As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 210 de 289

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As Luzes de Leonor

Diário

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Faço versos contrários à vida que levo,

aparentemente vazia e aquietada, mas na verdade trespassada por um ambicioso desejo de plenitude: atraída pela insalubre crueldade da alma, que arrasta consigo as contradições e os luzimentos mórbidos de um espírito melancólico.

Mal me mantendo à tona das águas estagnadas da inquietude, das dúvidas e dos tantos receios, debatendo-me num esbracejar da quase afogada que sobrevive por entre pesadelos. Surpreendida ora pelas chamas do incêndio, ora pelas vagas do oceano, que tão depressa me queimam como me afogam, submergindo-me vorazes ou embalando-me com cuidados de berço, atirando-me e guardando-me, mas acabando por me conduzirem esfacelada de volta à areia da praia.

Lisboa, 28 de Junho de 1793

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O marquês de Alorna encontra-se junto da filha quando esta recebe uma das muitas cartas que lhe chegam de França. Vê Leonor quebrar o lacre, alisar as páginas tentando não rasgar as margens do papel frágil, que alisa com a amêndoa das unhas.

Rosto de presságio ruim tingido de suspeição, tão descorado quanto os lábios secos, saliva fugida da língua encolhida no esconderijo da boca, onde a penumbra se humedece a si mesma.

D. João segue-lhe, atento, os movimentos: quebrado o lacre, desdobradas as folhas, observa-a, nervosa, a manejar a faquinha de prata encimada pelas armas da família, habitualmente pousada na salva, perto da desarrumação dos livros e dos cadernos amontoados, a avolumar o traço – para ele insuportável – da desordem.

Espreita-a a ler as páginas, que de tão transparentes e finas mal sustentam as manchas cor de ferrugem da tinta que a trespassa, parecendo diluída pelo sal das lágrimas.

Curioso, examina-lhe as expressões: detecta-lhe a palidez, a avidez quando se inclina a ler cada uma das folhas, e repara como estas parecem arder nos joelhos onde ela as pousa. Até que Leonor se ergue a sufocar um grito, mãos levadas ao peito na turvação dos sentidos, expressão dilacerada a arrepanhar-lhe a face pálida; lividez acentuada pelo negro do vestido com mangas de renda ensombrada. As pernas cedem e ela oscila, do tom da cera das velas de altar, feições esmaecidas pela notícia recém-chegada.

Acabando por afundar-se sem uma palavra.

Tombando a seus pés com uma lentidão irreal, que só os pesadelos consentem. Imobilizado pela surpresa, olha o modo como a filha se encontra enrodilhada no tapete de Arraiolos, um pouco torcida, rodeada de folhos e saias.

O caule do pescoço parecendo de cisne?

Mas já as suas pálpebras translúcidas e fechadas parecem querer esvoaçar na lisura da face, e o marquês de Alorna apressa-se para o escuro do corredor de onde grita por ajuda, regressando em seguida para apanhar a carta meia encoberta pelos cortinados de damasco da sala: páginas espalhadas, como se quisessem desarticular as notícias que trazem.

Depois de Thérèse sair amparando Leonor, D. João senta-se a inteirar-se dos acontecimentos de que Germaine de Staël dá conta no seu relato: o espancamento brutal pelos jacobinos, seguido do internamento de Théroigne de Méricourt em Salpêtrière, no dia vinte e cinco de Maio. Voltando o marquês atrás, aos pormenores mais violentos e repugnantes, a reter apenas o que para ele é inadmissível: a ligação da sua filha àquela republicana amoral sem eira nem beira.

– Não sei como pudeste ter feito amizade com semelhante criatura! – recrimina-a desabrido, ao entrar de rompante nos aposentos de Leonor, deitada na cama demasiado larga para uma viúva. E indiferente perante o seu desgosto e a sua prostração, continua, com uma frieza implacável:

– O tratamento dado à tua amiga é aquele que merece uma mulher sem princípios nem recato – acentua, não se apercebendo de que, ao fazer tal afirmação, está a colocar-se do lado daqueles por quem nutre um profundo ódio.

Diante das palavras do pai, Leonor levanta-se arrebatada a fitá-lo com dureza, ao mesmo tempo que avança, mãos estendidas fincadas na fazenda áspera do seu casaco, a empurrá-lo em direcção à porta enquanto vai dizendo:

– Pode o Senhor meu Pai estar tranquilo que os jacobinos já se encarregaram de nos separar, possivelmente para sempre.

A voz dela tem uma textura ácida contaminada pela amargura que lhe tolda a alma, coração desacertado pelo desgosto inconformado.

Ao recuar diante da fúria de Leonor, D. João de Almeida dá conta do seu olhar aceso, feito de tonalidades obscuras, semeado por minúsculos pontos arruivados criados pela ira, a enfrentá-lo. E mais uma vez reconhece na filha que não criou a teima em negar a sua autoridade.

– Que vergonha! – grita, a tentar recuperar o poder há muito perdido.

– Peço a Vossa Excelência a bondade de retirar-se, para eu poder descansar!

O marquês detecta, no tom áspero empregue por ela, o acento implacável de quem por natureza ordena em vez de obedecer. E isso parece-lhe tão pouco feminino que se assombra, acabando por sair em silêncio. Impotente diante da sua determinação, do seu tumulto.

Consciente de que mais uma vez Leonor o vencera.

 

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