As Luzes de Leonor
Diário
Só então Leonor repara que, para além da mensagem que Pedro lhe escrevera, há mais folhas que o irmão pede que entregue ao Príncipe Regente: «Espero a certeza que lhe chegarão às mãos para me dar a mim mesmo por solto porque, como já não fico militar, não me resta obrigação de subordinação.»
Sem se deter em nada mais, Leonor procura D. Carlota Joaquina, a quem coloca a par do acontecido. Concedendo-lhe de imediato a Princesa autorização e meios para que ela parta a caminho do Palácio de Queluz, onde se encontra D. João. Sem argumentos para aceitar a demissão de Pedro de Alorna, o Príncipe apressa-se a expedir uma ordem para o soltarem.
E quando Leonor, dias depois, quer saber o motivo que o levara a uma situação tão absurda, Pedro apenas lhe diz:
– A causa da minha prisão, mana, é a falta de autoridade do Príncipe, e o excessivo poder do duque de Lafões que não perde uma ocasião para mostrar ser o meu pior inimigo.
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DIÁRIO
Encontrei a Princesa Regente em grande sobressalto.
Acabara de ler uma carta do Príncipe seu irmão, a informá-la da chegada a Madrid de Luciano Bonaparte, que a 6 de Dezembro fora à Corte apresentar ao Rei D. Carlos as cartas credenciais de embaixador francês.
«Segundo dizem, Luciano e Napoleão são muito apegados. Acautela-te minha irmã e diz a teu marido que acautele o seu Reino, que vem por aí muita tempestade, pelo que vejo e escuto por estes lados.»
Longe de Lisboa, o Príncipe D. João não sabe ainda destas notícias, e D. Carlota Joaquina, considerando-as graves, parte amanhã cedo para Mafra a dar parte delas ao Príncipe.
Lisboa, 10 de Dezembro de 1800
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Quando morre o marquês de Ponte de Lima, Leonor está com o pai em Almada, retida desde a véspera por um violento temporal. Para irem ao enterro têm de esperar que o vento e as águas do Tejo amainem, a fim de poderem fazer sem perigo maior a travessia para Lisboa, embora a chuva gelada continue a não dar tréguas.
«Com o marquês desaparece o último arrimo da nossa família junto do Príncipe» – lembra, preocupado, D. João de Alorna. Mas Leonor, que não se esquece da posição hostil do velho ministro em relação a Carlos Augusto quando embaixador em Viena, não deixa de comentar: «Nem sempre ele demonstrou tanto apreço naquilo que a mim dizia respeito…»
A isto, o pai emendou-a com a dureza habitual: «Naquilo que a teu marido dizia respeito… Não a ti, nem à nossa família! E se o marquês se comportou como dizes, lá teria os seus motivos…»
Embora indignada, Leonor cala-se.
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São tantas as Luzes experimentadas por Leonor num excesso de si própria, que se queda interdita, tentando perceber mais do que os luzimentos que nela por vezes parecem confundir-se e confundirem-na.
«Não me apaziguo!» – pensa alto.
Desconhecendo-se sempre que acalmosa, e só tornando a ser ela própria quando volta a incendiar-se, imprevisível. Já que o corpo Leonor julga domar pelo esvaziamento, assustada com a inclinação para a arrogância e a avidez que teme serem de seu carácter.
Suspeita a corroer-lhe o peito, coração apertado pelo anseio. Ansiedade e desacerto que não a ajudam a encontrar sossego na almofada de linho e entremeio de renda da cama fria, onde todas as noites se deita. Consciente de quanto é fraco o saber e defeituoso o seu poder sobre a paixão e o desconhecimento dos sentidos. Levando-a a desentender-se com a própria desmesura, num anelo febril que ultimamente lhe invade os sonhos.
Ansiosa sem entender porquê.
Desprezando o pouco, para logo recusar aquilo que teme ser demasiado.
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A Princesa guarda para si o que sabe,
preocupada com o medo que Portugal sente face à perspectiva de ser invadido pelas tropas espanholas, enviadas por seu pai, o Rei Carlos IV, pressionado nesse sentido pelo favorito Godoy, então aliado de Bonaparte.
Carlota Joaquina deixa errar os olhos escuros pelos labirintos dos jardins de Queluz, que ela conhece desde menina, agradada com o tom fulvo velado do crepúsculo, a colorir as águas cintilantes da Cascata Grande onde os últimos raios do sol mergulham.
Também ela tem os seus informadores, que sempre a põem a par do que se passa na Corte, nas reuniões do Conselho de Ministros ou do Conselho de Regência, assim como de cada uma das decisões de D. João, seu marido.
Desse modo, antes mesmo de a carta do Príncipe Regente para o embaixador português em Inglaterra ter sido expedida a 8 de Janeiro, sabe o que dela consta, embora o seu conteúdo seja estritamente sigiloso. Trata-se da formal solicitação ao governo inglês da ajuda militar prometida, com a maior urgência, «pois a invasão não demoraria mais de quinze dias».
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Algum tempo depois da morte do marquês de Ponte de Lima, ministro de Estado, o Príncipe D. João vê-se obrigado a fazer uma remodelação governamental, começando por aquilo que Carlota Joaquina mais temia: o reforço da posição do duque de Lafões, seu primeiro inimigo, nomeado mordomo-mor e ministro assistente ao Despacho, acumulando com a pasta da Guerra.
A partir desse momento, o duque é quem em Portugal detém o maior poder político depois do Príncipe Regente. Por sua vez Luís Pinto de Sousa Coutinho deixa o cargo de secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra, para ficar incumbido das negociações com Espanha.
Leonor é de novo chamada à pressa ao Palácio de Queluz onde a Princesa Regente a espera em alvoroço, prevendo o pior para si e também para Portugal, país que já considera como sendo seu. Mas para lhe contar tudo com o maior sigilo, desconfiada até das próprias paredes, arrasta-a consigo até aos seus aposentos vazios, onde vai desfiando tudo o que sabe e até aquilo de que suspeita.
Leonor começa por escutá-la incrédula, sem saber o que lhe dizer para a acalmar, suspeitosa dos seus exageros. Mas quando mais tarde encontra a Princesa Maria Francisca Benedita, igualmente preocupada com o curso dos acontecimentos e as últimas decisões do sobrinho, Leonor percebe que tem de prevenir com urgência o irmão do que está a passar-se.
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Pedro de Almeida, que entretanto fizera instalar o seu quartel-general em Lousa, perto de Castelo Branco, confiante nas promessas do duque de Lafões de que lhe serão enviados recursos suficientes para preparar a Legião de Tropas Ligeiras, resolve valer-se das suas poucas posses e maior crédito, e depois de falar com Henriqueta – por seu lado a cuidar dos soldados doentes – e antes que seja demasiado tarde, começa a fazer o que mais urge:
abastecer Almeida;
tornar Monsanto numa praça de guerra;
reconstruir o castelo de Vila Velha, então em ruínas;
levantar trincheiras, cavar fossos, construir barricadas;
fortificar a posição de Telhadas, acrescentando-lhe três redutos, entrincheiramentos e abrigos;
erguer um forte na Guarda, com casamatas, de modo a resistir aos canhões do inimigo.
Entretanto, recolhe fundos para construir um hospital no Fundão onde, tal como em Cardigos e em Celorico, instala centros de abastecimento. Por fim, faz uma estrada que garantirá uma mais rápida ligação com a retaguarda. Conta com as milícias, com as populações e a própria Legião Alorna, menina dos seus olhos. – «Criei um corpo com mil e seiscentos burgueses», escreve ao pai.
E como o dinheiro prometido não chega, Pedro contrai dívidas das quais se dá como garante. Sem reclamar de nada, Henriqueta assusta-se com os inúmeros débitos por ele avalizados, apesar das dificuldades que têm em manter o estilo de vida que pretendem dar aos filhos. Aflita, escreve à cunhada, a quem pede conselho ou pelo menos um consolo amigo.
Leonor responde-lhe em alvoroço na volta do correio:
«Não disponho de verbas tão altas comigo mas, se necessário, desfaço-me das poucas jóias que ainda tenho. E se mesmo assim continuar a faltar-vos, falo com o nosso pai e vende-se o que for preciso.»
Entretanto procura a Princesa Real, a informá-la do que se passa com Pedro. Recorre também a Catarina, tentando convencê-la a influenciar o seu marido Luís Pinto de Sousa Coutinho no único sentido possível: «Por onde pesa o mais justo.»
Henriqueta aquieta-se, à espera dos acontecimentos seguintes.
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Quando recebe o recado da filha a contar-lhe da remodelação do governo, o marquês de Alorna fica a aguardar a próxima estocada que o duque de Lafões aplicará a Pedro, que por seu lado lhe escreve para lhe dar conta de alarmes e temores levantados pelas mudanças governamentais devidas à morte do marquês de Ponte de Lima.