As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 140 de 289

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As Luzes de Leonor

Diário

Parecendo-lhe adormecida, ele aproxima-se com cautela para não a assustar, dando-se conta de Leonor estar desfalecida,

respirando a custo.

 

†

DIÁRIO

 

Quem é esta que tomou conta de mim?

Sinto a vertigem e a tentação daquela que parte em busca de si própria por caminhos equívocos, por matas e florestas e atalhos, por entre dúvidas, entraves, angústias, à beira de precipícios e ravinas. Ora pisando espinhos de roseiras bravas, ora lírios com a maciez do linho, ora pétalas de glícinias com a sua sombra manchada.

A atravessar, se for preciso, oceanos encapelados, vulcões e lava e lagos de quietude suspeitosa. Entrelaçados, árduos e revolvidos são os caminhos que me levam ao conhecimento.

Atenta somente ao desespero do mundo?

Viena, Setembro de 1784

†

Começa a rondar o berço de Juliana,

embora evite ainda encarar-lhe o olhar violeta, que em si parece deter-se indagador, com uma argúcia que a desconcerta. Diante desta filha recém-nascida, tão depressa se assombra com a sua beleza, como tem pena de a ver delicada e a sumir-se debaixo dos lençóis de cambraia, das cobertas acolchoadas a fio de seda, rodeada de tules, de folhos de cassa, de rendas e laços de nó deslaçado.

A fazer-lhe lembrar Maria Regina na brandura quebradiça, quando a aperta ao peito a querer escutar-lhe o coração que na verdade bate forte e tranquilo. Inquieta-se à toa com o seu pouco choro, ignorando Frederica que, em silêncio, ora parece entreter-se sozinha contentando-se consigo mesma, ora a segue como uma sombra, mais vulto esquivo do que menina.

Carlos Augusto sai de manhã misterioso, calado, e volta silencioso e equívoco no final do dia, a fechar-se no escritório, indiferente ao que se passa à sua volta. Depois de algumas tentativas frustradas para levar Leonor a aceitar a nova maternidade, parece ter desistido.

Aliviada, ela deixa que o marido a evite.

Foge de receber as amigas. Mesmo assim, Maria Wilhelmine visita-a, convida-a para os almoços com Mozart, aos quais Leonor vai sonolenta, desatenta. Carmen desafia-a a sair como faziam antes, mas ela recusa, afundando-se na solidão.

Restam-lhe as cartas chegadas de Portugal às quais responde com queixas, tristezas e azedumes, embora o orgulho a impeça de abrir por completo a alma.

Torna a escrever versos, e em seguida rasga-os.

†

À medida que os dias passam, embora comece a sentir-se menos infeliz, Leonor continua a fugir da companhia dos outros. Evita a presença das filhas. Distancia-se na intimidade com Carlos Augusto. Desinteressa-se da beleza do Danúbio, das ruas, dos jardins e dos parques por onde gostara de passear, e até dos salões cujos debates dantes a entusiasmavam.

Recusa-se ao convívio com as amigas.

Carmen Lopez, com quem tanto se divertira, encontra-a fria e alheada; e mesmo Maria Wilhelmine de Thun desconhece-a na indiferença por tudo o que dantes a motivara. Será com Anna Maria de Zuchy, de todas aquela de quem menos gosta, que Leonor mais fala, e ouve, sem no entanto passar além da superficialidade.

E quando, já no fim de mais uma visita da condessa, esta se refere a Mozart, que continua a tocar em sua casa, pela primeira vez Leonor sente o coração apressar-se-lhe no peito sobressaltado. Como se uma pequena chama azulada e trémula esvoaçasse reacendendo o seu fogo desmaiado.

†

Há muito que deixou de usar o cravo ou o saltério.

Continuando a impacientar-se com tudo e com todos. O céu cinzento e o clima gelado de Viena estão a destroçar-lhe a vida. Cala o que nela começara a germinar. Revolve-se na dúvida, temendo ir longe demais. Desde o nascimento de Juliana que sonha abandonar a Áustria, partir antes do marido, deixando-o para trás com as crianças. Mais uma vez sem respeitar o resguardo do parto.

Como uma fera enjaulada sente-se sufocar dentro de casa, acabando por escancarar as janelas a respirar sôfrega um vento de neve que traz consigo o gosto dúbio a limos e algas do interior das águas mareadas do rio a correr ali perto.

Numa dessas tardes acaba por sair dispensando a carruagem. E levando calçados os sapatos de cabedal mandados fazer para os passeios ao longo das margens do Danúbio, durante horas caminha, a apertar ao peito a capa de lã que mal a agasalha.

Debruça-se nas pontes, com o olhar assombrado de quem vai saltar, para logo partir na direcção dos parques vastíssimos onde se demora a escutar o silêncio profundo. No regresso, pára diante da fachada principal do Burgtheater onde fora assistir à última ópera de Mozart, O Rapto do Serralho.

As neblinas da noite começam a descer sobre a cidade. Agitada, apressa-se a tornar a casa com uma súbita urgência de ver Juliana que encontra adormecida no berço perto de Constanze Sahlin, que já fora ama de Maria Regina.

Inclina-se no berço e afasta a nuvem de gaze para espreitá-la.

Fixamente, procura no seu rosto de boneca um defeito que a faça parecer mais humana, mais credível, mais sua. Muito bela, a menina adormecida tem os lábios rosados entreabertos, as pálpebras translúcidas fechadas e os pequenos punhos subidos na dobra do lençol bordado a ponto de crivo.

Recua e apressa-se na direcção da porta, tropeçando em Frederica que a espreita dissimulada na sombra do corredor. Finalmente no seu quarto dispensa Thérèse, atira para longe a capa onde vinha embrulhada e senta-se à escrivaninha diante da pena e do papel em branco. Mas pouco depois desiste, descoroçoada, a cabeça apertada entre as mãos.

A poesia foge-lhe.

†

Amada da minha alma

«Vai minha Leonor, vai buscar a saúde onde quer que te for mais fácil encontrá-la: é um bem de um preço infinito, que eu recobrei há meses e que trabalho por conservar, até para te ver. Estou de partida para Alcoentre, hoje mesmo sairei, por isso nada te direi agora mais. Tua irmã te remeterá ainda uma encomendinha de pita. Eu recomendo-me ao senhor conde, pondo aos teus pés o meu desvelo.

Sou a sempre tua amiga fiel

Teresa»

Lisboa, Setembro de 1784

†

Exasperada com o frio que a faz tremer o dia todo,

Leonor não sai de perto da lareira onde as achas crepitam.

Voltaram-lhe as enxaquecas…

Com os dedos gelados prime ao de leve as têmporas, e acaba por tirar os ganchos e as travessas, sentindo aliviada os cabelos tombarem-lhe pelas costas.

Inclina-se nas almofadas entorpecida pelo calor do fogo.

E quando Carlos Augusto chega de madruagada, com o olhar aflito de ter perdido ao jogo, diz-lhe de um só fôlego a decisão tomada com afinco:

– Levo os dias infeliz, a sentir-me desgraçada. Não quero continuar a viver sem gosto. Vou-me embora da Áustria o mais breve possível.

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