As Luzes de Leonor
Angelus
†
Vejo-te a caminhar de novo por entre matas, cerros e atalhos, atravessando trilhos e desacertos.
Com a tentação de te olhar nos olhos, de uma maneira doce e demorada, mas logo me arrependo, impedido pela tua claridade e a minha própria imposição, embora desejando tocar-te, estender a minha mão para aflorar a tua, enluvada de renda, a roçar-te de fugida o pulso nu deixado a descoberto pelo folho da manga e o punho de pelica delicada; sentindo-me prisioneiro de sentimentos que jamais me atreveria a confessar-te, pois para mim és uma deusa e eu um ser alado.
Mas nada me demoverá do meu intento: tu,
minha rainha.
A reinventar-te enquanto te sigo, te espio, te olho de longe; ou quando deslizo à tua beira como uma iridescência, uma transparência, uma sombra; a respirar o teu odor de begónia temperado de nardo, sem poder alimentar qualquer obscura intenção a teu respeito, consciente de não haver solução para a minha paixão recolhida.
Tu.
Leonor.
Prestes a descobrires as tuas asas de penas revoltas e ainda encobertas nos teus ombros. Em breve um espelho tas mostrará nele reflectidas: nacaradas e resplandecentes. Ou serão as minhas?
A perderes para sempre a inocência que te resta.
Vamos cruzar-nos num salão parisiense ou numa das pontes do Sena, mas continuarei a ser para ti somente um vulto a esgueirar-se ao virar de uma esquina; alguém que julgas adivinhar fitando-te à distância. Uma silhueta a desfazer-se na bruma.
Como lamento esta distância cavada entre nós! Mas mal me aproximasse de ti perder-te-ia para sempre, pois a distância é a nossa eterna condição.
Prefiro pernanecer a teu lado nesta relação absurda.
Meu amor impossível.
†
As paredes da carruagem forradas de veludo magenta abafam-na. Mas quando afasta a cortina de damasco e abre o vidro coberto da poeira amarelada dos caminhos de terra, dos buracos e raízes das árvores, para espreitar pela pequena janela que mal dá para ver por onde segue, recebe no rosto uma aragem fria, a fazê-la recuar, aconchegando a gola do casaquinho ao pescoço nu, que no entando não a defende do vento levantado no início das noites passadas em branco.
«Depressa… depressa… depressa…» –, vai murmurando baixo, a boca no côncavo da mão direita com a qual tenta cobrir a cara, a resguardar-se do sol que incendeia o cortinado de couro da janelinha, e passa pela delicada frincha da portinhola de madeira lacada. Mais tarde será o luar a despenhar-se, fazendo-a perder-se em sonhos, bem desperta e ansiosa por chegar, sem prazos a cumprir mas sentindo crescer em si toda a agitação do mundo.
O vestido húmido cola-se-lhe às pernas, desprendendo-se dele um ligeiro odor acre a suor e poeira que lhe intensifica o enjoo, e que ela tenta combater ansiosa por um demorado banho, onde fique mergulhada na bruma dos sais toldados de água quente. Mas, só quando finalmente cai nos braços calorosos de Germaine, permite a si mesma sentir-se cansada.
†
Aperta nervosa a mão muito branca de Germaine, pousada no parapeito ao lado da sua. E sem palavras para exprimirem a emoção que as toma, calam-se, a olharem a procissão vinda da igreja de Notre Dame mal terminara o Veni Creator, a que assistiram o Rei e a Rainha, na companhia da Corte; mais os dois mil e duzentos deputados, que no dia seguinte participarão na abertura dos Estados Gerais.
Diante delas a multidão enche por completo as janelas e os telhados. Leonor, sentindo o ar feito brasa, recua um pouco para a penumbra do vão das portas do terraço, de onde ambas se debruçam sobre as apinhadas ruas de Versailles, ladeadas pelos guardas franceses e suíços e cobertas com as espessas tapeçarias da coroa. Está bem consciente da inquietação que aquele espectáculo lhe provoca, sem no entanto saber explicar a si própria o motivo de sentir aquela bela representação como ameaçadora.
Em torno delas, as varandas, enfeitadas com panos de veludo e brocados luxuosos nos seus bordados a fio de ouro, estão cheias de mulheres inclinadas a baterem palmas e a rirem, vestidas de crepes e cetins, de tafetás e de cambraias. Penteadas com caracóis macios e sedosos, plumas e flores a entrançarem-lhes as madeixas dos cabelos soltos sobre os ombros nus, os decotes a deixarem-lhes a descoberto os seios febris.
Finalmente, ao fundo, surge a procissão avançando a passo lento, com demoras de obscuridade. A abri-la vem a mancha escura de homens vestidos de negro.
– São os deputados do Terceiro Estado – explica-lhe Germaine ao ouvido. Seguem-se os deputados da nobreza, distinguindo-se pelas rendas e pelos ricos paramentos com que estão vestidos, luvas de fio de seda e chapéus enfeitados de plumas.
Faz-se um silêncio pesado, sentido por Leonor como um vazio na boca do estômago, num mau presságio. Silêncio que permanece enquanto passam os prelados nas suas faustosas vestes roxas e faixas pespontadas a dourado. Mais atrás avançam os padres, nas suas modestas sotainas ruças a rojarem o pó do chão, trazendo entre os dedos cruzados pela altura da barriga os terços com as cruzes de madeira penduradas, ondulando à cadência dos passos; entre estes dois lados opostos do clero, há um coro de músicos que, temendo cortar o silêncio, pararam de tocar, limitando-se à escuta.
É então que Leonor se debruça de novo e vê La Fayette, louro e esguiu montado no seu cavalo branco, chapéu emplumado de vermelho, mão esquerda ao de leve a aflorar a anca estreita e a direita tomando com arte as rédeas enceradas. Mas Germaine teima em mostrar-lhe alguém especial, do lado oposto:
– Olha, Mirabeau!
Virando a cabeça, Leonor dá-se conta de como é ele feio e rude, no seu desleixo e na cabeleira revolta, em contraste com a delicadeza dúctil e quase feminina de La Fayette, a quem torna a procurar com o olhar atento que ele parece captar.
Ao reconhecer a filha de Necker, La Fayette cumprimenta-a sorrindo e levando a mão ao peito, mas interessado em saber quem é a mulher a seu lado, bonita e ousada na forma como não desvia dos seus os grandes olhos claros, parecendo afagá-lo.
Mais à frente voltam a rebentar os aplausos à vista do Terceiro Estado, e depois, mais moderados, à passagem do Rei, cabisbaixo, a fitar o chão. E Leonor sente o punhal do medo atravessá-la, ao escutar o rouco murmúrio que se eleva do povo quando este descobre Maria Antonieta, no seu vestido bordado a lâminas de platina e asas de diamantes em torno da cintura estreita, desenhando os contornos da saia de seda escarlate. Brincos longos de diamantes encastoados em prata cinzelada, nas orelhas pequenas.
Há mulheres que, para desfeiteá-la, gritam alto pelo duque de Orléans, e à Rainha, pálida, vergam-se-lhe as pernas. Leonor julga ir vê-la desmaiar, mas arrimando-se num ombro forte, Maria Antonieta endireita-se orgulhosa, olhando em torno com desprezo, a suportar a raiva que se adensa e a cerca.
Germaine enternece-se, sentindo pena dela:
– A Rainha não pode com tanto ódio!
Mas já as suas damas rodeiam e amparam a monarca, como se a quisessem esconder com as longas capas de veludo e os leques de penas coloridas ou de brasão pintado no marfim; mas Maria Antonieta afasta-as com um gesto firme, fazendo Leonor lembrar-se dos pesadelos premonitórios que ela lhe contara em tempos mais felizes, mas nem por isso assim tão distantes. E promete a si mesma não voltar a Marselha sem lhe pedir uma audiência; deve isso à imperatriz Maria Teresa de Áustria, que morrera temendo pelo destino da filha, que sabia infeliz em França.
Devagar, Leonor abandona a varanda, mas na sala onde se refugia continua a dar conta da nauseante mistura do cheiro adocicado do incenso e das velas de sebo, do odor das rosas e das túlipas sangrentas, a contrastar com a leveza do perfume das açucenas e dos lírios brancos, que logo de manhã Suzanne Necker mandara colocar nas jarras.
Germaine continuara no terraço a assistir ao desfilar da procissão, curiosa e entusiasmada, naquele seu habitual jeito de entrega veemente guardado nela desde menina.
Leonor sente-se exausta.
†
Será a melancolia a conduzir-lhe os passos?
Indecisa.
Será a ave rápida capaz de cair-lhe aos pés, caçadora.
Diana?
Ardilosa atiradora e senhora da poesia, conhecendo o nervo que conduz o verso pelos trilhos do peito; na curva do caminho, nas esquinas das ruas, quando se mistura à multidão assustadora.
O amor refulge mais àquela hora porque se contradiz.
Agudeza.
É a chama na anca da chama.
Deixando-se seduzir pelo entusiasmo na acalentada espera; a negar-se no entanto diante de uma imaginada violência, onde a presa jaz no próprio sangue derramado; enquanto a lâmina acerada e voraz continua a descer veloz, atraída pelo fulgor das águas do Sena como um espelho, para em seguida se ir aquietar à sombra do reflexo das lágrimas.
Nunca Leonor vivera tão veementemente!
Nunca participara numa aventura tão desmesurada, tão fugaz e quebradiça no seu fascínio. Por vezes, porém, pensa estar a afastar-se da claridade incendiada das bandeiras rubras, enfunadas pela aragem, passos corridos pelas ruas; vê-se com mágoa a abandonar os dias de chama em que se tem entregado com sinceridade ao ideal sonhado.
†
Quando a Rainha de França entra na enorme sala dos Menus-Plaisir, dois passos atrás de Luís XVI seu marido, é meio-dia. Depois dela vêm os príncipes e em seguida, com brilho, toda a Corte engalanada e sem nenhum ruído, como se deslizasse acima do chão atapetado.
Os fidalgos, um por um, tomam assento.
Maria Antonieta traz o olhar febril e sobressaltado, a sobressair por entre o pó-de-arroz e as tintas utilizadas em vão, para apagar o temor das faces lívidas e o bistre das olheiras fundas.
Não fitando ninguém, mergulhada em si mesma, senta-se muito hirta e com expressão agreste, ditada pelo medo que sente; para encobri-lo abre o leque de seda pintada, atrás do qual dissimula o ricto amargo e áspero que lhe contrai a boca, a que o excesso de carmim empresta um tom sanguíneo que a envelhece.
Leonor, que ao lado de Germaine de Staël vem assistir à abertura dos Estados Gerais onde o pai da amiga, o ministro Necker, irá discursar, reconhece no ar o perfume de rosas e violetas usado pela filha da Imperatriz Maria Teresa de Áustria.
Ao fundo da sala, Mirabeau também não tira os olhos de Maria Antonieta, a dar conta de cada uma das suas expressões, vigiando ao mesmo tempo os gestos e as reacções do Rei, inquieto, sentado no trono colocado num espaço delimitado entre duas colunas, como se estivesse a defender-se.
Em contrapartida, totalmente exposto, o trono leve e simples da Rainha fora posto à esquerda e um pouco mais abaixo. Apreensiva, Leonor julga pressentir o clima das paixões desmesuradas, mesmo se ainda acobertadas, contradizendo o semblante aparentemente tranquilo dos deputados do Terceiro Estado, todos eles de cabeça coberta, à maneira do Rei e da nobreza. Será isso uma insólita surpresa para todos?