As Luzes de Leonor
Monólogo de Leonor de Lorena
Os dois remoendo mágoas mútuas, alimentando suspeitas, analisando diariamente a realidade construída por cada uma das suas atitudes. Medem os actos que suspendem ou neutralizam e, mesmo à mesa, aquilo que dizem ganha uma opacidade surda e pertinaz. Se por acaso se esquecem de evitar olharem-se na fundura dos olhos, ganham logo o cimo das palavras, onde o mais pequeno som se avoluma em demasia.
«Tu és a tenda onde me abrigo», parece por vezes Leonor querer dizer, mas falando o contrário. E o tom da sua voz tem a dureza do diamante e dos sentimentos implacáveis; não se condoendo com nada, nem tendo compaixão por ninguém.
Desse modo a vida parece ir ganhando algum sossego, caminhando a tomar um novo rumo que afinal é ela a conduzir, a controlar com perfeita habilidade.
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MONÓLOGO DE LEONOR DE LORENA
Menina, digo-te com susto.
Nunca tive eu outro pensamento que o de meu Pai e o de meu marido, aceitando grata a obediência imposta, filha, e só de imaginar em desobedecer eu tremo, menina, e gemo quando te escuto falar tanto de vontade própria como do desejo que o corpo faz ouvir, não apenas na quentura do coração mas no resto inteiro, esquecida eu com merecimento de meus suores, sangues e cheiros que cubro, lavo, fecho por dentro da pele, mantendo-os limpos, afastada de todo o pensamento impuro. E então vens tu, filha, mostrar-me a dimensão dos sentidos, tremendo eu só de imaginá-los quanto mais acreditar que os sintas, criança ainda ontem aninhada nos meus braços.
Hoje vejo-te, Leonor, nesse preparo, a exigir sem pejo o que de nós se deve manter afastado. Veio-me então este mau presságio, este sobressalto tamanho a sobrevoar-me o peito, demasiado peso na minha consciência, fazendo-me atenta a ti, à espreita, filha, de teu sobressalto, na tentativa de fazer-te aceitar ainda a existência que te cabe. Mas sendo tão orgulhosa e hostil como tua avó, tudo te parece acto de submissão ou de nó cego. Afrouxa antes a vigilância onde te esmeras, Leonor, escasseando a anca na fugida.
Esquiva.
A negares-te ao preceito, ao preconceito, à mansidão, empurrando de ti a maciez, a brandura temperada, tão imprudente filha embora mulher feita, a recusares o bordado para escolheres a pena e com ela abrindo a alma. Desse modo fugindo, correndo, voando na rebeldia desde sempre, dando medo ou provocando espanto, como sentiam as freiras de Chelas diante de teus dizeres e desatadas ousadias, cabelos soltos para ires à grade onde ficavas sorrindo, namorando, inventando versos. E muito me ralava então o teu riso subido, recitando poesias como quem porfia destacar-se, a exibires o saber pelo avesso do trato da humildade.
Não te entendia na altura e nem percebo agora o que busca a minha filha, o que ganha opondo-se a seu Pai. A invocares teus direitos Leonor como se foras homem, negando-te a aceitar como certo o que te parece errado, filha insubmissa, a negares pergaminhos de sangue e costumes herdados, exigindo em troca aquilo a que chamas novo, moderno ou mudança, invocando em teu auxílio estudos, filosofias e leituras. E quebrada a haste da inocência da mente, invocas a glória e a felicidade, impões tuas distâncias, acendes tuas Luzes, recusando submeteres-te a qualquer autoridade.
Demasiado depressa vais tu preferindo os becos sem saída, no tomar dos atalhos, no escolher das veredas e das subidas íngremes, rolando nas descidas inclinadas, bebendo das cisternas e das fontes inquinadas, no infringir de princípios, regras e maneiras, aproveitando mal a educação que te foi dada. Mas ensinada pela vida a não desistir, volto a pedir-te, filha: adoça teus propósitos, entreabre a guarda, as grades, amansa teus modos, ameniza teu sorriso e maneja a ternura, pede a teu Pai perdão do desacato feito; deixa menina que te sejam colocadas as algemas, as vendas, as mordaças e desse modo mais fácil será colmatar tuas faltas, aprontar-te um qualquer destino, porto seguro. Começa a ceder, Leonor, retrocede um pouco, ganha o feminil entendimento da docilidade, retoma o norte, a memória da casa, como se foras donzela tecendo o fio de teu cabelo.
Como pode opor-se à própria sorte a minha filha? Que louros invocas, convocas para ti, se teimas em manter a pertinácia no defeito; de tão obstinada irás morar na solidão até se a nosso lado. Perdida a pureza da imagem, jamais a reencontrarás em espelho algum, pois a paixão, sobretudo se acrisolada, nada devolve menina; menos ainda se teimares nesse teu excesso que a ti mesma ultrapassa,
filha, nesse mundo sonhado onde te encontras.
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