As Luzes de Leonor
Angelus
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Este é o lugar do coração, onde confluem e se misturam as águas dos oceanos e dos rios, matiz urdido ou entretecido pelos nós da chuva e das pérolas das lágrimas. Movida, porém, pelas paixões refulgentes e incendiadas que constantemente negas, embora tanto as queiras em silêncio.
Sempre tão excessiva e tão demasiada.
Simulando brumas e enigmas pelo teu próprio avesso, a tentares defender-te de ti mesma. Por ti eu desdenho a penumbra dos quartos, a morbidez das salas, a turpitude das grutas onde se abrigam aqueles que apenas conhecem ou se empenham nas trevas, na desdita, nos ditames da má sorte. Empenhados em ignorarem a luminosidade, a força e a argúcia das Luzes com as quais te constróis e fazes, em ânsia feminina de estudo e de conhecimento. Atitude escarnecida mesmo por aqueles que manejam a pena.
Preteridos na tua vida e substituídos pelos arcanjos da poesia.
Mas os anjos usam as suas espadas sem comiseração, sem compaixão.
Falando-te com as suas vozes arcaicas.
Estremeço quando penso em Joana d’Arc, a quem de certo modo te assemelhas na determinação e na imprudência; eu próprio escuto as vozes de Joana quando tu as sussurras a ti mesma, tão baixo, que na comissura dos teus lábios elas mais parecem da natureza da bruma e da brisa frágil.
Desacertado suspiro.
«A poesia salva-me» – asseguras por vezes nas assembleias da tua casa, a antecipares pensamentos e palavras de poetisas do futuro; fenda por onde me insinuo como um mergulhador das profundidades, a querer encontrar a fissura por onde se escapa o tempo a misturar as épocas.
Tentando não te levantar suspeitas.
Ou seja, sem deixar de ser sombra. Mais olhar do que presença, a permanecer vulto; invisível tanto para o teu olhar como para aqueles que te seguem por motivos contrários aos meus.
Querendo iludir diante de ti a minha corporalidade simulo-me, apesar de tanto desejar um meio de comunicar contigo, minha rainha. A confessar-te, a perguntar-te: conseguirá um desconhecido entrar onde não pode nem almeja ser visto? Embora seguir-te seja para mim uma arte, um prazer ermo, escuso e inconfessável, um gosto febril, amável mas amargo.
Tu, minha intocável, tu minha adorável e incomparável; sinto-me um estrangeiro no teu mundo rendado de versos da tua arte poética, lugar do meu exílio, onde de bom grado vivo a evitar-te buscando-te na total entrega.
Sem te aparecer mais do que na verdade existo.
A desejar-te, a imaginar despir-te, a defender-te de mim mesmo.
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É Nicolau Tolentino quem leva de novo Bocage até Leonor, ao comparecer com ele numa das suas assembleias, desse modo cumprindo a promessa feita a Catarina: conseguir o reencontro do poeta amigo dele com a poetisa amiga dela, num retomar de entendimento seguro, estreita amizade e admiração mútua, que até à morte de Bocage haverá de ser perfeita, apesar das divergências de gostos e caracteres; numa mistura de versos, de vertigens e estados de alma, de confidências e de desabafos, de constâncias e lealdades.
Ele jamais cedendo na sua rebeldia, na sua intemperança arrebatada, ela mantendo uma sinuosidade que lhe serve para ir contornando os escolhos apresentados pela vida, mais culta e inteligente do que a maioria dos seus pares, impondo-se quando os quer despedaçar, com argumentos poéticos ou filosóficos, sem jamais permitir que invoquem a sua condição feminina quando o objectivo disso é limitarem, segregarem, humilharem as mulheres.
Vendo-a risonha e hábil no manejo do linguajar, grácil no diálogo que trava com quem a rodeia, Bocage julga encontrá-la igual a antes mas, demorando-se a olhá-la, descobre haver um delicado véu de desencanto a toldar-lhe o brilho do olhar claro e traços de amargura que começam a retirar o viço do contorno ainda liso dos seus lábios entreabertos, suspensa do soneto que ele vai recitando enquanto caminham pelas estreitas áleas dos jardins da casa da Boa Morte, onde o luar desce na vã tentativa de atenuar as marcas das máculas, as cicatrizes das feridas, as sombras da melancolia de cada um deles; ao mesmo tempo deslindando sentimentos adormentados nos corações mal aquietados de ambos.
Detectando-lhe o olhar expectante, ela reage escapando para dentro de casa, a reclamar de Catarina a atenção para Bocage, que ela acabara de deixar sozinho. No entanto, de entre todos os que emprestam brilho às suas assembleias, Leonor distingue-o, apesar de o ver por vezes incomodado com a futilidade que julga detectar nos debates e nas discussões acesas. Ora intrometendo-se para com ironia deitar tudo a perder, ora recolhendo-se no escuro dos cantos, onde não chega a doentia luz das velas dos lustres e dos candelabros.
Nem mesmo Nicolau Tolentino ou Joaquim Bingre nesses momentos conseguem convencê-lo a brilhar, apesar de Bocage possuir todas as condições para isso. E quando pressionado, acaba por atacar todos a torto e a direito, afirmando sentir-se superior a cada um deles, ou por confessar-se deslocado nos salões da nobreza, onde se reconhece canhestro, grotesco e grosseiro.
No entanto volta sempre, demorando-se a escutar as árias de David Peres, as oratórias, as serenatas, as fugas de Bach, os concertos para piano de Mozart. Serões musicais que Leonor tanto preza, embora nunca prescinda dos versos, das palavras, da opinião dos poetas que, segundo ela, «fazem florescer a inteligência e o espírito, tornando mais raras as irritabilidades, as agressividades que adoecem os nervos».
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Leonor foi procurar Teresa à grade do convento de Santos no começo de Janeiro do novo ano de mil setecentos e noventa e seis, para o qual já tem tantos planos. E nem indagando pela saúde da amiga ultimamente doente e débil, pergunta-lhe antes mesmo de se sentar:
– O duque de Lafões, o abade Correia da Serra, o conde de Pombeiro e mesmo Pedro… pertencem à Maçonaria. Já sabias isto?
Sem uma palavra ou sombra de sorriso que lhe amenize a expressão fechada do rosto, Teresa manda-a tomar assento à sua frente, e limita-se a dizer-lhe com uma severidade tranquila:
– Há coisas, Leonor, que não devem ser ditas nem perguntadas, até porque nunca serão respondidas. Além do mais, não quero que tragas até mim a sombra das inquietações exteriores, sobretudo se forem fruto do maldizer e da intriga. Hoje, o trilho da minha vida pertence ao caminho que me levará a Deus, embora teimes em encher-me de notícias.
Sem se importar com a sua retórica, Leonor limita-se a tentar encontrar-lhe o olhar, que tão bem conhece enquanto espelho da alma. Nele deseja discernir o lugar da rachadura, da estreita abertura por onde possa entrar para ir até ao reflexo da amiga e, quem sabe, da sua própría imagem.
Mas apenas encontra a opacidade, uma espécie de névoa a opor-se ao desvendar das ideias, impedindo que as emoções venham debruçar-se à superfície da claridade.
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Desde vinte e nove de Fevereiro, dia em que a Real Biblioteca Pública da Corte, situada na ala ocidental do Terreiro do Paço, abriu as suas portas, Leonor não consegue tirar do pensamento os mais de sessenta mil volumes que lá parecem esperá-la. Mas quando lhe dizem ser António Ribeiro dos Santos o bibliotecário-mor, perde a esperança de a frequentar sem luta, sem briga.
Está bem lembrada da indiferença com que ele a tratara quando dos outeiros do convento de Chelas. Ironizando ou mesmo criticando causticamente os seus versos, ridicularizando o seu talento e ousadia. Como na carta então enviada a frei Alexandre da Silva, falando a respeito dela enquanto poetisa: «A cada verso espera os meus aplausos; eu não os posso dar a todos, e não os sei dar a nenhum; canso-me quando os louvo, canso-me quando os não gabo; e no fim de tudo saio mais moído do que salada e venho para minha casa doente para dois meses.»
Leonor também não esqueceu o escândalo levantado pela sua tentativa de forçar as portas da Real Biblioteca Pública de Viena. Só que essas recordações em vez de a desmoralizarem, de a fazerem hesitar ou desistir, acentuam-lhe a curiosidade, acicatam-lhe a necessidade de alcançar e ler cada um dos sessenta mil volumes alinhados nas suas prateleiras.
E só de imaginá-los sente à sua volta o perturbador cheiro a madeira nova das estantes, à mistura com o odor crepitante do papel envelhecido.
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– A senhora Condessa de Oeynhausen, que eu saiba, é a primeira dama a pretender frequentar uma biblioteca pública…
– Nem tanto, senhor desembargador António Ribeiro dos Santos! Podeis estar ciente de que no mundo muitas outras haverá a quererem acrescentar novas Luzes ao conhecimento que já têm.
– Desculpai-me se teimo em ver como coisa pouco natural uma dama preocupar-se com filosofias e letras, quanto a mim contrariando o destino para o qual a fadou a natureza.
– A vossa opinião, senhor desembargador, não me afecta em absoluto. Como tive ocasião de escrever à Rainha D. Maria há anos atrás: «Naquilo que me respeita, nunca me pareceu que o estado de mulher me exclua do trabalho de instruir-me.»
– Nada vindo do espírito de Vossa Excelência consegue causar-me estranheza. Como já ouvi dizer ao Intendente-Geral da Polícia, Pina Manique, a senhora Condessa sempre extrapola.
– Ah! O senhor Intendente-Geral da Polícia pensa isso da minha pessoa? Pois muito folgo em sabê-lo! Espero nunca o desiludir. Mas o motivo que me levou a procurar-vos é outro e bem simples: fui informada que, por ser mulher, necessito de uma especial autorização vossa, enquanto bibliotecário-mor, para poder consultar a Real Biblioteca Pública da Corte…
– A senhora Condessa terá de perdoar-me, mas não prevêem os rigores do uso da nossa biblioteca semelhantes desejos femininos. E creio não ser muita ousadia da minha parte, perguntar-vos: porque não consultar antes a Real Biblioteca do Palácio de Queluz ou do Palácio de Mafra?
– Porque vivo em Lisboa, senhor desembargador António Ribeiro dos Santos! E também porque jamais me conformarei com o facto de as Luzes continuarem a acender-se apenas para os homens. As bibliotecas públicas não podem excluir seja quem for do uso das suas salas.
– Lamento, mas vou repetir: não está nas minhas mãos acudir ao pedido de Vossa Excelência.
– Podeis estar certo de que tereis de fazê-lo mais breve do que imaginais. Partirei daqui para a Corte a avistar-me com a Princesa Real Carlota Joaquina, para que interceda a meu respeito neste ridículo caso.
– Pois iremos ver, senhora Condessa de Oeynhausen, quem terá mais influência junto do Príncipe D. João: se o Intendente Pina Manique, se a Senhora Princesa do Brasil.
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A condessa de Lumiares
sente-se fascinada com Leonor de Almeida, tanto quando a escuta nas suas assembleias, como quando a encontra na Corte. Gosta da sua suavidade agressiva, da sua elegância requintada, da sua muita cultura e talento, dos seus arrebatamentos e desmandos, dos seus versos e olhar tumultuado.
Da sua ardência distanciada e arredia.
E quando ela vai queixar-se a D. Maria e à Princesa Real de ter sido impedida pelo bibliotecário-mor, António Ribeiro dos Santos, de entrar na Real Biblioteca Pública da Corte, ambas ficam do seu lado na discussão que logo se propaga até aos próprios ministros, às infantas, aos fidalgos e às damas presentes, colocados por Leonor diante daquele inusitado caso. Sobretudo por ela continuar a fazer ponto de honra em consultar a biblioteca pública do Terreiro do Paço.
A Rainha mais uma vez toma o partido da sua valida, apoiada pela indignação e a solidariedade de D. Maria Francisca Benedita e da Princesa Carlota Joaquina, que sai disparada em direcção à Sala do Despacho onde sabe encontrar-se o Príncipe D. João seu marido.
A condessa de Lumiares apanha com as mãos pequenas e muito pálidas a saia do vestido vermelho que, ao subir, deixa antever os finos tornozelos das suas pernas esbeltas e, numa revoada de luz e de perfume, corre até onde está Leonor em conversa com Mariana de Arriaga, dizendo num tom de voz comedido mas franco:
– A senhora Condessa de Oeynhausen pode contar com todo o meu apoio. Faço gosto de que Vossa Excelência saiba disso.
E perante o espanto de todos acrescenta no mesmo tom seguro:
– Se D. Leonor não se importar reforçarei com a minha a vossa reclamação, pois também eu faço tenção de passar a frequentar a Real Biblioteca Pública da Corte.
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Minha condessa portuguesa
Minha amiga Leonor
Nem os anos, o silêncio, a distância matam a amizade.
Nem destroem a recordação de uma tão intensa convivência como a que tivemos em dias tão assustadores como apaixonantes, certas de estarmos a ver construir uma sociedade nova, mais justa e humana; onde a liberdade, também para as mulheres, deixaria de ser um mero sonho.
Mas quanto desse sonho se esboroou entretanto!
Perdeu corpo.
Ganhou peso de loucura.
Théroigne, «la notre belle liégeoise», continua internada numa casa de doidos. Dizem-na perdida. Arrisquei ir vê-la, não me permitiram.
Escrevendo, tento salvar-me do desencanto, da desilusão.
Não sei se conseguirei tanto.
Dê-me a minha amiga um pouco do seu alento, se o tiver e achar que eu o mereço.
Fico, Leonor, aguardando com ansiedade a vossa resposta.
Com aquela sincera amizade
que a memória conserva.
Sophie de Condorcet
Paris, 5 de Abril de 1796
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Relê as palavras enviadas por Sophie de Condorcet.
Há muito que não lhe escreviam de França. Nenhuma notícia, nenhuma linha íntima, nenhuma mensagem, nem sequer um simples bilhete lhe fora mandado nos últimos anos; como se a sua passagem por Paris no começo da revolução não tivesse sido mais do que fruto do seu imaginário, devaneio ou fantasia, sonho de construção de uma outra vida que não pudera ou soubera aceitar.
Agora tem conhecimento de que Théroigne continua internada e considerada louca, para sempre privada de Luzes e da razão. Quantas mulheres para sempre perdidas! Submetidas à vergasta da violência!
Leonor, tal como Sophie de Condorcet, reconhece que a escrita tem o condão de resguardar, de salvar, encaminhando-a para a perenidade necessária à posteridade pretendida. A fazê-la voar até mais longe e mais alto.
O mundo não lhe basta.
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Foi a conselho do conde da Barca que a senhora Condessa de Oeynhausen me contratou como preceptor de suas filhas. Especialmente das meninas mais velhas, a perderem-se já em sonhos próprios da idade, o que as leva a querer afastarem-se do estudo, cousa que D. Leonor nunca toleraria, defendendo com convicção ser a ignorância o gérmen, a raiz de todos os defeitos e ignomínias.
– A ignorância pode levar ao crime, mestre Crescentini! – lembra-me sempre que encontra pretexto para isso.
Julgo começar a conhecer melhor as minhas novas alunas: D. Juliana, de inteligência viva e curiosa, mas demasiado interessada em si mesma para prestar atenção às aulas. Apesar de rapariguinha ainda, o seu principal interesse é aprimorar a sedução em que por certo se irá tornar exímia.
Já D. Frederica, pelo contrário, está virada para a vida à sua volta, esquecendo-se de si própria; é uma excelente conversadora, vivaz e divertida. A dificuldade é mantê-la quieta e atenta ao estudo.
D. Leonor Benedita é a mais interessante. Sempre que a mãe se encontra por perto torna-se tímida: emudece, encolhe-se, como se sumisse ou diminuisse, partindo a procurar refúgio na biblioteca da casa, dividindo-se entre Camões, Dante, Horácio, Petrarca.
Sonhando.
A evadir-se, a evitar os livros que a condessa comprou no estrangeiro e que ela, aliás, me garantiu já ter lido, novinha ainda, no escritório do avô. Mostrando-se mais fascinada diante dos volumes vindos de casa de seus outros avós, que D. Brites Fernandes conseguiu salvar das estantes do palácio do Campo Pequeno, antes que Pombal deles se apropriasse, como fizera com as porcelanas, os marfins de Goa, com as lacas, com os cristais e os serviços da Companhia das Índias.
Durante as aulas, são inúmeras as vezes que a apercebo perdida em pensamentos e devaneios, debruçada diante do caderno onde começara um poema; pena entretanto esquecida e seca entre os dedos, tinteiro de prata aberto à sua frente. E quando finalmente me atrevo a chamá-la, ergue a cabeça, face desmaiada, olhar imenso e perdido.
Esvaziada de tudo.
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Na Corte saltava-se então com frequência por cima da calmaria e da tranquilidade, trocando-se de bom grado o gosto pelos bailes de gala ou dos saraus na Sala da Música do Palácio de Queluz onde se escutava Gluck, Haydn e Bach, pelas modinhas brasileiras, as malaguenhas, os pasodobles, enquanto a Princesa do Brasil, fingindo-se esquiva, ia na verdade permitindo que os jovens fidalgos fogosos e afoitos se aproximassem em demasia; a cabeleira tão espessa e crespa a soltar-se pelas costas morenas, disfarçando-lhe um dos ombros mais baixo do que o outro devido a uma desastrada queda de cavalo.
Apesar de tudo, havia alguns fins de tarde calmos, passados nos salões de talha e espelhos, por entre as pratas, os jades, as lacas e os marfins; candelabros com velas marfinadas só acesas no final dos crepúsculos dolentes, a que se assistia ao som de tocatas de cravo e cantatas, de pequenos e delicados trechos de harpa hebraica, a estilhaçarem os risos que iam morrendo por trás dos leques e das mãos flutuantes na penumbra das salas, a que só os papagaios do Paço emprestavam alguma cor.
Quando a Princesa Carlota chamava Leonor para declamar poesia, o salão enchia-se, e num silêncio profundo escutavam-na, suspensos das suas palavras, dos seus versos. Prisioneiros do timbre levemente mordido da bela voz cuidada. Por vezes, a Princesa Maria Francisca Benedita, com os seus vestidos de luto e os seus diamantes, acompanhava-a ao saltério, sendo sempre muito aclamadas, até por D. João que fazia questão de mostrar grande apreço pela tia.
Se a Rainha se sentia melhor ia ouvi-las, com um disfarçado e amargoso sorriso triste, dando no fim a mão a beijar a Leonor que, comovida, se inclinava diante dela.
Nos abafados salões do Palácio sufocava-se: cortinados espessos e corridos na inútil tentativa de iludir o negrume das noites, que levaria a perder-se quem quisesse aventurar-se para lá dos jardins, das alamedas das laranjeiras e dos limões doces, do Canal revestido de azulejos. Ultrapassando o Pavilhão Chinês e as jaulas dos bichos, quem sabe se a tentar encontrar o caminho da Matinha, ladeado de zambujeiros e salgueiros-chorões perto da ribeira do Jamor, que se ouvia a correr algures embrulhada pelas névoas das madrugadas embruxadas de uma quente primavera sem estrelas. Mais perigoso ainda seria seguir em frente pelos atalhos onde se cegava de bruma, por entre os eucaliptos e os vidoeiros a ciciarem baixo,
tocados por uma aragem atravessada e ressentida.
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Por vezes Leonor perde-se nas madrugadas quando, durante as insónias, sai de casa, atravessa as sombras da alameda, abre com cuidado o portão de ferro trabalhado e fecha-o sem ruído atrás de si, a procurar impaciente na cerração da noite o lenitivo para a falha, a fenda, a brecha, a falta.
A fissura que sente cavar-se, a cravar-se nela, a esgarçar-lhe a fundura do peito.
Extinto o incêndio de que se alimenta, ela apaga-se.
Como se corrompesse os nós do seu sangue.
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Quando chega a sua hora, Henriqueta de Alorna há muito que tem tudo preparado: a cama onde quer parir o filho, a tesoura para cortar as dores, a imagem da Senhora do Bom Parto rodeada pelas suas velas altas no oratório do quarto, os panos de limpar os suores e os sangues, os lençóis de linho, um ramo de arruda debaixo do travesseiro, o búzio e o trevo na mesa-de-cabeceira para afastar os maus espíritos; amuletos e escapulários em fio de seda entrançados, pendurados entre os seios, para apressar o nascimento.
Manda aprontar também as bacias e os jarros para as águas ferventes, as camisas de muda, e sobre o tampo da cómoda de alçado, num cesto forrado de seda chinesa, colocara ela mesma a camisinha de cambraia, a touca, o cueiro, as fraldas, as faixas para a criança.
Estremece.
Henriqueta estremece, sozinha no silêncio da casa.
Às primeiras contracções que nela se esgueiram rápidas como relâmpagos incandescentes na travessia do corpo, cerra com determinação os lábios finos e secos para não gritar.
Chama a parteira e manda embora Pedro, que não disfarça a ansiedade, nem o desejo de apertar nos braços um filho varão. Por seu lado expectante, D. João de Alorna, seu sogro, aguarda o neto a quem passar o testemunho: nome e brasão.
A esperança da família.
Desde a primeira falta que Henriqueta receia ter uma rapariga a crescer na sua barriga. Como nunca acontecera antes, ela sente-se alguém com valor, apreciada e imprescindível. Portanto, não pode cometer o erro, a insensatez, de parir uma filha!
Possui no entanto a garantia daquela que lhe ensinara a engravidar, de ser um rapaz que porá no mundo. Mas, dissera-lhe também, desviando dos seus os equívocos e turvados olhos amarelos de feiticeira, que em relação a esse filho os astros apresentam uma leitura ruim.
Leonor troçara do seu sobressalto e quisera conhecer aquela estranha mulher que diz chamar-se Lilias Fraser. Nome que ela repete, certa de o conhecer, tentanto encontrar na memória uma pista, um rosto, uma referência, um rasto que a leve até ela. Adivinhando-a recolhida numa história antiga que gostaria de lembrar.
– Não deixes enfaixar a criança! – alertara a cunhada, com o propósito de desviar o próprio pensamento inquieto.
Quando lhe rebentam as águas Henriqueta de Alorna manda-a chamar com urgência, ansiosa que ela chegue, sempre tão conhecedora e diferente. Embora nunca se tenham dado bem, Leonor é a única pessoa que naquele momento deseja a seu lado, a querer sentir-lhe o firme aperto da mão,
a tentar acalmar-lhe a urgência do medo.
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Esperaram que terminasse o tempo de resguardo de Henriqueta pelo nascimento de João para irem passar o resto do estio a Almeirim.
O marquês de Alorna, que desta vez sai de bom grado da casa de Almada – levando na bagagem um cavalo de pau para dar ao neto recém-nascido – pretende aproveitar aqueles dias para o olhar mais de perto a vê-lo crescer um pouco a seu lado, e falar com o filho sobre o confronto por ele mantido com o governador da província do Alentejo.
Pedro de Alorna, depois de mais uma disputa com o poder militar, em que ficara do lado dos capitães, necessitado de descansar e de ter um tempo de tranquilidade ao lado da família, entregara o comando do seu regimento a um adjunto de confiança. Precisa de repensar a sua vida.
Leonor, em resposta ao apelo do irmão, segue-o com as filhas e o pequeno João Ulrico, animados por deixarem a casa da Rua da Boa Morte. Deles, apenas Juliana, tal como ela mesma, vão desagradadas por abandonarem Lisboa, a caminho de se perderem de novo naquele ermo. A ela fazem-lhe falta os debates, as dicussões, a leitura dos poemas, os convites para os saraus e as assembleias. Os aplausos.
Henriqueta de Alorna, só contrariada sai de junto do berço de João, sem perceber de onde lhe vem aquele pressentimento ruim de perda, de susto, estilhaço de medo enterrado no peito. A fingir ignorar em silêncio o olhar de mau presságio que Josefa lança ao menino enquanto vai murmurando entre dentes…
Uma ladainha, uma arenga, uma prece?
Deitando ou detendo um feitiço?
«Deixa-a, está velha, já não sabe o que diz nem o que faz» – aconselha-a Leonor, apreensiva com a cerração adivinhada no olhar fugidio da mulher de Pedro, não vendo razões convincentes para tamanha aflição. Henriqueta, por seu lado, não encontrando na cunhada eco dos próprios alarmes, distancia-se. E Leonor, sem outra companhia que não sejam os livros e a poesia, refugia-se na leitura, na frescura das amoreiras ou no repouso da mata,
ao pretender ficar mais isolada ainda.
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As conversas de Leonor com o irmão têm pouca continuidade e rara privacidade, sempre interrompidas pelo pai, desabrido e ríspido em relação a ela, terno e tolerante com tudo o que diga respeito a Pedro, guardando as severidades para a filha que considera insolente e a quem nada desculpa.
Cada um por si, em oposição ao outro.
Ultimamente preocupado com as atitudes do filho, que julga serem impensadas, folhetinescas ou influenciadas por má companhia, D. João aproveita aqueles dias na quinta de Almeirim para manobrar de modo a demorar-se a sós com ele, na tentativa de o conduzir no sentido da prudência e da sensatez. O marquês de Alorna desconfia da amizade de Pedro e de Freire de Andrade, que suspeita estar enfeudado aos princípios da revolução francesa. E quanto mais o filho defende o amigo, mais se mostra desagradado com aquela convivência-conivência, que quanto a si contém todos os motivos para um dia vir a tornar-se nefasta.
Além disso, adivinhando a frieza no relacionamento dele com a mulher, tristonha e apagada, vai tecendo elogios e loas à nora, a quem trata com um desvelo para si mesmo desconhecido. «Dá mais atenção à tua mulher, que é uma santa…» – aconselha, desabrido, ao encontrá-lo um dia em ameno convívio com a irmã. E apercebendo-se do admirado olhar de Leonor Benedita, a escutá-los sem que dessem por isso, envergonha-se do destempero.
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Leonor Benedita desconhece o avô, que pela primeira vez não lhe dá atenção como é seu hábito. Apesar de mulher feita, custa-lhe vê-lo constantemente a rondar o berço do neto recém-nascido, com uma emoção de sobressalto nele inusitada.
Imaginara que no sossego de Almeirim pudessem retomar o profundo afecto que os unira durante anos, mais pai para ela do que fora avô quando se sentira órfã não o sendo, e desse modo suturando a falta, a falha aberta no seu peito de menina abandonada.
Quem sabe – pensara ela – talvez até conseguisse baixar a guarda e descansar um pouco na sua companhia, abrindo-se como nunca antes, a não ser com a avó entretanto morta; a confessar a D. João as suas insónias, os desafectos, as inseguranças e os receios que continuam a rondá-la, farpa de vidro enterrada na chaga do seu peito.
Mas como se podem dizer as dores das dores?
Explicar as lágrimas quando elas já não correm?
Dizer da rosa começando pelo seu espinho?
Leonor Benedita dá grandes passeios sozinha pelas matas que rodeiam a casa, seguindo o seu itinerário de frescura, tentando mitigar a angústia que nela parece ter feito ninho para sempre. À noite escreve versos em segredo… Eles são o seu sigilo, o seu lenitivo, a sua salvação. No entanto assusta-se ao imaginar que a mãe possa vir de novo a saber dessa sua ousadia, e lhe ralhe como acontecera quando Leonor Benedita era ainda menina e ela lhe encontrara um poema no resguardo do bolso do bibe. Teme sobretudo que a mãe possa julgar que ela quer imitá-la, tentar igualá-la. Aliás, a filha sabe que Leonor de Almeida é inimitável, inigualável, inultrapassável, olhar de metal ardente a queimar-lhe o coração incendiado…
com o seu gelo.