As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 201 de 289

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As Luzes de Leonor

Angelus

– A Vossa Excelência, senhora condessa, perdoaria eu tudo, caso me désseis oportunidade para tanto. – E fita-a de frente, riso trocista e olhar voraz, impiedoso.

Tal como as suas palavras habitualmente rapaces.

 

†

ANGELUS

 

Também eu te escuto e olho, minha vida.

Resguardado num recanto de sombra,

de onde desfruto a tua imagem, alimento da minha paixão. Apossando-me de ti através do olhar, trazendo-te enredada e aturdida até mim, sabendo que nunca te possuirei.

Mas apesar de tudo minha

doce

no mistério do voo que representam as asas.

Sigo-te a partir de todas as datas e tempos do universo, dos mares e das marés lunares, das constelações celestes, minha estrela e cometa.

Persigo-te, ora rosa ora mirtilo selvagem. A decorar-te as expressões, a fixar-te o sorriso, as palavras, mas desconhecendo sempre cada um dos teus gestos ao mesmo tempo delicados e desavindos, a desvendar-te gostos e segredos. Sem no entanto para ti deixar de ser vulto.

Embora já te tenha visto expectante, como se me adivinhasses na respiração que de súbito sentes junto ao teu pescoço, a enovelar-se na tua nuca; a captares o peso do meu olhar furtivo de espião; enquanto inutilmente tento iludir as tantas ousadias imaginadas a teu respeito, os constantes delírios acalentados e logo recalcados em silêncio.

Lírio tu, minha açucena.

O coração imobilizado, facetado, no desacerto do peito.

†

A Princesa viúva fita-a pensativa,

vestido de luto, com os seus diamantes postos. Olhos pisados das noites mal dormidas, mãos pousadas nos joelhos.

Mais tensa do que lânguida.

Leonor de Almeida tem sobre o regaço de seda, na curvatura onde a saia do vestido malva se torna mais tépida e suave aos dedos, o rolo de papéis onde escrevera os últimos poemas que D. Francisca Benedita mostrara gosto em conhecer.

– Podeis ler os vossos poemas, D. Leonor, a ver se os vossos versos nos ajudam a enobrecer a alma –, diz-lhe a Princesa com um sorriso amargo e melancólico nos lábios descorados.

Leonor desata devagar a fitinha de seda lilás que prende as páginas soltas, cuidadosa desenrola-as, alisa-as ao de leve, e com voz de início fraca, começa a recitar à luz dos lustres do Palácio de Queluz os versos terminados na véspera. E a sua voz, à medida que declama, vai tomando mais volume, tornando-se firme, impositiva e serena.

A Corte está reunida à sua volta em silêncio profundo, gesto suspenso.

Atenta e enredada.

Respiração contida.

†

O pai manda-lhe de manhã cedo um lacónico bilhete:

«Vem depressa, a tua Mãe está sem salvação, às portas da morte.»

Atordoada, Leonor fica inerte, paralisada, vazia.

Ao mesmo tempo que julga dar conta de uma total ausência de emoções da sua parte: imobilizada e presa pela falta de sofrimento, ausência de mágoa, de pena, de lamento, ou de qualquer outra emoção surgida do sobressalto.

E pouco a pouco vai-se instalando nela uma desconcertante e feroz vaga de ressentimento, que num atropelo sobe até lhe afogar o peito. Sem nenhum desejo de pagar «a secura sem colo de sua mãe, com a própria carência faminta».

Entre as duas interpõem-se anos e anos de ressentimentos e desavenças, desacertos que nenhuma delas jamais tentara concertar, sem construírem pontes que ligassem as margens distanciadas para se encontrarem.

A memória gravosa do vazio criador de desapego, que a mãe jamais cuidara de preencher, continua a impor-se. Sempre mais forte do que os possíveis laços de afecto escondido.

†

O marquês de Alorna vê a filha chegar, por trás dos vidros da janela da biblioteca, onde se refugiara depois da morte de Leonor de Lorena.

Há muito já sumidos da vida um do outro, pois nunca a recobrara desde a saída dele do Forte da Junqueira. Nem para a sala nem para a cama. Tentara ainda tomá-la como mulher, mas a primeira vez ela chorara, passiva e inerte, a segunda vez desmaiara nos seus braços.

Nunca mais lhe tocara.

Tão fraca!

Hesitante diante do sentimento que essa debilidade doentia lhe provocava: impaciência irritada mesclada de alívio, logo transformada em satisfação jubilosa, dado ele considerar honestas as mulheres que não são mais do que isso mesmo: hastes frágeis, enfeites de casa e leito, anjos ou demónios de tomar pelo bem ou pelo cabresto, dependendo da submissão ou da rebeldia.

Para insubmissão chega-lhe a da filha mais velha, que por trás da cortina de cassa da janela vê aproximar-se, rosto fechado e pálido, andar firme apesar da tremura das pernas que dali onde se encontra ele não se apercebe mas pressente, dado sabê-la quebradiça onde se mostra rebelde, impressionável onde pretende ser dura, abalável onde se exige indiferente.