As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 263 de 289

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As Luzes de Leonor

Capítulo 1802

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Sai pela primeira vez sem espartilho. No seu lugar usa uma camisinha translúcida e a tapá-la um leve colete de linho gomado, descendo justo até abaixo da cintura por ele modelada.

Dividida entre a ousadia e a estranheza sente-se nua.

Indecisa, contraria a vontade quase irresistível de voltar atrás no atrevimento, ajeita mais no pescoço alto a gola do casaquinho de shantung verde-pimenta abotoado ao longo do peito, botões dourados e aplicações esmaecidas de cetim castanho de polimento, a disfarçar-lhe os seios altos.

Mal deixa o abrigo da porta, o vento agreste desarruma-lhe os caracóis a escaparem por baixo do chapéu com breves e leves plumas rosadas. Prenúncio de tempestade de começo de estação, que a sobressalta, levando-a a suster o passo antes de subir para a sege parada no pátio sombreado de plátanos diante de casa, não sem antes tropeçar na terra batida onde teme sujar os sapatos, decorados com lantejoulas e cintilantes missangas miúdas, num desenho estrelado, salto de forro dobrado que a desequilibra, obrigando-a a caminhar num disfarçado ondear das ancas estreitas e lisas.

O frondoso ramo de camélias brancas, de pétalas frisadas e leitosas, encontra-se pousado num jeito enganoso, dir-se-ia calculado, reclinado no banco de veludo escarlate.

Entorpecidas, na branda escuridade.

Leonor repara nelas no momento em que entra no carro, um pé mal equilibrado no estribo estreito e o outro no movimento lento de subir, para em seguida ganhar a sombra que os cortinados de damasco artificialmente criam, a mão direita apoiando-se enluvada na ombreira da portinhola, enquanto a outra ergue o vestido de tafetá bordado a lâmina de ouro, delineando-lhe o talhe harmonioso.

Ramo de camélias vermelhas, por pouco a escorregar do brocado do assento da sege, onde fora artificiosamente colocado, quase a tombar no tapete espanhol. Mancha equívoca da cor do sangue tépido, espalhando-se na penumbra entorpecida.

Sem espartilho, Leonor sente o corpo desprotegido e solto debaixo do vestido, e num movimento ágil recusa a mão estendida do estribeiro e acaba de subir assentando a ponta do pé no degrau instável, inclinando-se em seguida um tudo-nada, a silhueta delgada dobrando-se. E é nessa altura que pela primeira vez vê as flores.

Um ramo de camélias de uma brancura lívida, que mal se equilibra no assento de veludo, com a sua marca de pureza intacta, disposto com um cuidado esquivo ou quem sabe impaciente, as folhas apertadas em torno de si mesmas.

Dúbias.

Desejo a ganhar forma na sua imbricada teia de pequeníssimas veias; simultaneamente, porém, havendo nelas um rasto de recato velado que a perturba e lhe tolda o olhar admirado. Ergue-as com cuidado, para as levar até ao rosto dando conta, desagradada, da sua total falta de perfume, num recôndito indício de esterilidade, para logo com impaciência nervosa as deixar tombar no tecido rugoso da saia.

As faces em fogo e a boca seca.

Avança a sege devagar pelas ruas estreitas, que vão da Rua da Boa Morte a Buenos Aires, passando diante da Basílica da Estrela, ar ainda limpo da pestilência que àquela hora já começa a invadir a parte baixa de Lisboa, bem perto do Tejo. Fecha apesar de tudo as janelas e corre as cortinas de seda da Índia, adoçando desse modo a pouca claridade já de si travada pelas nuvens, por trás das quais se recolhe um sol de começo de primavera, esquecido do trabalho de aquecer os dias.

Meia-luz a tornar mais intenso o rubor das camélias, num gritante contraste com a escureza onde as cores se acentuam num impossível disfarce, a esfacelar a diferença dos tons estremecidos, por onde elas se derrimam, húmidas de um inverosímil orvalho.

Resguardada do olhar impertinente e agressivo de Lannes, da insistência ameaçadora dos mendigos, da curiosidade grosseira dos esbirros de Pina Manique e de quem mais pretenda seguir-lhe os passos, a tentar adivinhar-lhe os gestos na devassa da sua intimidade, Leonor, de novo perplexa e indecisa, desce o olhar relutante como se quisesse evitar fixar-se a seu lado, na beira do banco forrado onde ela sabe estar…

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O bouquet de camélias atado por um ligeiríssimo fio, nó dourado disfarçando-se na carnação das pregas das pétalas brancas das flores, palidez a contrastar com o amarelo intenso do tafetá do regaço onde elas repousam, equívocas, brandas e macias.

Volta a poisá-las com cuidado à sua beira. Imaginando a quem poderá contar, desabafar sobre elas, sem ser a Catarina que continua fora de Lisboa. Segredo que terá de guardar, assim como a confissão de estranheza e impacto estonteante que lhe está a causar sair sem espartilho, no entanto a transmitir-lhe ao mesmo tempo uma jubilosa sensação de liberdade e turvação, num indefinível calamento de sobressalto.

E, sem querer, a sua atenção nervosa volta a prender-se nas camélias de um tom sanguíneo de rubi cintilando na cerração oscilante do carro, embalo a fazê-las cada vez mais deslizar do macio e tépido tecido do assento para o espesso tapete bordado.

Prendendo-se ela ao enredo por si mesma entretanto inventado, à suspeita formada no seu espírito, fruto da urdidura do seu imaginário; mas, sobretudo, entregue ao desafio que a tenta. Sem conseguir ainda confessar a si própria o anseio recalcado, o veneno espúrio, o espinho contaminado, a febril sedução que a está vencendo, a partir do desejo. Consciente do perfume intenso, obsessivo e espesso, que de toda aquela encenação ou delírio se evola, insinuante, para logo se dispersar.

Manipulador e veemente.

Desnorteando-a.

Camélias brancas, desfalecidas de tão pálidas, testemunhando a pureza das intenções de quem as envia, para logo se tingirem de um vermelho vertiginoso, na morbidez nervosa e febril do desnorte ardente. Um pequeno ramo, que ela aperta aos seios.

Flores entreabrindo-se com morbidez, numa espécie de sussurro esmaecido, suspeita de sopro ou de suspiro; acicatando nela, mais do que encobrindo, mais do que iludindo as pulsões sobressaltadas da ansiosa matéria do próprio desassossego, num refreado desejo de entrega enlouquecida, mas nos últimos tempos tão constantemente imaginada. Sentimentos, anelos a que, até há poucos meses, jamais se permitiria.

†

Quando lhe trouxeram a notícia de que Leonor Benedita tinha entrado em trabalho de parto, Leonor larga tudo e corre para Benfica. A juntar-se à parteira e às mulheres que, nessas horas unicamente femininas, sempre rodeiam, ajudam e partilham:

o nascimento das crianças.

Todo ele feito de sangues, de gritos e sucos do corpo, de lágrimas mal retidas e gemidos sumidos, de lençóis, panos e toalhas, de tesouras e alguidares e jarros de água fervente. E nas últimas dores de expulsão, é ela quem estende as mãos firmes para segurar

o seu primeiro neto.

E antes mesmo de o mandar limpar das sujidades do nascimento, cuidando de que não o enfaixassem, leva-o até Leonor Benedita, de quem estranha o silêncio e a fixidez vazia e sem brilho do olhar. Rosto toldado por uma sombra ambígua.

Alheada até diante do filho.

Impressiona-se com a indiferença hirta dos seus braços, quando neles coloca o menino que ela não aconchega a si.

Como se recusasse ensinar ao filho

o caminho até ao seu peito.

†

Frei Rafael de Lorena, já paramentado e descendo a curta nave, repara na altivez do porte da condessa de Oeynhausen, depois de ter estremecido com a sua beleza ressentida que sempre o apanha desprevenido. Em torno do fulgor do seu talhe, a tepidez da luz vacilante das velas do altar esbate-se por entre os lírios e as açucenas, a deixá-la brilhar só a ela, ajoelhada no genuflexório com estrado forrado a veludo lilás, rosto erguido para a imagem de santa Teresa de Ávila.

No entanto intui que ela não reza.

Com o menino ao colo, é a condessa de Ega quem avança primeiro até à pia do baptismo, passo vagaroso pelas lajes gastas da ermida do marquês de Fronteira, que de casaca de veludo com forro de cetim dançando no corpo magro logo a segue, as mãos amparando-se uma à outra atrás das costas. Alegram-se-lhe os olhos castanhos e brilhantes no gosto de baptizar o primeiro filho, ansiando por esquecer o vazio que, depois do parto, parece velar os olhos de Leonor Benedita, assim como os pesados silêncios cavados onde a vê afundar-se numa espécie de alheamento pálido.

Frei Rafael olha os dois cunhados, cuidando mais em fixá-la a ela quase menina, beleza delicada de porcelana, amparando nos braços o sobrinho de fatinho branco com folhos bordados a fio de seda crespo, mangas guarnecidas com ruches de fita de seda; rendas largas depois da bainha aberta, tombando do braço nu de Juliana a cobri-lo um tudo-nada. Mas a madrinha é a condessa de Oeynhausen que, deixando a companhia do marquês de Belas, padrinho ensimesmado, finalmente se aproxima um pouco a contragosto, já a cerimónia do baptismo iniciada.