As Luzes de Leonor
Angelus
†
Fascina-me o langor da inquietude que em torno de ti mesma vais traçando num movimento alado, e só quando me resguardo nos escombros do éden me apercebo da inútil necessidade de esconder-te as asas, desdobradas no cimo dos meus ombros.
Nada de mim permanece encoberto, sendo de ti tudo já assombro.
Uma águia crescida no deserto,
com um poema, tu, em cada mão, na invocação das Luzes – teu sustento –, a enfrentares relutante o proibido, hábil no esquivar dos sentimentos, não fazendo o exposto de ti nenhum sentido.
E aquilo que escondes de sofrido?
Isolda no ardil e na paixão, em doce privação ao meu ouvido; se por amar-te entendo me perder, afastar-me de ti eu não consigo, e por isso vou e fico, voo e sei e corro na rajada do vento desabrido.
Defendo-te, minha amada, e em vão persigo-te, ora fingindo não conhecer o filtro da paixão, ora aceitando aquilo que tu és, e aí sempre ocultando e só depois mentindo com a brandura dos dizeres despidos.
Tomaste para ti as tarefas do gosto e depuseste as outras, ambígua no entretecer e desfazer dos sonhos, das horas maiores.
E a nudez
é sempre o menor gomo do prazer, do que resta entre nós subentendido.
O que perco de mim em cada hora? Se de ti nada possuo com nada fico, quando o excesso que tens já me devora, minha doce-amarga, noite, aurora,
continuo junto de ti e vou embora.