele e Boussonet, mandado passar por Pina Manique.

O abade Correia da Serra deixa-se ficar sentado um pouco mais, atrasando a hora da partida para o exílio na companhia do botânico francês: de Lisboa ao Algarve, daí a Gibraltar e de lá a embarcar já sozinho para Inglaterra. E lembra-se do que lhe contaram sobre o sentimento de amargor daqueles que se vêem empurrados para fora da pátria.

À sua frente está a secretária agora nua. Num gesto de impotência e desamparo descansa as palmas das mãos abertas nos braços da cadeira de cerejeira, na qual se reclina para trás, cabeça encostada no espaldar largo e alto, como se descansasse, quando na verdade, mais do que nunca se encontra atento ao pulsar da casa nos seus mínimos ruídos, mesmo aos que lhe chegam abafados pelos cortinados de brocado, pelos tapetes de lã escarlate e fio carmesim.

Pela última vez dá conta da terna fragrância das rosas postas nas jarras de porcelana da fábrica do Rato, e também do perfume denso dos bolbos de narcisos e das ervilhas-de-cheiro que crescem nos canteiros debaixo da janela entreaberta, no jardim onde a ameixoeira plantada por ele próprio estará, como gosta de imaginar, a aguardar a sua visita nocturna.

No entanto, o que o abade Correia da Serra pretende sobretudo reter na memória é o cheiro dos livros: odor ligeiramente crespo, um tudo-nada ardido e áspero das encadernações antigas, do papel amarelecido pelos anos e adelgaçado pelo perpassar dos dedos.

Do pátio recolhido no escuro espesso da noite, porém, chega-lhe a voz alterada do cocheiro impaciente, a vociferar com os machos atrelados à berlinda que os espera. Ergue-se por fim, mas tão relutante e lento que quase parece continuar imóvel. Com dificuldade veste o guarda-pó pousado no canapé à entrada, e ao chegar à porta vira-se em jeito de dolorosa despedida, e num sobressalto dirige-se a uma das estantes de onde retira, para levar consigo, o pequeno volume dos sonetos de Camões.

Pela primeira vez o seu olhar vacila.